Vampiros na literatura brasileira

            Apenas nos últimos anos a literatura brasileira voltou-se com mais visibilidade para o mito do vampiro, explorando o imaginário sobre estes seres. Em especial, o autor André Vianco, que criou algumas séries, tendo narrativas conectadas, usando vampiros como personagens principais, acompanhando a tradição mundial. Vianco inovou em alguns pontos, que exploraremos mais à frente, encaixando-os dentro de nossa sociedade. O que não significa que não houveram incursões anteriores entre nossos autores.
            De acordo com Shirlei Massapust (2002), os nativos da América do Sul, antes mesmo da colonização portuguesa, possuíam lendas e mitos sobre seres sugadores de sangue.

[...] os apinajés do Alto Tocantins já contavam lendas sobre os cupendipes; uma estranha nação de índios notívagos que, dotados de asas de morcego, degolavam pessoas e animais com machados de lua. Colhida por Carlos Estêvam de Oliveira, sua principal narrativa descreve como guerreiros de dez aldeias se reuniram para invadir e incendiar a caverna que, durante o dia, abrigava a raça alada que ali repousava de cabeça para baixo. [...] Entre as aldeias waiapã, do Amapá, fábulas antigas alertam os incautos dos ataques do Anerao, o morcego canibal. (MASSAPUST, 2002. p. 29)

