Referência interessante

Como havia informado, estou postando os verbetes constantes nos dicionários mencionados anteriormente. Será um trabalho que demandará algum tempo e, por isto, peço a paciência dos interessados. 
Hoje inclui as primeiras postagens do Dicionário dos Deuses e Demônios, o link de acesso está disponível na lista alocada na lateral esquerda do blog. 

As postagens serão feitas por etapas, conforme houver possibilidade, mas darão acesso a um material bastante rico para aqueles que, como eu, são fascinados pelas criaturas míticas e lendárias que fazem parte do imaginário universal. Todas serão devidamente referenciadas, peço aqueles que as utilizem que referenciem também. Espero que apreciem!

Dicionário ilustrado dos monstros

Este é um livro singular, produto de uma vasta e paciente investigação, que sem dúvida constitue um marco no estudo de um dos produtos mais curiosos e significativos da mente humana. 

Ao considerar a imensa quantidade de materiais que este dicionário recolhe entre as lendas, os mitos, os relatos e a expressões artísticas de todos os povos do mundo (no total são mil descrições de seres monstruosos), é interessante observar como coincidem vários nomes e descrições que são apenas superficialmente diferentes, em civilizações distantes no tempo e no espaço, os mesmos arquétipos, reduzíveis a um limitado número de monstros que permanecem em nossa memória (dragões, anjos, duendes, sereias, etc.). 

Ele é tão surpreendentes quanto parece: trata de "monstros" que encarnam mentalidades ligadas a conceitos constantes na realidade humana (vida, morte, amor, conhecimento, medo, ódio, esperança...) e que constituem, por conseguinte, criações permanentes e universais.

Junto a estes, existe toda uma gama de personagens menores que surgiram em dado momento em determinadas épocas ou civilizações, desaparecendo ao final do período ou da realidade que os havia criado. 

Ao recolocar estas entidades desaparecidas, no seu lugar entre os grandes arquétipos que continuaram "vivos", descobrimos, com entusiasmo  - com o entusiasmo e a curiosidade de um arqueólogo que escavava num território inexplorado - que eles podem nos propocionar numerosos indícios e respostas a questões vitais de nosso presente e de nosso ser. 

Somados ao valor psicológico e documental que oferecem os materiais reunidos neste dicionário se une uma dimensão poética e imaginária que cativa o leitor desde o início da leitura.

Sobre o livro: 
IZZI, Massimo. Diccionario ilustrado de los monstruos. Ángeles, diablos, ogros, dragones, sirenas y otras criaturas del imaginario. Barcelona: José J. de Olañeta, 2000.

Sobre o autor:
Massimo Izzi, arquiteto romano, se ocupa há mais de vinte anos de temáticas inerentes ao imaginário, em particular da história e significado dos seres fantásticos. Pode-se considerar Izzi como um dos poucos experts que existem no mundo sobre este insólito saber, chave indispensável para o conhecimento dos mecanismos secretos da psique humana. 

* Texto retirado da orelha do livro.
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Da mesma forma que o Dicionário de deuses e monstros, tentarei transcrever os verbetes no blog, porém a edição que possuo está em espanhol demandando um cuidado maior para fazer a tradução, além da transcrição.

Dicionário dos deuses e demônios

Os conceitos de "divindade" e "demônio" não possuem o mesmo peso nas diferentes formas religiosas. Existem seres mortais e seres demonizados que permanecem intocados pela morte. A linha divisória entre deuses e demôniosé fluida e, no processo de cristianização de um povo, suas velhas divindades podem ser reduzidas à condição de diabos ou integradas ao conjunto de santos cristãos. Os deuses e os demônios distinguem-se da grande massa anônima de espíritos por terem características individuais mais claramente delineadas, o que é demonstrado, por exemplo, pelo fato de lhes serem conferidos nomes.

A presente obra de referência oferece uma sinopse dos seres sobrenaturais mais importantes que, nesse sentido, adquiriram uma "personalidade", tanto nos panteões das culturas clássicas quanto nas religiões do mundo atual; também os sistemas religiosos das raças chamadas "primitivas" recebem o seu devido espaço.

O dicionário contém cerca de 1.800 verbetes cobrindo todas as divindades e demônios mais importantes de todo o mundo, reservando espaço especial para o Brasil, graças a levantamento realizado particularmente para esta edição.

Sobre o livro:
LURKER, Manfred. Dicionário de deuses e demônios. São Paulo: Martins Fontes, 1993.
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Na medida do possível, procurarei transcrever os verbetes constantes neste dicionário no blog, ele é bastante interessante para quem gostaria de conhecer melhor os seres que fazem parte do imaginário de várias culturas. Estou planejando uma maneira de disponibilizar os verbetes de forma organizada, tarefa dificultada pelas limitações da formatação de um blog, mas estou pensando numa forma de contornar isto.

A conexão entre o cinema, o vampiro e suas representações imagéticas.


            As imagens “são representações de ideais, sonhos, medos e crenças de uma época.” (SILVA e SILVA, 2006. p.199). Sendo assim, são fontes históricas passíveis de interpretação e análise pelo historiador. O filme, imagem em movimento, tem o poder de transportar o público para outra realidade, por passar a impressão de as imagens terem sido capturadas do acontecimento, do real. Este pode ser considerado um documento primário, ao se referir ao período de sua produção, como bibliografia ao analisarmos o tema de seu enredo. “[...] o filme põe o emocional antes do racional [...].” (SILVA e SILVA, 2006. p.200).
            O cinema é, por excelência, uma fonte histórica de importância inquestionável na história contemporânea por sua capacidade de atingir a todos, de moldar mentalidades, sentimentos e emoções além de alcançar, com grande facilidade, parcelas variadas de todas as camadas sociais e culturais;

Seu caráter ficcional e sua linguagem explicitamente artística, por um lado, lhe conferem uma identidade de documento estético, portanto, à primeira vista, subjetivo. Sua natureza técnica, sua capacidade de registrar e, hoje em dia, de criar realidades objetivas, encenadas num outro tempo e espaço, remetem, por outro lado, a certo fetiche da objetividade e realismo, [...] A força das imagens, mesmo quando puramente ficcionais, tem a capacidade de criar uma realidade em si mesma, ainda que limitada ao mundo da ficção, da fábula encenada e filmada. (NAPOLITANO, 2005 p. 237)

            São muitas as possibilidades de interpretação de um filme; como qualquer documento histórico, o cinema é influenciado pelo seu tempo, pelo meio onde está inserido, evidenciando a marca de seus produtores - estes também impregnados dos conceitos, acontecimentos e modo de ver a vida de sua época. Segundo Nova (1996), a maior parte do conteúdo de um filme, especialmente os comerciais, é ditada pelos gostos do público que, por sua vez é influenciado pelo filme, numa relação de troca constante. Esta interação do cinema com o público, seus produtores e a época em que está inserido é que permite entender as transformações do mito do vampiro a partir do momento em que foi apropriado pelo cinema.
            Além de transmitir a imagem do vampiro, do ser maléfico na visão do cinema clássico que, segundo Napolitano (2005, p.275), vigora até hoje nas produções de ficção marcado pela continuidade narrativa, pela clareza das idéias e pela visão de combate entre o bem e o mal podemos perceber também a angústias e mudanças de seu período de produção nos filmes que selecionamos para esta discussão.
            Nosferatu, de Murnau, foi produzido em 1922, no período entre guerras, em que a sociedade européia estava se recuperando deste trauma. Segundo Buican (1993, p. 131-133), o filme superou o horror da experiência apavorante da guerra recente. O personagem, Conde Orlock (Drácula), é uma força sobrenatural contra a qual nenhuma barreira ou obstáculo pode. Ele vence a ciência do professor Bulwer (Van Helsing),e é inútil tentar bloquear seu caminho. Chegando a Winsburg, ele dissemina a peste na cidade, e somente a luz do sol é capaz de destrui-lo - ainda assim por um descuido, pois ao tentar atacar Helen (Mina), o vampiro perde a noção do tempo e é surpreendido pelo amanhecer. A dicotomia da luz contra a escuridão, do bem contra o mal, é evidente.
            Em Drácula, o príncipe das trevas de 1966, retrata a volta do conde dez anos depois de ter sido destruído por Van Helsing. Para Buican (1993, p.137) o filme traz um elemento histórico interessante: quando, para reviver Drácula, seu servo usa um homem para lhe dar um banho de sangue, ao estilo da condessa húngara Elizabeth Bathory, o cineasta inclui – mas também funde – elementos de narrativas tradicionais, porém, de fontes diferentes.
            Drácula, dirigido e produzido por Francis F. Copolla, em 1992 foi considerada a versão mais fiel ao romance escrito por Bram Stoker em 1897. Copolla manteve do romance o combate entre o bem e o mal. O filme começa com a danação de Drácula, que ao retornar da guerra encontra sua noiva morta. Como ela havia cometido suicídio por achar que ele havia perecido em combate, sua alma está condenada a não ter descanso, segundo a tradição católica ortodoxa. Drácula se revolta e enfia a espada na cruz, amaldiçoando Deus e se autocondenando às trevas. Para Buican (1993, p. 142) alterando a lenda original, Copolla mostra Vlad, o Empalador (personagem histórico mencionado por Stoker) como um homem perseguido pelo destino. Endurecido pela eternidade, ele se torna perseguidor.

