Um caso de vampirismo na Europa do século XVIII - O caso Arnold Paul

Em 3 de março de 1732 a revista Le Glaneur Hollandais, revista que circulava na corte de Versalhes,  publicou em detalhes um caso que daria início, na França, à discussão sobre a existência ou não dos vampiros. A publicação também passou a usar o nome vampiro – em francês vampire, até então era grafado vampyre – pela primeira vez. A história de Arnold Paul teve repercussão imediata em toda a Europa. A investigação do caso foi comandada “pelo médico militar Flückinger e endossado por vários oficiais da companhia do arquiduque, o documento final foi apresentado ao conselho de guerra de Belgrado.” (DEL PRIORE, 2000, p. 108). O relatório intitulado Visum e repertum ( LECOUTEUX, 2005, p.180-184), informava sobre a abertura dos túmulos, exumação dos corpos e condições em que foram encontrados, 

Uma vez assinalado que, na aldeia de Medvegia ( norte de Belgrado, numa área da Sérvia então pertencente ao Império Austríaco), os chamados vampiros tinham matado algumas pessoas sugando seu sangue, o muito honrado Alto Comando ordenou-me examinar a questão a fundo. Parti com dois oficiais e dois cirurgiões e realizei esse inquérito em presença do capitão Gorschitz, da companhia dos heiduques de Stallhaltar, do Hadnagi Bariactar e dos anciões da aldeia. Ouvi o que diziam.
            De suas declarações unânimes, destacou-se que um heiduque do lugar, chamado Arnold Paole, quebrara o pescoço ao cair de uma carroça de feno havia mais ou menos cinco anos. Quando era vivo, ele dizia freqüentemente que um vampiro o tinha perseguido perto de Gossowa, na Sérvia turca, que tinha, então, engolido terra do tumulo do referido vampiro e se untado com seu sangue, para livrar-se desse flagelo. No vigésimo ou trigésimo dia depois de sua morte, várias pessoas se queixaram de ter sido atormentadas por Arnold Paole. Seja como for, quatro indivíduos morreram por sua causa. Para acabar com esse flagelo, a conselho do Hadnagi, que já tinha assistido a acontecimento semelhante, exumaram Arnold Paole quarenta dias após seu falecimento; descobriram que ele estava em perfeito estado e não decomposto. Sangue fresco escorreu de seus olhos, nariz, boca e orelha; sua camisa, mortalha e caixão estavam todos ensangüentados. As unhas das mãos e dos pés tinham caído com a pele, e outras tinham crescido, daí deduziram que se tratava de um verdadeiro vampiro. Conforme o costume, atravessaram-lhe o coração com uma estaca; então, ele emitiu um suspiro bem perceptível e sangrou. Depois disso incineraram o corpo no mesmo dia e jogaram suas cinzas no túmulo.
            As referidas pessoas acrescentaram que todos aqueles que o vampiro perseguiu e matou devem tornar-se, por sua vez, vampiros. Então, exumaram e trataram da mesma forma as quatro pessoas evocadas. Afirmam, ainda, que Arnold Paole não atacou apensas as pessoas, mas também os animais do quais sugou o sangue. Como as pessoas comeram a carne esse animais, resulta mais uma vez que alguns vampiros estão aqui, razão pela qual dezessete pessoas, entres jovens e velhos, sucumbiram em três meses, algumas das quais em dois ou três dias no Maximo, sem terem estado doentes.
            O heiduque Jowiza declara que sua nora, chamada Stanacka, deitou-se saudável e disposta há quinze dias, mas por volta de meia-noite, acordou gritando horrivelmente e tremendo de medo, queixando-se de que Milloe, o filho de um heiduque, morto nove semanas antes, a tinha estrangulado, depois do que ela sentiu uma grande dor no peito; ela definhou de hora em hora até falecer no terceiro dia.
            Em seguida, em companhia dos anciãos da aldeia heiduque, dirigimo-nos todos ao cemitério à tarde para mandar abrir os túmulos suspeitos e examinar os corpos que aí se encontravam. Exumamos:
1. Uma mulher chamada Militza, de 60 anos de idade, morta de doença ao fim de três meses e enterrada havia dez dias. Muito sangue líquido se encontrava em seu peito; as vísceras estavam em bom estado, como na pessoa examinada anteriormente. Por ocasião da autópsia, todos os heiduques presentes se admiraram muito de ver o corpo gordo, declarando todos que conheceram aquela mulher desde a juventude e que, quando viva, tinha sido magra e seca, daí a estupefação de constatar que ela havia engordado no tumulo. Segundo suas declarações, ela era a causa dos vampiros atuais. Por acaso não tinha ela devorado a carne dos carneiros que os vampiros precedentes haviam matado?
2. Um menino de oito dias enterrado noventa dias antes. Ele possuía todas as características de um vampiro.
3. O filho do heiduque, de 16 anos de idade, enterrado havia nove semanas depois de morrer de doença ao fim de três dias. Foi encontrado no mesmo estado que os outros vampiros.
4. Joachim, também filho de um heiduque, com a idade de 17 anos, que sucumbiu a uma doença de três dias. Foi exumado depois de repousar na terra por oito semanas e quatro dias e a autópsia revelou que ele também era um vampiro.
5. Uma mulher de nome Ruscha, falecida de doença ao fim de dez dias e enterrada havia seis semanas. Muito sangue fresco se achava não só no seu peito, mas também no fundo dos ventrículos; constatou-se situação idêntica com seu filho de dezoito dias e morto havia cinco semanas.
6. Ocorreu algo semelhante a uma menina de 10 anos morta havia dois meses, ela estava em estado idêntico, inteira, não putrefata, com muito sangue no peito.
7. Fizemos exumar a esposa do Hagnagi e seu filho de oito semanas. Ela estava morta havia sete semanas e ele, 21 dias. Ambos estavam completamente decompostos, embora tendo repousado na mesma terra e nos mesmos túmulos que os vampiros mais próximos.
8. Um criado do cabo do heiduque local, chamado Rhode, de 23 anos de idade, que sucumbira pela doença em três meses. Exumado cinco semanas mais tarde, encontrava-se perfeitamente decomposto.
9. A mulher de Bariactar e seu filho, mortos seis semanas antes: ambos estavam perfeitamente decompostos.
10. Em Stanache, um heiduque de 60 anos, morto seis semanas antes, encontrei, como nos outros muito sangue no peito e no estômago. Todo o corpo estava no mesmo estado que os dos vampiros evocados.
11. Millo(v)e, um heiduque de 25 anos havia repousado na terra havia seis semanas, também apresentava as características de um vampiro.
12. Uma mulher chamada Stana (ou Stanoicka), de 20 anos morta havia dois meses após uma doença de três dias por causa de um parto. Antes de morrer, ela declarou ter-se untado com o sangue de um vampiro, depois do que ela e seu filho, morto pouco depois do nascimento e metade devorado pelos cães em razão de uma inumação superficial, deveriam transforma-se em vampiros. O corpo estava intacto e inteiro. Na autopsia, foi encontrada certa quantidade de sangue extravasado no peito; os vasos artérias e veias, assim com os ventrículos do coração não estavam, como de habito, repletos de sangue coagulado. Todas as vísceras – pulmões, fígado, estômago, baço e intestinos – estavam ainda frescas, como num homem sadio; o útero, entretanto, estava muito dilatado e inflamado exteriormente, porque a placenta e os lóquios tinham permanecido aí e se encontravam, então, em plena decomposição. As peles das mãos e pés, inclusive as unhas velhas, destacavam por si sós, mas uma nova pele fresca e novas unhas eram visíveis.
Acabado o exame, alguns ciganos presentes cortaram a cabeça dos vampiros e as queimaram assim como os corpos, e depois jogaram as cinzas no rio Morava; recolocaram os corpos putrefatos nos seus túmulos. Tal fato atesto com o cirurgião-adjunto que me assistiu. Actum ut supra.
Johannes Fluchinger, cirurgião-mor do honorável Regimento de Infantaria de Fürstenbuschl.
Nós, abaixo assinados, atestamos pela presente declaração que tudo o que o cirurgião do honorável Regimento de Infantaria de Fürstenbuschl, assim como seus dois assistentes co-signátarios, constataram anteriormente a propósito dos vampiros, corresponde à realidade em todos os pontos, e que eles, em nossa presença, investigaram e examinaram. Para confirmar, assinamos de próprio punho.