            Estes relatos são advindos de histórias passadas de forma oral entre as gerações dos indígenas que temiam seres noturnos que roubavam e matavam suas crianças e os descuidados. A mesma autora relata casos de seres associados aos vampiros ou que agem como tal no folclore do Nordeste e em casos no Norte do país.
            Contudo, mesmo não sendo o gótico, – predominante em países como Inglaterra e Alemanha que abordaram mais entusiasticamente a temática sobrenatural – um gênero explorado pelos autores brasileiros, no século XIX alguns escreveram obras que abordaram o vampiro, na maior parte implicitamente, porém o tema sempre esteve à margem na literatura brasileira. De acordo com Ferreira (2002), “é possível afirmar que o vampirismo sempre se manteve à margem na história da poesia nacional, pontuando aparições breves e incipientes”. (FERREIRA, 2002. p. 181)
Alguns exemplos são do poeta Silva Alvarenga no poema A noite em que uma das frases fala de um ”vampir de sangue tinto”; em Fantasia de Teixeira de Melo temos “Vem às horas dos pálidos vampiros”; já em Amor e Medo, o poeta Casimiro de Abreu diz que “vampiro infame, eu sorveria em beijos/toda a inocência que teu lábio encerra”. Estas e outras poesias, além de alguns poemas do século XIX, mencionam timidamente o vampiro que aparece somente como figuração ou metáfora e nunca como foco central da trama.
Uma das obras mais conhecidas do período é de autoria de João Cardoso de Menezes e Souza. Octavio e Branca ou a Maldição Materna de 1849, é um romance em versos considerado o primeiro a trazer a figura do vampiro. “Meia-noite soou! – Nos ares trêmulos/Fúnebre echôa o som do campanário/De horror gelando o coração dos vivos!/[...] só ousa violar a mudez tão erma/Do pássaro da noite o guincho agudo,/E uivos de cães, quiçá correndo em cata/De maligno vampiro redivivo”. (SOUZA, 1849 in: FERREIRA, 2002. p. 210). A meia-noite é a hora do vampiro e dos espectros que rondam a noite. Ao final o pai da moça morta, Branca, chora em sua sepultura enquanto um morcego a sobrevoa. Na manhã seguinte é encontrado morto e a narrativa sugere que foi sugado por vampiros.
Menon (2011) agrega a lista o consagrado Aluísio Azevedo, autor de romances como O cortiço (1890). Em A mortalha de Alzira escrito em 1891, o escritor aborda, além do vampirismo tradicional, o psíquico contando a história do padre Angelo e de Alzira. Após sua morte a mulher assombra o padre e é descrita como uma vampira que leva o pobre padre apaixonado até a exaustão e, por fim, o suicídio.
Mesmo não sendo reconhecidas como histórias de vampiros, possuem seus elementos e demonstram o conhecimento dos autores brasileiros quanto a temática. Ainda de acordo com Menon (2011) a narrativa não se desenvolveu no Brasil por conta de seu clima e organização, tanto cultural quanto espacial, pouco propenso a assimilação da atmosfera gótica[1].
            A literatura sobre vampiros no Brasil tem sido mais abundante nos últimos anos, obviamente, ao comparar a produção dos séculos passados com a atualidade devemos considerar a facilidade de acesso e divulgação permitidos pela internet e pelos meios de comunicação. Há uma série de sites que se dedicam ao tema, bem como autores independentes que se debruçam sobre o tema em coletâneas de contos e poesias. A ampla difusão e circulação mundial e a troca de ideias em nosso mundo globalizado também facilita e aumenta a influência mutua.
            Em 2007 uma coletânea chamada O livro negro dos vampiros, organizada por Claudio Brites reuniu cerca de 50 contos de diferentes escritores nacionais, todos abordando o assunto em diferentes formas de prosa, mas com um ponto comum: o vampiro como foco principal. Os autores são de diferentes áreas e idades, muitos iniciantes.
            Partindo para a literatura infanto-juvenil um livro bastante interessante e irreverente é O vampiro que descobriu o Brasil de Ivan Jaf que conta a história de Antonio, um português vampirizado em 1500 que tenta recuperar sua mortalidade e humanidade destruindo aquele que o mordeu. Para isto, ele segue o vampiro para a esquadra de Cabral – onde o monstro está escondido – e acompanha a viagem e a descoberta e o desenvolvimento de nosso país até os anos 2000 misturando personagens da História do Brasil com a ficção fantástica.
            A década de 2000 viu surgir a série de livros com histórias conectadas – em torno do mesmo grupo de vampiros – escrita por André Vianco; o que consideramos uma das mais expressivas na literatura brasileira atual. Sem considerar as questões relativas aos cânones acadêmicos, julgamos sua importância por conta de seu alcance, visibilidade e vendas, além de inovações. A história d’O vampiro que descobriu o Brasil, por exemplo, pode ser interpretada como influenciada pela obra de Vianco que, por sua vez, traz influencias da literatura mundial mescladas com situações adaptadas à nossa própria sociedade.
            A narrativa percorre o Brasil e envolve diferentes personagens em diferentes posições. Tudo começa quando um grupo de mergulhadores descobre uma caravela naufragada no litoral do Rio Grande do Sul. Ao explorar a embarcação eles se deparam com uma gigantesca caixa de prata com um aviso de que não deve ser aberta em hipótese alguma: “Nobres homens de bem, jamais ouseis profanar este túmulo maldito. Aqui estão sepultados demônios viciados no mal e aqui devem permanecer eternamente. Que o Santo Deus e o Santo Papa vos protejam” (VIANCO, 2001. p. 27). A caixa era de 1500. Obviamente, com a curiosidade despertada, o grupo chama uma equipe de pesquisadores da universidade local que abre a caixa e liberta sete vampiros portugueses aprisionados desde o século XVI quando, tendo sido finalmente capturados depois de uma exaustiva caçada em Portugal, foram lacrados dentro da caixa de prata[2] e enviados à Cabral em uma caravela que ele tinha ordens para afundar em alto mar.
            Após serem, acidentalmente libertados, os vampiros passam a vagar pela cidade descobrindo o Novo Mundo, sem fazer a menor ideia de onde estão ou quanto tempo se passou. Ao descobrir que estão em 1999 os vampiros se assustam e ficam perplexos com a vida moderna e suas tecnologias sendo constantemente surpreendidos. Esta é uma das inovações que gostaríamos de apontar na obra. Em geral, ao ficarem inconsciente ou presos, mesmo passando-se centenas de anos os vampiros parecem naturalmente adaptados ao tempo em que estão, sem sustos ou dificuldades.