O destino de Drácula e sua noiva remetem, de forma muito mais sinistra, ao mito de Eros e Psiquê que após muitos problemas e infortúnios, conseguem finalmente se reencontrar na eternidade dos deuses. (BUICAN, 1993. p.144).

            Entrevista com o vampiro lança uma nova luz sobre o vampiro tradicional, transformando-o novamente: uma estranha paixão que ele pode desenvolver por sua vítima. Louis, o personagem principal, se inspira em outros vampiros e procura o conhecimento de si e do mundo para se beneficiar. Mantendo, em alguns casos, a sua aura negra sobrenatural, os vampiros parecem se banalizar, desaparecer na escuridão comum dos mortais. Ao invés de um castelo místico na Transilvânia, se fundem nas ruas burguesas das grandes cidades, onde muitas vezes são ignorados. Esta vulgarização dos vampiros certamente tem relação com a banalização da violência, dos massacres, dos genocídios comuns e transmitidos pela televisão em todo o mundo. (BUICAN, 1993. p. 153).

Em Nosferatu, é, portanto, muito claro o par antitético luz-escuridão, onde o primeiro significa civilização e progresso, e o segundo, tradição e barbárie (no romance de Stoker está presente uma série de referências às novas invenções da era tecnológica, em contraste com o horror de uma era das trevas personificado na figura de Drácula – o que se perde no filme de Murnau). Luz-escuridão é um par antitético que irá caracterizar a civilização do capital, principalmente – e literalmente – a partir da II Revolução Industrial. Mas é importante salientar que Drácula, ou Nosferatu, não pertence a um passado distante, mas sim ao presente estranhado do mundo burguês. A aparição do vampiro na narrativa fantástica do século XIX, em sua forma acabada, tal como apropriada pela ficção especulativa da era do imperialismo (com Bram Stoker), parece sugerir que Drácula, ou Nosferatu, é uma criatura da periferia estranhada da civilização do capital (o que explica o requinte aristocrático do personagem, presente tanto na obra de Stoker, quanto no filme de Murnau). (ALVES, 2004).

            Estas breves análises dos filmes demonstram o poder de adaptação ao mundo e ao momento de que o vampiro é capaz no cinema, conectando o mito com a visão esperada pelo público e pela sociedade onde está inserido. No próprio Entrevista com o vampiro, o “vampiro-herói” Louis é atormentado por sua consciência moral, tendo como pano de fundo os séculos por que passa, acompanhando a transformação das sociedades e dos costumes até a contemporaneidade. Nesta os vampiros são esquecidos, não causam medo e são considerados seres míticos e personagens de fábulas. Para resgatar sua identidade e mostrar sua existência, ele decide dar uma entrevista a um jornalista contando sua história, fato este que dá nome ao filme. Lefait (2005) e LeCorff (2005) compreendem a exposição da figura vampírica como uma metáfora da necessidade de exposição do indivíduo na contemporaneidade, meio de auto-afirmação na sociedade.
            Neste ponto compreendemos, novamente, o papel do cinema como um documento, capaz de manifestar os valores e visões de uma sociedade. Michel Vovelle (1987) já identificava a possibilidade do cinema ser empregado neste sentido, relacionando-o como uma forma de apresentação do imaginário social à ser decodificado. O cinema, pois, traz mensagens conectadas com os sentidos de uma cultura, que se apresentam formalizados num dado contexto ou época. Como possuem a capacidade de interagir com as diversas camadas sociais, o produto cinematográfico articula - ou precisa articular – um meio de interação que atenda os objetivos de consumo, empregando expedientes de diálogo cultural com o público. Ao compreender estes modos de perpassar os diversos extratos da cultura, compreendemos, pois, ao que se destina a produção cinematográfica e, por conseguinte, os valores culturais que esta apresenta e representa. Assim sendo, o filme, enquanto documento, possui uma função destacada na análise histórica:

História e Cinema apresentam o desenrolar de acontecimentos, procurando atribuir coerência e inteligibilidade aos processos históricos e/ou aos contextos no qual eles têm sua origem ou estão imbricados; ancoram seus discursos numa “realidade” que se dispõem a (re) construir. Ao realizarem essa (re)construção, recorrem a estratégias discursivas que pretendem instaurar uma inteligibilidade às relações socioculturais, políticas, econômicas, enfim, às relações históricas de toda ordem que  entram na composição dos seus discursos e constroem “o mundo como representação”. Noutras palavras, no Cinema e na História existe a necessidade de que o resultado dos seus discursos instaure relações de coerência entre os acontecimentos e o contexto sociocultural e histórico no qual eles se desenrolam, conferindo-lhes inteligibilidade e verossimilhança – talvez menos nos seus discursos e mais nas leituras que pretendem que se faça deles.  Os discursos de História e Cinema, nessa medida, estruturam a narrativa articulando o contexto às relações de interesses e disputas entre os diversos sujeitos e/ou agentes sociais – “escolhidos” – envolvidos nas tramas que deram origem aos acontecimentos. As estratégias às quais o Cinema e a História recorrem, entretanto, exigem que reconheçamos a especificidade de cada um desses discursos. Os acontecimentos, ao serem trabalhados pelo historiador, ao serem objeto da abordagem histórica tornam-se fatos históricos que, como argumenta Paul Veyne, não existem isoladamente, pois os acontecimentos têm ligações objetivas na história (1982, p. 30). No caso do cinema, os acontecimentos (e tampouco as imagens) podem ser considerados isoladamente. Quanto às “ligações objetivas”, se não podemos defini-las propriamente assim, por serem obra de ficção, certamente devemos reconhecer que também existem nos discursos fílmicos, apesar de resultarem de um processo complexo de criação.  Textos fílmicos ou históricos, para construírem o contexto no qual se desenrola a “trama”, são obrigados a esclarecer os processos do qual nascem ou estão inscritos os acontecimentos. Os contextos construídos por meio desses discursos, nos quais a trama do filme ou da história se desenrola, compõem uma “rede de acontecimentos, em relação aos quais [aquele acontecimento] vai ganhar um sentido: é a função da narrativa” (Furet, s/e, p. 82), tanto em história, quanto em cinema. No cinema e na história todos os acontecimentos são passíveis de serem abordados nas suas narrativas, mas seus significados vão depender da trama que é foco do seu discurso. (ABDALA JUNIOR, 2006).

            Igualmente, Napolitano (2005, p. 236) afirma que “a questão, no entanto, é perceber as fontes audiovisuais em suas estruturas internas de linguagem e seus mecanismos de representação da realidade, a partir de seus códigos internos”. Isso significa, em nossa perspectiva, a possibilidade de que, ao analisar a trajetória do mito vampírico, e suas transformações, enxergamos a própria mudança de percepção da sociedade acerca do mito, e dos modos de exposição que facilitam sua mutação – e absorção – como um personagem absolutamente consumível em termos estéticos e morais.