Belgrado, 26 de janeiro de 1732,
Büttener, primeiro-tenente do honorável Regimento de Alexandre (de Wutemberg).
J. H. de Lidenfels, porta-bandeira do honorável Regimento de Alexandre (de Wutemberg).
 
A questão de ter sido uma investigação conduzida por oficiais militares com consentimento do Conselho de Guerra de Viena gerou todo um debate a respeito da veracidade dos fatos. Este controverso relatório circulou em toda a Europa no ano de 1732 dando início às histórias e discussões sobre vampiros e virou best-seller. Todos queriam ler para tomar conhecimento dos estranhos casos que estavam ocorrendo no Leste Europeu. Afinal não se tratava de uma história contada por alguém de forma duvidosa em um dos inúmeros manuais e roteiros de viagens que circulavam na época, mas sim de uma história atestada por documentos oficiais. Desta forma causou sensação na França Iluminista sendo discutida por homens como Voltaire e Jean-Jacques Rousseau. Voltaire, inclusive, criou um verbete em seu Dicionário Filosófico intituladoVampiro.
Podemos observar que, levando em consideração a ciência da época, os casos são surpreendentes. Como pessoas enterradas há tanto tempo ainda conservam as características de um morto recente? E como algumas com menos tempo estão decompostas? Ao nos fazermos estas perguntas podemos entender o motivo de tanto alarde e assombramento com o relatório. A falta de conhecimento sobre os processos de decomposição e a necessidade de achar um culpado para as mortes súbitas e em escala, geraram a crença que estas pessoas eram vampiros.

Referências:
DEL PRIORE, M. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano, uma história dos monstros do Velho e do Novo mundo (séculos XVI-XVIII).  São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
LECOUTEUX, C. História dos vampiros – Autópsia de um mito. São Paulo: Unesp, 2005.

Dom Calmet, o primeiro caçador de vampiros da História

Em pleno século 18, a Europa vivia a efervescência do Iluminismo. Filósofos como Voltaire e Diderot empenhavam-se em lutar pela primazia da razão, abandonando as superstições, destruindo mitos, e resgatando os antigos ideais de uma ciência explicativa para o mundo. Sua “bíblia” era a obra máxima do saber na época: a enciclopédia, que se propunha reunir todos os conhecimentos construídos pelo ser humano até então. Um movimento deste gênero construíra, também, seus próprios inimigos: a religião, a visão teológica, as crenças infundadas, e as lendas que - supunham - atrapalhavam a visão correta do homem sobre a realidade.

Não foi sem espanto, pois, que em 1732, boatos provenientes do leste europeu falavam sobre o retorno de mortos que não apenas falavam e andavam, mas que infestavam os vilarejos, atacavam homens e animais, sugavam-lhes o sangue até torná-los doentes e matá-los. Depois de “vistos e reconhecidos”, eles eram exumados, processados, empalados, decapitados e, finalmente, queimados. Foi na revista Le Glaneur Hollandais que surgiu, pela primeira vez, a grafia do termo “vampiro” para designar estas estranhas criaturas que infestavam uma vasta região que abrangia Hungria, Romênia, Alemanha, Tcheca e Eslováquia, Bálcãs e chegava mesmo as fronteiras da Rússia e Polônia. O caso relatado na revista falava de um tal Arnold Paul que, após sofrer um acidente numa localidade da Sérvia, foi dado como morto mas teria voltado para atacar outras pessoas, criando um verdadeira epidemia de vampirismo que se arrastou durante anos. O notável nesta história é que seu corpo foi examinado por médicos militares, que teriam constatado que seu corpo não havia se corrompido. O procedimento utilizado para cuidar do corpo foi transpassar-lhe uma estaca, que fez o morto gritar e perder sangue - mesmo assim, somente a extinção de seu corpo pelas chamas deu um fim na terrível criatura.
Xilogravura sobre Vlad Tepes
O caso deixou a Europa iluminista intrigada: que tipo de monstruosidade estaria ocorrendo naquelas regiões? Seria uma doença? Simples superstição? Atendendo ao apelo das mentes racionais da época, entra então em cena Dom Calmet, que talvez tenha sido o primeiro investigador oficial de vampirismo na história da humanidade.