Inverno perdeu uns instantes olhando para o cômodo. Havia uma espécie de poltrona feita de algum tipo de porcelana ou material vítreo. [...] Manuel entrou no cômodo e parou diante da poltrona. Na parede, na altura da cintura do invasor, havia uma peça metálica, pequena, de formato cilíndrico. O vampiro levou a mão até a parte de metal e pressionou-a. Pela primeira vez em séculos, assustou-se, chegando a saltar para trás. A poltrona de porcelana soltou um rugido, inundando a si própria com um turbilhão d’água. (VIANCO, 2001. p. 135)

            Em todo seu percurso pelo país fugindo do exército, que à esta altura já está em seu encalço por terem fugido das instalações da universidade, os vampiros portugueses vão aprendendo sobre o novo século em que acordaram: luz elétrica, trens, aviões, automóveis, armas de fogo, telefones, televisões, centenas de utensílios e aparatos tecnológicos. Numa passagem cômica, dois dos vampiros estão caminhando por um trilho tentando identificar do que se trata quando surge um enorme trem de carga, deixando-os aturdidos com aquela “horrível cobra metálica”.
            No livro seguinte, Sétimo, lançado em 2002 a história continua do ponto em que parou em Os sete. Sétimo é o vampiro mais novo, o irmão caçula que vendeu a alma de todos ao diabo e está preparando um exército para lutar contra os irmãos, neste meio tempo, os brasileiros estão aprendendo a lidar com os vampiros que estão arregimentando exércitos também para lutar contra o irmão odiado.
            A saga termina em 2008, com a trilogia O turno da noite que finaliza a história. Após os Sete serem destruídos, sobraram apenas alguns vampiros. Um grupo de quatro amigos que haviam sido transformados é arrebanhado por um misterioso vampiro ancião sendo treinados e utilizados como vigilantes. Eles aceitam a tarefa por acreditarem ser mais nobre matar bandidos para se alimentar ao invés de pessoas inocentes. Uma das ironias mais mordazes de Vianco está no final e traz em si, o desejo de muitos e a crítica ao mundo da política e dos homens no poder.
           
Alexandre encostou o carro e o quarteto desceu, recebendo o ar morno da noite brasiliense. Olhando para a Câmara dos Deputados, Alexandre sorriu mais uma vez.
--- Se querem sangue ruim, aqui é o lugar. Fome a gente não passa tão cedo. [...]
--- Qual é o primeiro da lista? [...]
--- Um certo senador Everton Trapeiro.
--- O presidente do Senado? Logo ele?! [...]
--- [...] Decidimos que atacaríamos por ordem de processos. [...]
O quarteto começou a marchar em direção ao senado.
A estada em Brasília seria longa, bem longa. (VIANCO, 2008. p. 917-918)

            No mesmo ano, 2008, foi lançada a HQ Os vampiros do Rio D’Ouro contando como Sétimo traiu os irmãos vendendo sua alma ao diabo, a transformação dos Sete e sua trajetória e perseguição numa pequena vila de Portugal até o momento em que são trancafiados dentro da caravela para serem afundados em alto mar, fechando o ciclo da saga.
            Mesmo não tendo a tradição secular de histórias de vampiros que possui a Europa e por consequência e influência direta, os Estados Unidos, a literatura brasileira também produziu suas obras sobre a temática. Nossos escritores não foram tão propensos ao gótico, devido em muito ao nosso amalgama cultural, mas não fugiram a repercussão do mito. Mesmo que de forma tímida e, muitas vezes, apenas sugerido, o vampiro apareceu em suas obras.
Na atualidade, mesmo sendo poucas os livros e escritores nacionais que produzem obras vultosas como a de Vianco que, em 2010, quando concedeu uma entrevista à Livraria da Folha, já havia publicado 14 livros de literatura fantástica focando o vampiro.  Desde então a produção nacional aumentou significativamente, muito em sincronia com a literatura mundial e por extensão com o cinema e as mídias em geral. Autores brasileiros como Giulia Moon[3], Martha Argel[4], Nazareth Fonseca[5], e Adriano Siqueira[6] tem há anos se dedicado ao fantástico e afirmam que o mercado editorial no Brasil está se abrindo cada vez à estes temas por conta da conta do consumo dos leitores o que demonstra a permanência deste mito e sua propagação no imaginário mundial mantendo vivo este ser imortal e atemporal.
A literatura brasileira tem muito a ganhar com esta mudança de perspectivas que atrai, cada vez, um público muitas vezes preconceituoso e desconfiado com o que é escrito por aqui que começa a se surpreender com a produção literária de nosso país. São histórias e narrativas tão atraentes, fascinantes e bem escritas, que prendem o leitor tanto quanto muito do que é sucesso e vem importado e traduzido de outros países.
Nacionais ou estrangeiros; nas matas ou nas grandes cidades; vivendo às escondidas ou se expondo aos humanos; jovens ou maduros; enfim, os vampiros permanecem no imaginário humano desde sempre povoando sonhos ou pesadelos e sempre se mantém em constante adaptação reforçando a força e antiguidade deste mito que tem uma origem tão diversa que é praticamente impossível rastreá-la.