Referências:
ABDALA JUNIOR, R. Cinema: outra forma de “ver” a História. In: Revista Ibero-americana. 38/7, 2006.
ALVES, G. Nosferatu – Uma sinfonia do horror. 2004. Disponível em: <http://www.telacritica.org/Nosferatu.htm>. Acesso em: 27 set. 2010.
BUICAN, D. Les métamorphoses de Dracula: l’histoire et la légende. Paris: Editions du Félin, 1993.
DRÁCULA DE BRAM STOKER. Título original: Bram Stoker’s Dracula. Direção: Francis F. Copolla. Produção: Francis F. Copolla, Fred Fuchs e Charles Mulvehill. EUA: American Zoetrope e Columbia Pictures Corporation, 1992. 1 DVD (127 min.). son., color.
DRÁCULA: PRÍNCIPE DAS TREVAS. Título orginal: Dracula: Prince of darkness. Direção: Terence Fisher. Produção: Anthony Nelson-Keys. Inglaterra: Hammer Films Productions e Seven Arts, 1966. 1 DVD (90 min.). son., color.
ENTREVISTA COM O VAMPIRO. Título original: Interview with the vampire. Direção: Neil Jordan. Produção: David Geffen e Stephen Wooley. EUA: Geffen Pictures, 1994. 1 DVD (122 min.). son., color.
LECORFF, I. Interview with the vampire: place et resonances dans l’ouvre de Neil Jordan. In FIEROBE, C. (org.) Dracula: mythes e métamorphoses. Villeneuve d’Ascq: PUS, 2005.
LEFAIT, S. “Comment peut-on être vampire?”- jeux de miroirs dans Entrentien avec un vampire de Neil Jordan. In: FIEROBE, C. (org.) Dracula: mythes e métamorphoses. Villeneuve d’Ascq: PUS, 2005.
NAPOLITANO, M. A história depois do papel. In: PINSKY, C. B. (org.). Fontes Históricas. São Paulo: Contexto, 2005. p.235-289.
NOSFERATU. Título original: Nosferatu, Eine Symphonie des Grauens. Direção: F. W. Murnau. Produção: Enrico Dieckman e Albin Grau. Alemanha: Prana-Film, 1922. 1 DVD (81 min.). mudo, preto e branco.
NOVA, C. O cinema e o conhecimento da história. Revista Olho da História, Salvador-Bahia, n.03, dez. 1996. Disponível em: <http://oolhodahistoria.ufba.br/o3cris.html>. Acesso em: 26 set. 2010.
SILVA, K. V. e SILVA, M. H. Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2006.
VOVELLE, M. Ideologia e mentalidades. São Paulo: Brasiliense, 1987.

Imaginário, imaginação social e seus símbolos

Bronislaw Baczko e Pierre Bourdieu fazem parte da corrente historiografica chamada Nova História Cultural. Ambos utilizam conceitos específicos que achamos por bem esclarecer para facilitar o entendimento dos textos: sistema simbólico, imaginário, imaginário social e representação Para isto, recorremos a outros autores que também definem estes conceitos.

As imagens fazem parte do cotidiano, da realidade vivenciada. O imaginário está totalmente inserido em nossa visão de mundo, influencia nossas decisões de como viver, morar, vestir, o que comer, como expressar as crenças quaisquer que sejam, como construir as práticas culturais que farão parte de nossa representação de um mundo, fechando um ciclo.

Para Castoriadis (1975) a rede de significações imaginárias de uma sociedade estabelece seu próprio mundo onde define o que é real ou não, o que tem ou não sentido. Seus símbolos partem do racional, do que já existia acabando por dar seus significados próprios. O homem está sempre buscando dar significado e sentido ao mundo e para isto cria significados, usando a imaginação.

O imaginário é, pois, representação, evocação, simulação, sentido e significado, jogo de espelhos onde o ‘verdadeiro’ e o aparente se mesclam, estranha composição onde a metade visível evoca qualquer coisa de ausente e difícil de perceber. Persegui-lo como objeto de estudo é desvendar um segredo, é buscar um significado oculto, encontrar a chave para desfazer a representação do ser e parecer. Não será este o verdadeiro caminho da História? Desvendar um enredo, desmontar uma intriga, revelar o oculto, buscar a intenção? (PESAVENTO, 1995. p. 24)

Ou ainda,

[...] uma realidade tão presente quanto aquilo a que poderíamos chamar de vida concreta, uma dimensão tão significativa das sociedades humanas como aquilo que corriqueiramente é encarado como realidade efetiva [...] sistema ou universo complexo e interativo que abrange a produção e circulação de imagens visuais, mentais, verbais, incorporando sistemas simbólicos diversificados e atuando na construção de representações diversas. (BARROS, 2005, p. 92-94)

Todos os grupos sociais utilizam símbolos que são reconhecidos pelo grupo. Estes são utilizados em várias instâncias, por exemplo, na legitimação da ordem estabelecida, identificação do grupo e hierarquização social. Sendo estas construções de extrema importância no mundo social. Os Estados modernos utilizam constantemente símbolos para sua identificação como bandeiras, hinos e brasões, fundamentais para a identificação nacional.
           
Para Bourdieu os símbolos só exercem efeito quando o público-alvo (povo) ignora a sua imposição por parte do grupo dominante, quando o símbolo é identificado e tomado pelo público, ele funciona como uma representação.

Já a representação, de acordo com Ginzburg (2001, p.85) é aquilo que quando identificado e visto pelo grupo ou indivíduo, remete a objetos ou sentimentos distintos. A representação evoca a ausência ou sugere a presença da realidade representada. Uma bandeira não é uma nação, mas em qualquer lugar do mundo traz a representação da pátria a quem a visualiza. Outro exemplo usado por Ginzburg diz respeito às práticas de funeral real para permitir a exposição do soberano morto ao povo por dias seguidos, tornando possíveis as homenagens.

Todas as construções coletivas de interpretação e organização social a partir de símbolos e representações podem ser entendidas como imaginário social. De acordo com Pesavento (1995. p. 24), “o imaginário social se expressa por símbolos, ritos, discursos e representações alegóricas figurativas”. O estudo do imaginário é de vital importância como elemento da construção e da organização da produção historiográfica.

A abordagem através do imaginário “nos sugere a possibilidade de esclarecer símbolos e metáforas eleitos por uma determinada coletividade que busca, em suas manifestações imaginárias e imaginadas, a superação da realidade indesejada e conflituosa.” (NOGUEIRA, 1995, p.12) e ainda, segundo Pitta (2005, p.67), “[...] o imaginário, longe de ser do domínio do não existente, é uma presença real, tão ‘verdadeira’ quanto a matéria, e mesmo mais, pois ela é transfigurativa e ativa.”

Baczko inicia seu texto discutindo a apropriação da palavra imaginação pelas ciências sociais que a retirou do campo da quimera e do irreal ao qual pertencia dentro do “domínio das artes, irrompia agora num terreno reservado às coisas sérias e reais.” (BACZKO, 1985, 296). Ele destaca o uso do termo a partir dos acontecimentos de maio de 68 onde passou a ser utilizado como fator identificatório de um movimento de massas.

Ao analisar os usos do conceito de imaginação e imaginário, o autor destaca a concepção das ciências humanas que sempre viram o domínio do imaginário e do simbólico como estratégias de poder político.

Segundo ele para exercer um poder simbólico os agentes dominantes se apropriam dos símbolos utilizando suas relações de sentido através dos emblemas de poder, os monumentos, o carisma do chefe de Estado. (BACZKO, 1985. p.299). A importância do imaginário se justifica pelo fato de que todas as instituições políticas só são possíveis pela imagem que o homem faz de si e dos outros através de seus símbolos e ainda, todas as ações são reflexo dos desejos e das paixões dos homens.

Como exemplo, ele usa a Revolução Francesa onde “onde o combate pelo domínio simbólico traduziu-se, entre outros fatos, pela batalha encarniçada contra os símbolos do Ancien Régime.” (BACZKO, 1985. p.302).

Neste ponto cabe destacar Bourdieu (1998) que defende a identidade dos grupos através das representações mentais com que se conhecem e se reconhecem como os objetos que lhes dão a idéia de pertencimento a uma classe, grupo ou nação.  Manifestações sociais como a Revolução Francesa buscam manipular estas imagens mentais buscando “impor a definiçao legitima das divisões do mundo social.” (BOURDIEU, 1998. p.108). Para ele, o mundo social é também representação e vontade.