O primeiro inquérito de vampirismo da história

As lendas sobre vampiros e criaturas sugadoras de sangue eram comuns na Europa desde a antiguidade. Com o tempo, contudo, elas foram rareando ou desaparecendo até se transformarem em mitos ou lendas antigas. Foi surpreendente para esta época o reaparecimento destas criaturas malignas, e a questão incomodava sobremaneira as mentes intelectuais do momento.
Augustin Calmet (1672-1757)
Dom Calmet foi um destes investigadores racionalistas daquele momento que resolveu topar a parada, e realizar um inquérito sério e científico sobre o problema. Obviamente, ele tinha razões mais profundas para esclarecer o enigma; Calmet era um clérigo, extremamente preocupado com as questões teológicas relativas a volta dos “mortos-vivos”, e sua investigação cumpria um duplo sentido: destruir científica e religiosamente a possibilidade da existência de vampiros e outras criaturas malignas, de modo a afirmar os dogmas católicos mas utilizando, para isso, dos métodos racionalistas iluministas.
Calmet, inclusive, tinha um bom trânsito entre os iluministas, e havia aprendido bastante sobre técnicas de pesquisa existentes na época. O objetivo de seu trabalho seria discutir, inicialmente, as impossibilidades metafísicas da existência destes seres: depois, apresentar as provas científicas que caracterizariam estes enganos. O resultado de suas andanças - que demoraram anos no leste europeu - foram publicadas, finalmente, em 1751 com o título de Tratado sobre a aparição de espíritos e sobre os vampiros ou os revividos da Hungria, da Morávia, etc. e causaram choque entre os contemporâneos quando o autor deixava, de maneira absolutamente inconclusa, o problema da existência dos vampiros, fazendo a sociedade da época supor que eles realmente poderiam existir...

As descobertas de Calmet

Antoine Calmet foi um erudito religioso conhecido sob o nome de Dom Augustin Calmet. Nasceu na Lorena em 26 de fevereiro de 1672. Ainda jovem escolheu tornar-se um padre beneditino da Congregação de Saint-Vanne et Saint-Hydulphe. Percorreu os diversos mosteiros de sua ordem, devorando as bibliotecas e redigindo numerosas compilações históricas. Em 1728, Dom Calmet tornou-se abade na Abadia Saint-Pierre de Senones, capital do principado de Salm. Foi ali que trabalhou e viveu até sua morte, em 25 de outubro de 1757, mantendo correspondência com numerosos cientistas.
O fato de ser preciso exumar e mutilar os corpos de cristãos para destruir os vampiros na Europa oriental chamou a atenção da igreja: esta, primeiramente, convocou um padre chamado Giuseppe Davanzati para elaborar uma resposta ao problema que, depois de estudar durante cinco anos os casos de vampirismo, escreveu a tese Dissertazione sopra I Vampiri publicada em 1744, em que concluía que os vampiros eram fruto da imaginação e que os corpos não deveriam ser profanados.