*Obs. Este artigo é parte de uma colaboração para o livro Imagens da América Latina. Disponível em: http://oguari.blogspot.com.br/p/livro.html

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS:
ARGEL, M. e MOURA NETO, H. (org.). O vampiro antes de Drácula. São Paulo: Aleph, 2008.
BILGER, N. Anomie vampirique, anémie sociale: pour une sociologie du vampire au cinéma. Paris: L’Harmattan, 2002.
BRITES, C. (Org.) O livro negro dos vampiros. São Paulo: Andross, 2007.
COSTA, F. M. (Org.) 13 melhores contos de vampiros. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.
DUARTE, L. Literatura fantástica: a nova cara da literatura brasileira. In: Universo Fantástico. Disponível em: <http://universofantastico.wordpress.com/2012/02/24/literatura-fantastica-a-nova-cara-da-literatura-brasileira/>. Acesso em: 15 jul. 2014.
FERREIRA, C. V. Treze obras vampíricas: vultos e sangrias na poesia brasileira. In: _____. (org.). Voivode: estudos sobre vampiros, da mitologia às subculturas urbanas. Jundiaí, SP: Pandemonium, 2002. p. 179-181.
GELDER, K. Reading the vampire. Londres: Routledge, 1994.
JAF, I. O vampiro que descobriu o Brasil. São Paulo: Ática, 2004.
JARROT, S. Le vampire dans la littérature du XIXe au XXe siècle. Paris: L'Harmattan, 1999.
MASSAPUST, S. Dos Apinajés à Quimbanda: vampirismo luso-brasileiro. In: FERREIRA, C. V. (org.). Voivode: estudos sobre vampiros, da mitologia às subculturas urbanas. Jundiaí, SP: Pandemonium, 2002. p. 27-36.
MENON, M. C. Vampiros: algumas faces do monstro em narrativas brasileiras. In: Anuário de Literatura, 2011, vol. 16, n. 2, p. 185-196.
SOUZA, J. C. M. Octavio e Branca ou a maldição materna. In: FERREIRA, C. V. (org.). Voivode: estudos sobre vampiros, da mitologia às subculturas urbanas. Jundiaí, SP: Pandemonium, 2002. p. 210-221.
VIANCO, A. Os sete. Osasco, SP: Novo Século Editora, 2001.   
_____. Sétimo. Osasco, SP: Novo Século Editora, 2002.
_____.  O turno da noite. Osasco, SP: Novo Século Editora, 2008. Volume Único.
_____. Entrevista concedida à Fernanda Correia para a Livraria da Folha em 30 de junho de 2010. Acesso em: 15 jul. 2014. Disponível em: < http://www1.folha.uol.com.br/folha/livrariadafolha/757095-escritores-de-livros-de-vampiros-sao-bem-normais-no-fundo-diz-andre-vianco.shtml>.


[1] Um típico ambiente gótico seria um antigo e arruinado castelo, com quadros vivos, salas assombradas, escadas labirínticas, porões com fantasmas e mortos-vivos, tudo muito sombrio e escuro.
[2] Ao contrário do senso geral, as lendas antigas, originárias do Leste Europeu, trazem a prata como uma forma de aprisionar vampiros e/ou enfraquece-los. Na série Sookie Stackhouse, Charlaine Harris retoma isto fazendo com que prata seja usada para deixar os vampiros indefesos.
[3] Autora de Kaori – Perfume de vampira (2009), Kaori – Coração de vampira (2011), entre outros.
[4] Autora de Relações de sangue (2002), O vampiro da Mata Atlântica (2009), entre outros.
[5] Entre suas publicações está Alma e Sangue (2005).
[6] Algumas de suas obras são Amor Vampiro(2009) e Adorável Noite (2011).