A partir disto ele menciona os conceitos de imaginário para diversos autores conforme a época e sua visão de mundo: Michelet, Tocqueville e Marx. Sendo este último  amplamente utilizado por suas definições de ideologia que moldam o imaginário social de todos os grupos e classes.

Ele destaca também que o imaginário social é uma forma de resposta aos conflitos, problemas, dúvidas e violência de um grupo.

O imaginário social é, deste modo, uma das forças reguladoras da vida coletiva. As referências simbólicas não se limitam a indicar os indivíduos que pertencem à mesma sociedade, mas definem também de forma mais ou menos precisa os meios inteligíveis das suas relações com ela, com as divisões internas e as instituições sociais, etc. [...] O imaginário social é, pois, uma peça efetiva e eficaz do dispositivo de controle da vida coletiva e, em especial, do exercício da autoridade e do poder. Ao mesmo tempo, ele torna-se o lugar e o objeto dos conflitos sociais. (BACZKO, 1985. p.310).
           
Para reforçar e esclarecer suas teorias, o autor faz análise dos imaginários sociais contidos na Revolução Francesa, nas revoltas camponesas ao redor dela e do período de governo de Stalin na União Soviética conhecido como terror.

Concluimos com Bourdieu (1998), segundo ele o imaginário social constitui a teia de representações e identidades de uma determinada sociedade ou grupo, legitimando seu poder e seu controle através dos símbolos que inflam a noção de pertencimento.

Referências:

PESAVENTO, Sandra J. Em busca de uma outra história: Imaginando o imaginário. In: Revista Brasileira de História, v. 15, n.º 29. São Paulo: 1995.
BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas lingüísticas. (O que falar quer dizer). São Paulo: EDUSP, 1998.
Bronislaw Baczko. Imaginação social. In: Enciclopédia Einaudi, s. 1. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, Editora Portuguesa, 1985
CASTORIADIS, Cornelius. A Instituição Imaginária da Sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
BARROS, José D’Assunção. O Campo da História - especialidades e abordagens. Petrópolis: Vozes, 2004.
GINZBURG, C. Olhos de madeira. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

P.s. Na apresentação da proposta do Blog, eu mencionei que publicaria textos referentes não somente à vampiros, mas também a temas relacionados à História. Este texto sobre imaginário social está dentro deste parâmetro.

Verbete: Vampiro (parte final)

Encontramos histórias de Vampiros até dentro das Lettres Juives* de D'Argens, a quem os jesuítas autores do Jornal de Trévoux antes haviam acusado de incrédulo. Eles puderam saborear seu triunfo quando o citado autor se referiu à história do Vampiro da Hungria; deram graças a Deus e à Virgem pela conversão do pobre D'Argens, camarista na corte dum rei que não acreditava de maneira alguma em Vampiros. "Vejam só", disseram eles, "o famoso incrédulo que ousou duvidar da aparição do anjo à santa Virgem, da estrela que conduziu os Reis Magos, da cura dos possuídos, dos dois mil porcos afogados no lago, do eclipse do sol na lua cheia, dos mortos ressuscitados que caminharam por Jerusalém: seu coração amoleceu e o espírito iluminou-se; ele acredita em Vampiros!"
A grande questão que surgiu então foi averiguar se aqueles mortos ressuscitaram pela própria vontade, pelo poder de Deus ou pela força do Diabo. Os grandes teólogos de Lorena, da Morávia e da Hungria tornaram públicas suas opiniões e suas descobertas. Relembraram tudo que Santo Agostinho, Santo Ambrósio e outros santos disseram de mais incompreensível a respeito dos vivos e dos mortos. Trouxeram à tona todos os milagres de Santo Estevão que estão incluidos no sétimo livro das obras de Santo Agostinho, e eis aqui um dos mais curiosos. Um jovem, na vila de Aubzal, na África, ficou esmagado sob as ruínas de uma muralha. A viúva imediatamente foi invocar por Santo Estevão, de quem ela era devota, e Santo Estevão ressuscitou o esmagado. Perguntaram-lhe o que havia visto no outro mundo: "Senhores", respondeu ele, "quando minha alma abandonou o corpo, encontrou uma infinidade de almas que fizeram muitas perguntas a respeito deste mundo aqui. Eu ia para não sei aonde quando encontrei Santo Estevão, que me disse: 'Devolva aquilo que recebeu'. Eu respondi-lhe: 'O que devo devolver-lhe se nunca me destes nada?'. Repetiu-me três vezes: 'Devolva aquilo que você recebeu'. Então compreendi que estava querendo falar do Credo. Rezei a ele o meu Credo e em seguida ele me ressuscitou".
Citaram, sobretudo, as histórias relatadas por Sulpício Severo sobre a vida de São Marinho, e provaram que entre os mortos que ele ressuscitou estava um condenado.
Mas todas estas histórias, por mais verdadeiras que sejam, não têm nada em comum com  os Vampiros que chupavam o sangue dos vizinhos e em seguida iam deitar-se em seus caixões. Procuraram também no Velho Testamento e na mitologia qualquer Vampiro que pudessem apresentar como exemplo de caso antigo; não encontraram nenhum. Mas eles provaram, sem sombra de dúvida, que os mortos comiam e bebiam, já que tantos povos da Antiguidade colocavam alimentos em seus túmulos.
A dificuldade era saber se era a alma ou o corpo do morto que se alimentava. Foi decidido que ambos comiam. Os pratos mais delicados e de pouca substância como merengues, creme batido e frutas secas, alimentavam a alma; o rosbife era para o corpo. Diziam que os reis da Prússia foram os primeiros que continuavam a se alimentar após a morte. São imitados por quase todos os reis dos dias atuais; mas são os monges que devoram sua janta e a ceia, e bebem seu vinho. Portanto os reis não são, falando propriamente, Vampiros. Os verdadeiros vampiros são os monge, que se banqueteiam às custas tanto dos reis quanto do povo.
É bem verdade que Santo Estanislau, que havia comprado dum nobre polonês um terreno de tamanho considerável, pelo qual não chegou a pagar, e foi perseguido e levado diante do rei Boleslau pelos herdeiros, ressuscitou o tal cavalheiro; porém unicamente para quitar-lhe a dívida. Nunca se disse que ele tenha servido sequer um copo de vinho ao vendedor, que retornou ao outro mundo sem comer nem beber. Discute-se com frequencia e grave questão de que se é possível perdoar o Vampiro que morreu excomungado. Isso é mais um fato. 
Não sou teólogo profundo o bastante para opinar sobre este assunto; porém, eu certamente votaria pela absolvição, pois em todos os assuntos duvidosos, deve-se sempre escolher o lado mais bondoso:
Odia restringenda, favores ampliandi. (Restrinja-se o odioso; amplie-se o favorável.)
O resultado de tudo isso é que uma grande parte da Europa esteve infestada por Vampiros durante cinco ou seis anos, e que hoje já não existem; que havia saltadores na França durante vinte anos, e que hoje já não há mais; que tínhamos endemoinhados durante mil e setecentos anos, e que não existem mais; que ressuscitávamos mortos desde os dias de Hipólito, e que hoje não ressuscitamos mais; que tínhamos os jesuítas na Espanha, em Portugal, na França e nas duas Sicílias, e que hoje já não os temos mais.

O tom de sarcasmo e a ironia nas palavras de Voltaire são incontestáveis. A produção e a publicação do Dicionário Filosófico com este verbete e as citações sobre o conteúdo da Dissertação de Dom Calmet demonstram a discussão que se espalhou pela França, entre os iluministas, a respeito do surto de vampirismo.


* Les Lettres juives ou Correspondance philosophique, historique et critique entre un juif voyageur à Paris et ses correspondans en divers endroits, também conhecido como Lettres Juives, é um romance epistolar escrito por Jean Baptiste de Boyer d'Argens, publicado em 1736.

Referência:
Voltaire. Dictionnaire Philosophique. Paris, 1764.