Contudo, a tese de Davanzati não convenceu muita gente, por seu teor eminentemente religioso e não científico. Foi assim que, logo depois, entra em cena Dom Calmet, um religioso que também possuía os conhecimentos “científicos” da época, e que estava estudando os casos de vampiros de modo mais aprofundado e sério. Em 1746 – após tomar conhecimento das discussões e debates a respeito dos casos de
vampirismo na Europa Central, como o de Arnold Paul, quando decidiu examinar a questão à luz da razão e da religião, e de realizar suas investigações diretas, Calmet publica sua Dissertation sur les apparitions des anges, des demons et des esprits, et sur les revenans et vampires de Hongrie, de Bohême, de Moravie et de Silésie,(Dissertação sobre as aparições de anjos, demônios e espíritos, e sobre os revividos e vampiros da Hungria, da Boêmia, da Moravia e da Silésia.), uma longa compilação dos casos de vampirismo ocorridos na Europa Central, a repercussão de seu trabalho foi tamanha que uma nova edição revista e ampliada foi publicada em 1751 com modificações no título: Traité sur les apparitions des esprits et sur les vampires ou les revenans de Hongrie, Moravie, etc. (ou Tratado sobre as aparições dos espíritos e sobre os vampiros ou os revividos da Hungria, Moravia, etc., a versão final com o qual trabalhamos agora).

Dom Calmet era um renomado estudioso da época, e seus trabalhos eram voltados para a interpretação e tradução bíblicas, sendo reconhecido pelos outros clérigos como um dos principais acadêmicos do catolicismo daquele momento. seu interesse nos casos de vampirismo que estavam ocorrendo na Europa Central e Oriental lacabaram lhe rendendo repreensões, críticas e até mesmo o escárnio de outros colegas do clero, dos cientistas e filósofos iluministas. Calmet afirmava no início de seu livro:“Minha intenção é tratar aqui a questão dos revividos ou vampiros da Hungria, Moravia, Silésia e Polônia, arriscando a ser criticado de alguma maneira: os que o crêem verdadeiros me acusarão de temeridade e presunção, por ter colocado em dúvida, ou mesmo ter negado sua existência e realidade, outros me repreenderão por ter empregado meu tempo a tratar desta matéria, que passa por frívola e inútil no espírito de muitas pessoas de bom senso. De alguma maneira penso que terei de boa vontade aprofundado uma pergunta, que parece importante para a religião: porque se o regresso dos vampiros é real, importa defendê-lo e proválo e, se é ilusório é do interesse da religião desenganar os que o crêem verdadeiro e destruir um erro que pode ter muitas conseqüências”. (CALMET, 1751, p.IX-X)

As críticas surgiram pelo simples fato que, ao fazer sua compilação dos casos de vampirismo com a intenção de desacreditá-los e de acabar com o que considerava o sacrilégio de profanar os corpos e as sepulturas para destruir os suspeitos de serem vampiros, Dom Calmet acabou por endossar as crenças. Suas conclusões são, em alguns casos, ambíguas e, logo no prefácio da obra ele deixa claro que não há provas sólidas da existência ou não dos vampiros e da possibilidade dos mortos voltarem: “[...] Dá-se a estes revividos o nome de Oupires ou Vampiros, ou seja, sanguessugas, e deles contam-se particularidades tão singulares, tão detalhadas e cobertas de circunstâncias tão prováveis e com tantas informações jurídicas que quase não se pode recusar a crença destes países: que estes revividos parecem realmente sair dos seus túmulos e produzir os efeitos que são publicados”. (CALMET, 1751, p.VI)

Nestes relatos dos vários casos de vampirismo que o abade compilou, encontra-se a descrição de como identificar um vampiro e as formas de exterminá-lo. Um dos casos relatados é o ocorrido na “aldeia de Blow, perto da vila de Kadam na Boêmia” (CALMET, 1751, p. 35), de um pastor que, retornando após a morte chamava algumas pessoas que morriam “infalivelmente” após oito dias. Para livrar-se do vampiro atravessaram uma estaca em seu cadáver para mantê-lo preso a sua sepultura, e como não houve resultado, ele voltou a levantar zombando do método usado. Para acabar de vez com a perturbação, ele foi retirado de seu túmulo sendo posto: “[...] sobre um carro para transportá-lo para fora da aldeia e queimá-lo. O cadáver gritou furioso, e agitou os pés e as mãos como vivo, e no momento em que o furaram, soltou muito gritos e derramou sangue muito vermelho e em grande quantidade. Por último, queimaram-no e esta execução pôs fim aos aparecimentos e às infestações deste espectro”. (CALMET, 1751, p.35).