Verbete: Vampiro (parte 1)

Ao publicar o Traité sur les apparitions des esprits et sur les vampires ou les revenans de Hongrie, Moravie, etc.,  Dom Augustin Calmet trouxe a discussão sobre a existência ou não dos vampiros relatados em suas compilações dos casos ocorridos no Leste Europeu para o centro do fenômeno iluminista, e se transformou num grande bestseller com a ajuda involuntária dos próprios filósofos iluministas que passaram a discutir o assunto e finalizaram a questão determinado, arbitrariamente, que era tudo irreal, fantasia da imaginação daquele povo.

Voltaire, um dos mais influentes filósofos iluministas, escreveu uma obra chamada Dicionário Filosófico que foi publicada em 1764 alcançando muito sucesso pois, através dos verbetes, Voltaire criticava o Estado e a religião. Um dos verbetes do Dicionário foi dedicado aos Vampiros, sendo usado para criticar pesadamente a obra de Calmet e a crença em vampiros. Nas edições de bolso encontradas facilmente em livrarias não consta este verbete. Geralmente estas edições são mais curtas e tem somente aqueles referentes ao Estado e à Igreja.

Dicionário Filosófico - Verbete: Vampiros
"Pois bem! Dentro de nosso século XVIII há quem acredite na existência de Vampiros! Depois dos reinados de Locke, Shafterbury, Trenchard e Collins. E durante os reinados de D'Alembert, Diderot, Saint-Lambert e Duclos, ainda se acredita na existência de Vampiros, e o reverendo Dom Augustin Calmet - padre beneditino da congregação de Saint-Vannes e de Saint-Hidulphe, abade de Senones, uma abadia de cem mil rendas livres, vizinha de duas outras abadias do mesmo rendimento - imprimiu e reimprimiu a história dos vampiros com a aprovação da Sorbonne, assinada por Marcilli!
Os vampiros eram defuntos que saíam à noite de seus túmulos no cemitério para sugar o sangue dos vivos, através da garganta ou do ventre, e depois retornavam às suas covas. Os vivos que tinham sido sugados, emagreciam, tornavam-se pálidos e iam se consumindo; enquanto os mortos que haviam chupado tornavam-se gordos, com a pele corada e tinham excelente apetite. Foi na Polônia, Hungria, Silésia, Morávia, Áustria e Lorena que os mortos fizeram suas melhores refeições. Jamais ouvimos falar de Vampiros em Londres, nem mesmo em Paris. Admito que nestas duas cidades existiam agiotas, comerciantes e homens de negócios que sugavam o sangue do povo à luz do dia; porém, não estavam mortos, ainda que corrompidos. Estes sugadores verdadeiros não habitavam cemitérios, mas sim confortáveis palácios. 
Quem acreditaria que a moda dos Vampiros nos veio da Grécia? Não aquela Grécia de Alexandre, de Aristóteles, Platão, Epicuro e Demóstenes, mas a Grécia cristã, infelizmente cismática. 
Há muito tempo, os cristãos do rito grego acreditam que os corpos dos cristãos do rito latino, enterrados na Grécia, não se decompõem jamais porque foram excomungados. É exatamente o contrário do que nós, cristãos do rito latino, pensamos. Nós acreditamos que os cadáveres que não se decompõem são aqueles que têm impresso o selo da beatitude eterna. E enquanto se paga cem mil escudos a Roma pela canonização de cada santo, tributamos a este uma adoração de anjos.

Os gregos estão convencidos que seus mortos são feiticeiros, e lhes dão o nome de broucolacas ou vroucolacas, dependendo da pronúncia da segunda letra do alfabeto. Os cadáveres gregos visitam as casas para chupar o sangue de crianças, servir-se da janta dos pais e das mães, beber o vinho e quebrar todos os móveis. Só é possível trazer-lhes à razão quando são queimados, depois de capturados. Porém, é preciso ter o cuidado de colocá-los no fogo somente depois de ter-lhes arrancado o coração, que precisa ser queimado separadamente. 
O célebre Tournefort, enviado ao Oriente por Luís XIV, como tantos outros virtuosos, testemunhou alguns truques sujos atribuídos a um desses broucolacas, e as citadas cerimônias.

Depois da maledicência, nada se espalha tão rapidamente quanto a superstição, o fanatismo, o sortilégio e as histórias de aparições. Logo existiam broucolacas na Valáquia, Moldávia e dentro da Polônia, nações pertencentes rito romano. Não era necessária mais esta superstição, mas ela espalhou-se por toda a parte oriental da Alemanha. Não se falou doutra coisa além de vampiros entre 1730 e 1735: espreitamos-los, arrancamos seus corações e os jogamos no fogo; mas, semelhantes aos antigos mártires, quando mais os queimávamos, mais eles apareciam.

Calmet enfim tornou-se seu historiador, e dedica-se aos Vampiros com antes havia se ocupado do Velho e do Novo Testamento, referindo-se fielmente a tudo que havia sido dito sobre o assunto antes que ele.

Deve ser, penso eu, uma coisa muito curiosa examinar os processos verbais legalmente estabelecidos contra os mortos que abandonavam suas covas para chupar o sangue de meninos e meninas da vizinhança. Calmet relata que na Hungria dois oficiais nomeados pelo imperador Carlos VI, ajudados pelo meirinho e um carrasco, cuidaram da investigação dum Vampiro, morto seis semanas antes, que chupava o sangue de toda a vizinhança. Encontraram-no em seu caixão fechado, fresco, robusto, de olhos abertos e esfomeado. O meirinho leu a sentença. O carrasco arrancou o coração do Vampiro e o queimou; depois disso, ele não chupou o sangue de mais ninguém. 

Depois deste caso, ninguém deve atrever-se a duvidar dos mortos ressuscitados que infestam nossas lendas antigas, nem todos os milagres relatados por Bollandus e pelo sincero reverendo Dom Ruinart!"

Referência:
Voltaire. Dictionnaire Philosophique. Paris, 1764.

Estela chinesa invocando um vampiro




Victor Segalen, um artista, poeta e arqueologo (também médico) francês viajou pela China no início do  século 20, e escreveu o livro Estelas e Terra Amarela copiando e traduzindo estelas que encontrou pelo caminho na China. 
As estelas são pedras votivas, que se diferenciam das lápides por estarem posicionadas em caminhos, estradas, grutas, ou um local definido, pois elas portam leis ou éditos imperiais, poemas, dedicatórias, etc.
O próprio Segalen não as data, e talvez seja impossível mesmo fazê-lo, já que como elas não estão em tumbas, muitas não portam a data em que foram feitas, isso pode significar que elas foram talhadas entre o século 3 a.C. (quando começa a moda entre os Han) até o século 20, cerca de 1911.
Segalen encontrou uma estela dedicada a um vampiro. Explica-se: o amigo (ou amante) enterrou o parceiro morto, mas dedica-lhe uma estela invocando-o: se ele quiser, pode voltar do mundo dos mortos e sugá-lo, para que ambos continuem a amizade.
Segue, pois a transcrição da estela:


"Amigo, amigo, deitei o teu corpo num caixão de belo verniz vermelho que bom dinheiro me custou 
Guie tua alma, com o seu nome familiar, nesta tabuinha que rodeio de cuidados 
Mas não mais de ti devo ocupar-me: tratar o que vive como um morto, que falta de humanidade!
Tratar o que está morto como vivo, que ausência de discrição! Que risco de se enganar!

Amigo, amigo, apesar dos princípios, não posso te abandonar 
Formarei pois um ser equívoco, nem gênio, nem morto, nem vivo. 
Me escuta:
Se te agrada sorver ainda a vida de gosto açucarado, com agras especiarias
Se te agrada bater as pálpebras, encher de ar o teu peito e estremecer sob tua pele, escuta:
Torna-te meu vampiro, meu amigo, e todas as noites, sem tumulto nem pressa, sorve a bebida quente do meu coração."
 
Referências:
Texto do sinólogo, prof. Dr. André da Silva Bueno. (Autor do Projeto Orientalismo. Quem se interessar em conhecer mais das civilizações asiáticas, acesso o site: http://orientalismo.blogspot.com/ - o link Orientalismo está ao lado).
SEGALEN, V. Estelas e Terra Amarela. Lisboa: Cotovia - Fundação Oriente, 1996, pág 63-64.
A imagem das estelas é meramente figurativa, para que se possa visualizar o que é uma estela.

A noiva de Corinto - Johann Wolfgang von Goethe

De Atenas provindo, a Corinto
Chega um jovem que desconheciam,
Como hóspede em domo distinto. 
Os dois pais sempre se recebiam, 
Ambos desde cedo
O moço e a moça
Noivo e noiva já se prometiam.

Mas será ele também lá bem-vindo,
Se boas graças nunca conquistou?
Com seus gentios é pagão ainda, 
E o da casa em Cristo batizou.
Nova fé que fulge
Contra amor insurge
Qual erva daninha logo se arrancou.

A casa inteira repousa, é tarde, 
Pai, filha, só a dona domina;
Que recebe o moço com boa vontade,
Logo o melhor quarto ela lhe destina.
Uma ceia ostenta, 
Bem alojá-lo tenta:
Depois diz boa noite, sai em surdina.

Entretanto o apetite é perdido,
Farta refeição posta, a despeito;
Extenuado, dos comes abstido,
Mesmo vestido se faz ao leito;
Quase ele cochila, 
Mas a porta estila
Esgueira-se ao quarto um afeito.

Ao clarão da luz, vê se insinuar
Pelo quarto, moça virginal
Brancos véus a acobertar, 
Cingindo a fonte preto-ouro xal.
Tão logo o vislumbra
No canto à penumbra, 
Espanta, mão alva eleva ao alto.

"Sou por acaso estranha", diz ela,
"Que do hóspede nem tenho notícia?
Ah, assim mantém-me eles na cela!
Por isso cometo a incoveniência.
Prossiga dormindo
Me esquivo, vou indo,
Saio com vim, peço licença."

"Fique, jovem!" - grita o rapaz
Veloz num só pulo de seu tálamo:
"De Ceres e Baco, as oferendas
Tens. E agora o amor traz teu âmago.
O susto de descora
Vem, não vá embora,
Deleitemos dos deuses o júbilo!"

"Fique longe, mancebo! Parado!
Não me é permitida a ventura. 
Fatal passo, ah! Já foi dado.
Boa mãe doente em insânia pura
Caso convalesça
A promessa faz:
Que consagra filha aos céus em jura."

De deuses antigos o cortejo
Proscrito, a casa silencia logo.
Invisível um uno em adejo, 
O salvador na cruz está morto.
E o imoleiro, 
Não rêz ou cordeiro,
Mas, seres humanos tem sacrificado.

Ele indaga as palavras pesando, 
Que jamais com o espírito desavêm:
É possível ter num ermo aposento
Minha noiva em pessoa ante mim?
"Seja minha, criança"
Os pais com a fiança
As bençãos celestes nos concedem."

"Coração, não é a ti que destino!
É a mana que te hão de atribuir.
Enquanto na cela nefasta amofino, 
Lembre de mim um dia no porvir, 
Que só penso em ti
Pelo amor sofri
E a terra em breve há de cobrir."

"Não! Eu juro, com a mão sobre o fogo
Vontade paterna compartilhar;
Nem perdida ou desdita, te rogo,
Vem para casa comigo viajar.
Fique! Eu te peço!
Um sonho confesso
Nossas núpcias em festim celebrar!"

E trocam eles prendas de amor:
Ela dá-lhe um dourado adereço,
Por sua vez, faixa de prata cor;
Presenteia-lhe em terno apreço.
"Não é meu o xale!
Mas muito me vale!
Dê-me uma mecha de teu cabelo."

Dos fantasmas soa a fúnebre hora, 
Só agora ela torna-se langue.
Ávida sobre a pálida boca
Sôfrega o vinho tinto qual sangue:
Mas de trigo o pão, 
Que o gentil em vão, 
Lhe oferece, ela sequer o tange.

Estende ela o cálice ao moço, 
Que ardente o esvazia num gole, 
E suplica a cear licencioso;
Amor, que seu coração console.
Mas ela resiste, 
Ao que insiste, 
Até que na cama em pranto implore.

Aproxima-se ela, ajoelha:
"Desatino é ver teu sofrer!
Satisfaça-te e toque-me e olhe
Esses membros que estou a esconder.
Clara como a neve;
Mas fria como deve
A amada que vens de eleger."

Ardente a cerra, abraço viril, 
Intenso a estreita, a inunda:
"Eu desejo aquece-la do frio, 
Mesmo que tu me venhas da tumba!
Um beijo fervente!
Anseio eloquente!
Não te queima uma paixão profunda?"

E selando em êxtase o amor, 
Lágrimas ao desejo se mesclam;
Suga-lhe ela à boca o calor;
Presos um ao outro se infundem.
Seu ardor feroz
Anima-a voraz;
Não lhe pulsa o coração, porém!

Nisso a mãe pela casa vagueia
Sempre alerta, tão tarde em ofício,
Detém-se escutando à soleira,
Um singular gemido e bulício.
Em pleno alvoroço
A moça e o moço
Indícios de amor em balbucio.

Ela imóvel detém-se ao umbral, 
Suspeita mas reluta uma vez, 
Cisma e apura paixão cabal, 
Que evoca a sanha cupidez - 
"O galo canta, amada! - 
Mas noutra madrugada..."
Beijos, beijos. "Tu vens, talvez?"

Não contém a raiva em delonga, 
A porta ela abre de chofre:
"Há cá nesta casa songa-monga,
Que ao forasteiro se oferece?"
Entra e ojeriza, 
Ao clarão divisa - 
Santo Deus! A filha reconhece.

O jovem no primeiro espanto
Tenta com o véu a impudente,
Com o tapete, cobrir-lhe o desmanto;
Mas ela se ergue logo saliente.
Como um fantasma
Que do alto plasma
Longa e lenta, plana ao leito.

"Mãe, mãe!" Diz com voz de sepulcro, 
"Você quer ser desmancha-prazer?
Tira-me ao tépido e pulcro!
Me acorda para arrefecer?
Como se não basta, 
Quando inda casta, 
Você cedo ao túmulo me poer?

Mas uma lei bem própria me expulsa
A cantilena sacra é insulsa, 
A mim sequer comove oração;
Salmodiou sem efeito
Se os jovens a eito;
Ah! Terra não esmorece paixão.

Esse moço me foi prometido,
Nos bons tempos do templo de Vênus.
Mãe, contudo foi o voto rompido, 
Mas nenhum deus ouve,
Quando a madre ousa 
Recusar à filha as bodas de jus.

Da sepultura lançada à vida, 
Á procura do anelado bem,
Por perdido ser inda querida
Aspirar todo o sangue que tem.
Quando ele morrer,
Mais hei de querer,
Sedenta, a debelar gente jovem.

Tanto não viverás!
Definhas-te, aqui neste lugar, meu belo;
Ofertei-te minha correntinha
Comigo guardo a mecha com zelo.
Veja-lhe ademãs, 
Depois, meras cãs!
Lá insosso e sem cor será o pelo.

Ouça, mãe, a prece derradeira:
Minha última morada abre!
Então arme uma grande fogueira, 
Os amantes nas chamas, descanse!
Chispa resplandece, 
Brasa incandesce,
Devoltamos à crença fagueira."           


Escrito em 1797, Die Braut von Korinth, influenciou muitos escritores por tratar da história de um vampiro e também por auxiliar na inclusão do elemento sexual que atualmente é inerente ao vampiro. O poema conta a história de noivos que foram impedidos de se casar, pois os pais da noiva se converteram ao cristianismo enquanto o noivo e sua família permaneciam cristãos.
Goethe se inspirou na história da jovem Filinion que retorna da morte para desfrutar dos prazeres que lhe foram negados. A história de Filinion faz parte do folclore grego e foi escrita por Flégron de Tales no século II d. C. em seu livro De Mirabilibus.

Referências:
GOETHE, J. W. A noiva de Corinto. In: COSTA, B. (org.). Contos clássicos de vampiro. São Paulo: Hedra, 2010.

Argumentação sobre as causas do vampirismo




Em 1748, Dom Calmet publicou seu polêmico tratado, a obra fala dos  casos de vampirismo que ele investigou e outros que ele inventariou por toda Europa. O capítulo faz parte do tratado e discute as possíveis causas da crença no vampiros e o que causou o surgimento dos casos.

CAPÍTULO XLVII. Argumentação sobre esta matéria.

Estes autores (os que debatem os casos de vampirismo) argumentaram muito sobre estes acontecimentos.

1. Uns acreditam-nos miraculosos;

2. Os outros os olharam como puro efeito de uma imaginação com a lucidez golpeada ou uma forte superstição;

3. Outros acreditaram que é muito natural e muito simples: estas pessoas não estão mortas, e agitam-se normalmente sobre outros corpos;

4. Outros pretenderam que era a obra do demônio mesmo. Entre estes alguns mencionaram, que havia certos demônios benignos, diferentes dos demônios malignos e inimigos dos homens, aos quais atribuíram muitas atitudes banais e indiferentes, ao contrário dos demônios malvados que inspiram aos homens o crime e pecados, maltratando-os até a morte e lhes causando uma infinidade de outras coisas. Mas o que pode se temer mais? Verdadeiros demônios e espíritos malignos ou os revividos da Hungria e o que causam às pessoas sugando seu sangue e as fazendo morrer?

5. Outros dizem que não são os mortos que mastigam suas próprias carnes ou suas vestes, mas serpentes ou ratos, lobos ou outros animais vorazes, ou mesmo o que os camponeses nomeavam como striges, que são pássaros que devoram os animais e os homens, e sugam seu sangue. Alguns avançam, dizendo que estes exemplos observavam-se principalmente nas mulheres, sobretudo em tempos de peste; mas têm-se exemplos de revividos de qualquer sexo, principalmente homens; embora os que morreram de peste, veneno, raiva, embriaguez ou doenças epidêmicas, sejam mais sujeito a retornar, aparentemente porque o seu sangue coagula-se mais lentamente, além disto, às vezes enterram-se alguns que não estão realmente mortos, devido ao perigo que há de deixá-los longo tempo sem sepultura por medo da epidemia que causariam.

Acrescenta-se que estes vampiros são conhecidos apenas em certos países, como a Hungria, Moravia, a Silésia ou que estas doenças são mais comuns onde os povos se alimentam mal, sendo sujeitos a certos incômodos causados pelo clima e pelo alimento, aumentadas pela imaginação e temor, capazes de produzir ou aumentar as doenças mais perigosas, como a experiência diária prova-o em demasia. Quanto a que alguns insistem que estes mortos podem comer e mastigar como porcos nos seus túmulos, isto é manifestamente fabuloso, não pode ser fundado unicamente sobre superstições ridículas.

Referência:
CALMET, Dom Augustin.
Tratado sobre os aparecimentos dos espíritos, sobre vampiros ou os fantasmas da Hungria, Moravia, Silésia e Polônia. Tomo II. 2ª ed. Paris: 1751.

Lilith - a Lua Negra

Neste livro é contada a história de Lilith, a primeira companheira bíblica de Adão, cujos traços a consciência coletiva apagou, distraidamente, no tempo incomensurável em que se representa a história do homem. 
É a história de um íncubo, de um sonho, ou então é a história da mais inquietante imagem derivado do arquétipo da Grande Mãe. Em todas as épocas o homem interroga a Lua; chegou mesmo a toca-lá com as mãos. Não obstante, não desvendou, para si mesmo, o mistério inconsciente, incluido em figurações e mitos que em certas épocas fazem-lhe o apelo - do interior - com seu fascínio e com uma mensagem obscura que, seguramente, fala da alma e da carne, do amor e da morte. Isto porque fala da mulher. 
Lilith, a Lua Negra, é o céu vazio e tenebroso no qual se projetam indagações e possíveis respostas de um diálogo que nã tem nada a ver com o racional e, muito menos, com o sistemático-clínico: é o diálogo que o homem entretem com a própria alma, vivida em sua totalidade, ou numa cisão dolorosa.

Sobre o livro:
SICUTERI, Roberto. Lilith - a Lua Negra. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

Sobre o autor:
Roberto Sicuteri é psicanalista de orientação junguiana. Ele trabalha em Florença na Itália.

(Texto extraído da contracapa do livro)

Der Vampir (1748) - O primeiro poema moderno sobre vampiros


Considerado o primeiro poema moderno sobre vampiros, Der Vampir foi escrito por Heinrich August Ossenfelder. Publicado em 1748, a história é narrada pelo vampiro que conta como invade o quarto de uma jovem cristã e a seduz, enquanto sua mãe a educa nos preceitos do cristianismo. Nele o vampiro é colocado como o antagonista da inocência e dos princípios religiosos cristãos. Além disto, é incluída a sensualidade que se torna inerente ao vampiro.


Minha cara criadinha se fia
Constante, segura e firme
Nos ensinamentos herdados
Da sempre piedosa mãe.
Como as gentes do Theyse
Que em vampiros mortais
Crêem firmes com heiduques (antigos nobres húngaros).
Aguarda então Cristianinha,
Pois que amar-me não desejas;
Anseio de ti vingar-me,
E hei hoje de um tócai (vinho húngaro)
Beber à saúde de um vampiro.
E quando tranqüila dormires
De tuas formosas faces
Sorver o fresco purpúreo.
E enquanto te amedrontares
Conforme eu te for beijando
Tal qual um vampiro beija;
E quando enfim tu tremeres
E enfraquecida em meus braços
Caíres qual foras morta;
Então te perguntarei:
Não são minhas lições melhores 
Que as de tua boa mãe?* 

Muitos outros poemas foram escritos sobre vampiros após este, um dos mais famosos, que postarei em breve, é a Noiva de Corinto, escrito por Goethe, o autor de Fausto, em 1797.

*No livro de Melton consta o original em alemão e a tradução para o português, decidimos por transcrever a tradução para facilitar a compreensão e ilustrar nossa descrição do poema.
 

Referências:
MELTON, G. J. O livro dos vampiros – A enciclopédia dos mortos vivos. São Paulo: M. Books do Brasil, 2003.

Um caso de vampirismo na Europa do século XVIII - O caso Arnold Paul

Em 3 de março de 1732 a revista Le Glaneur Hollandais, revista que circulava na corte de Versalhes,  publicou em detalhes um caso que daria início, na França, à discussão sobre a existência ou não dos vampiros. A publicação também passou a usar o nome vampiro – em francês vampire, até então era grafado vampyre – pela primeira vez. A história de Arnold Paul teve repercussão imediata em toda a Europa. A investigação do caso foi comandada “pelo médico militar Flückinger e endossado por vários oficiais da companhia do arquiduque, o documento final foi apresentado ao conselho de guerra de Belgrado.” (DEL PRIORE, 2000, p. 108). O relatório intitulado Visum e repertum ( LECOUTEUX, 2005, p.180-184), informava sobre a abertura dos túmulos, exumação dos corpos e condições em que foram encontrados, 

Uma vez assinalado que, na aldeia de Medvegia ( norte de Belgrado, numa área da Sérvia então pertencente ao Império Austríaco), os chamados vampiros tinham matado algumas pessoas sugando seu sangue, o muito honrado Alto Comando ordenou-me examinar a questão a fundo. Parti com dois oficiais e dois cirurgiões e realizei esse inquérito em presença do capitão Gorschitz, da companhia dos heiduques de Stallhaltar, do Hadnagi Bariactar e dos anciões da aldeia. Ouvi o que diziam.
            De suas declarações unânimes, destacou-se que um heiduque do lugar, chamado Arnold Paole, quebrara o pescoço ao cair de uma carroça de feno havia mais ou menos cinco anos. Quando era vivo, ele dizia freqüentemente que um vampiro o tinha perseguido perto de Gossowa, na Sérvia turca, que tinha, então, engolido terra do tumulo do referido vampiro e se untado com seu sangue, para livrar-se desse flagelo. No vigésimo ou trigésimo dia depois de sua morte, várias pessoas se queixaram de ter sido atormentadas por Arnold Paole. Seja como for, quatro indivíduos morreram por sua causa. Para acabar com esse flagelo, a conselho do Hadnagi, que já tinha assistido a acontecimento semelhante, exumaram Arnold Paole quarenta dias após seu falecimento; descobriram que ele estava em perfeito estado e não decomposto. Sangue fresco escorreu de seus olhos, nariz, boca e orelha; sua camisa, mortalha e caixão estavam todos ensangüentados. As unhas das mãos e dos pés tinham caído com a pele, e outras tinham crescido, daí deduziram que se tratava de um verdadeiro vampiro. Conforme o costume, atravessaram-lhe o coração com uma estaca; então, ele emitiu um suspiro bem perceptível e sangrou. Depois disso incineraram o corpo no mesmo dia e jogaram suas cinzas no túmulo.
            As referidas pessoas acrescentaram que todos aqueles que o vampiro perseguiu e matou devem tornar-se, por sua vez, vampiros. Então, exumaram e trataram da mesma forma as quatro pessoas evocadas. Afirmam, ainda, que Arnold Paole não atacou apensas as pessoas, mas também os animais do quais sugou o sangue. Como as pessoas comeram a carne esse animais, resulta mais uma vez que alguns vampiros estão aqui, razão pela qual dezessete pessoas, entres jovens e velhos, sucumbiram em três meses, algumas das quais em dois ou três dias no Maximo, sem terem estado doentes.
            O heiduque Jowiza declara que sua nora, chamada Stanacka, deitou-se saudável e disposta há quinze dias, mas por volta de meia-noite, acordou gritando horrivelmente e tremendo de medo, queixando-se de que Milloe, o filho de um heiduque, morto nove semanas antes, a tinha estrangulado, depois do que ela sentiu uma grande dor no peito; ela definhou de hora em hora até falecer no terceiro dia.
            Em seguida, em companhia dos anciãos da aldeia heiduque, dirigimo-nos todos ao cemitério à tarde para mandar abrir os túmulos suspeitos e examinar os corpos que aí se encontravam. Exumamos:
1. Uma mulher chamada Militza, de 60 anos de idade, morta de doença ao fim de três meses e enterrada havia dez dias. Muito sangue líquido se encontrava em seu peito; as vísceras estavam em bom estado, como na pessoa examinada anteriormente. Por ocasião da autópsia, todos os heiduques presentes se admiraram muito de ver o corpo gordo, declarando todos que conheceram aquela mulher desde a juventude e que, quando viva, tinha sido magra e seca, daí a estupefação de constatar que ela havia engordado no tumulo. Segundo suas declarações, ela era a causa dos vampiros atuais. Por acaso não tinha ela devorado a carne dos carneiros que os vampiros precedentes haviam matado?
2. Um menino de oito dias enterrado noventa dias antes. Ele possuía todas as características de um vampiro.
3. O filho do heiduque, de 16 anos de idade, enterrado havia nove semanas depois de morrer de doença ao fim de três dias. Foi encontrado no mesmo estado que os outros vampiros.
4. Joachim, também filho de um heiduque, com a idade de 17 anos, que sucumbiu a uma doença de três dias. Foi exumado depois de repousar na terra por oito semanas e quatro dias e a autópsia revelou que ele também era um vampiro.
5. Uma mulher de nome Ruscha, falecida de doença ao fim de dez dias e enterrada havia seis semanas. Muito sangue fresco se achava não só no seu peito, mas também no fundo dos ventrículos; constatou-se situação idêntica com seu filho de dezoito dias e morto havia cinco semanas.
6. Ocorreu algo semelhante a uma menina de 10 anos morta havia dois meses, ela estava em estado idêntico, inteira, não putrefata, com muito sangue no peito.
7. Fizemos exumar a esposa do Hagnagi e seu filho de oito semanas. Ela estava morta havia sete semanas e ele, 21 dias. Ambos estavam completamente decompostos, embora tendo repousado na mesma terra e nos mesmos túmulos que os vampiros mais próximos.
8. Um criado do cabo do heiduque local, chamado Rhode, de 23 anos de idade, que sucumbira pela doença em três meses. Exumado cinco semanas mais tarde, encontrava-se perfeitamente decomposto.
9. A mulher de Bariactar e seu filho, mortos seis semanas antes: ambos estavam perfeitamente decompostos.
10. Em Stanache, um heiduque de 60 anos, morto seis semanas antes, encontrei, como nos outros muito sangue no peito e no estômago. Todo o corpo estava no mesmo estado que os dos vampiros evocados.
11. Millo(v)e, um heiduque de 25 anos havia repousado na terra havia seis semanas, também apresentava as características de um vampiro.
12. Uma mulher chamada Stana (ou Stanoicka), de 20 anos morta havia dois meses após uma doença de três dias por causa de um parto. Antes de morrer, ela declarou ter-se untado com o sangue de um vampiro, depois do que ela e seu filho, morto pouco depois do nascimento e metade devorado pelos cães em razão de uma inumação superficial, deveriam transforma-se em vampiros. O corpo estava intacto e inteiro. Na autopsia, foi encontrada certa quantidade de sangue extravasado no peito; os vasos artérias e veias, assim com os ventrículos do coração não estavam, como de habito, repletos de sangue coagulado. Todas as vísceras – pulmões, fígado, estômago, baço e intestinos – estavam ainda frescas, como num homem sadio; o útero, entretanto, estava muito dilatado e inflamado exteriormente, porque a placenta e os lóquios tinham permanecido aí e se encontravam, então, em plena decomposição. As peles das mãos e pés, inclusive as unhas velhas, destacavam por si sós, mas uma nova pele fresca e novas unhas eram visíveis.
Acabado o exame, alguns ciganos presentes cortaram a cabeça dos vampiros e as queimaram assim como os corpos, e depois jogaram as cinzas no rio Morava; recolocaram os corpos putrefatos nos seus túmulos. Tal fato atesto com o cirurgião-adjunto que me assistiu. Actum ut supra.
Johannes Fluchinger, cirurgião-mor do honorável Regimento de Infantaria de Fürstenbuschl.
Nós, abaixo assinados, atestamos pela presente declaração que tudo o que o cirurgião do honorável Regimento de Infantaria de Fürstenbuschl, assim como seus dois assistentes co-signátarios, constataram anteriormente a propósito dos vampiros, corresponde à realidade em todos os pontos, e que eles, em nossa presença, investigaram e examinaram. Para confirmar, assinamos de próprio punho.

Belgrado, 26 de janeiro de 1732,
Büttener, primeiro-tenente do honorável Regimento de Alexandre (de Wutemberg).
J. H. de Lidenfels, porta-bandeira do honorável Regimento de Alexandre (de Wutemberg).
 
A questão de ter sido uma investigação conduzida por oficiais militares com consentimento do Conselho de Guerra de Viena gerou todo um debate a respeito da veracidade dos fatos. Este controverso relatório circulou em toda a Europa no ano de 1732 dando início às histórias e discussões sobre vampiros e virou best-seller. Todos queriam ler para tomar conhecimento dos estranhos casos que estavam ocorrendo no Leste Europeu. Afinal não se tratava de uma história contada por alguém de forma duvidosa em um dos inúmeros manuais e roteiros de viagens que circulavam na época, mas sim de uma história atestada por documentos oficiais. Desta forma causou sensação na França Iluminista sendo discutida por homens como Voltaire e Jean-Jacques Rousseau. Voltaire, inclusive, criou um verbete em seu Dicionário Filosófico intituladoVampiro.
Podemos observar que, levando em consideração a ciência da época, os casos são surpreendentes. Como pessoas enterradas há tanto tempo ainda conservam as características de um morto recente? E como algumas com menos tempo estão decompostas? Ao nos fazermos estas perguntas podemos entender o motivo de tanto alarde e assombramento com o relatório. A falta de conhecimento sobre os processos de decomposição e a necessidade de achar um culpado para as mortes súbitas e em escala, geraram a crença que estas pessoas eram vampiros.

Referências:
DEL PRIORE, M. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano, uma história dos monstros do Velho e do Novo mundo (séculos XVI-XVIII).  São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
LECOUTEUX, C. História dos vampiros – Autópsia de um mito. São Paulo: Unesp, 2005.