Imagem de um vampiro do séc. XVIII
Ao longo de toda obra, Dom Calmet elenca relatos oficiais sobre o vampirismo – jornais, testemunhos oculares, diários de viagem e críticas feitas por seus colegas esclarecidos, mas não chegou a nenhuma conclusão decisiva: “Contudo, não se procede sem alguma forma de justiça: citam-se e escutam-se os testemunhos, examinam-se as razões, consideram-se os corpos exumados, para ver se são encontradas as marcas comuns, que fazem pensar que estes molestam os vivos, como a mobilidade e a flexibilidade dos membros, a fluidez do sangue, a incorrupção da carne. Se estas marcas são encontradas, são entregues ao carrasco que queima-os. Algumas vezes os espectros aparecem ainda durante três ou quatro dias após a execução. Às vezes prorrogam por seis ou sete semanas o enterro das pessoas suspeitas. Quando não se corrompem e seus membros permanecem flexíveis e maleáveis, como se estivessem vivos, então são queimados”. (CALMET, 1751, p.36).

Sua imprecisão em atestar os casos como superstição ou realidade e a forma como concluiu que não podia chegar a parecer algum senão ao que criaturas como os vampiros podiam retornar do túmulo, acendeu ainda mais a fogueira das discussões sobre o assunto que varreram a Europa Ocidental, levando inclusive, os  filósofos iluministas a discutir o assunto. Da mesma forma que Dom Calmet, o racionalismo iluminista, ao tentar refutar estas crenças como superstições do povo ignorante, conseguiu exatamente o contrário; difundiu os vampiros por toda a Europa de onde o mito ganhou o mundo.

As incertezas do pesquisador

Na mescla de relatos recolhidos por Calmet, não consta evidência da realidade ou não dos vampiros, e o próprio Calmet não deixa claras suas conclusões. Por todo o Tratado suas opiniões são contraditórias. Um exemplo de suas contradições está em um dos capítulos finais da obra: “Pode-se tirar vantagem destes exemplos e destes argumentos em prol do vampirismo, dizendo que os revividos da Hungria, Moravia e Polônia, não morreram realmente, que vivem nos seus túmulos, embora sem movimento e sem respiração: seu sangue estando fluído e vermelho, a flexibilidade dos seus membros, os gritos que soltam quando seu coração é perfurado ou sua cabeça cortada prova que vive ainda. A principal dificuldade que tento entender é como saem dos seus túmulos: para lá retornam sem remexer a terra, que se mantém em seu primeiro estado: como aparecem vestidos em suas roupas, como vão e vêm, como comem? Se for assim porque voltar a seus túmulos? Porque não residir entre os vivos? Porque sugar o sangue seus parentes? Porque infestar e fatigar estas pessoas, que devem serlhes caras, que não o ofenderam? Se qualquer parte disto é somente imaginação por parte dos que são molestados, como explicar que estes vampiros são encontrados em seus túmulos sem corrupção, cheios de sangue, flexíveis e manejáveis; que se encontram seus pés com lama no dia seguinte ao que correram assustando as pessoas da vizinhança, que não se observa nada similar nos outros cadáveres enterrados pelo mesmo tempo no mesmo cemitério? Como não retornam mais, não incomodam mais, depois que são queimados ou empalados? Será ainda a imaginação dos vivos e as suas crenças que se tranqüilizam após estas execuções feitas? Como que estas cenas renovam-se assim freqüentemente nestes países, que não são prejudicadas, que a experiência diária em vez destruir faz apenas aumentar e fortificar?” (CALMET, 1751, p.211-212).

Como pode ser observado no trecho transcrito acima, o próprio Dom Calmet não sabia no que acreditar. Ele buscava refutar as crenças, mas por outro lado, deixava perceber que ele mesmo não decidira se acreditava ou não nos relatos que compilara. Este foi o estopim para toda a discussão que se seguiu a publicação do Traité sur les apparitions des esprits et sur les vampires ou les revenans de Hongrie, Moravie, etc.  

Os efeitos da dissertação de Dom Calmet

Ao publicar o Traité sur les apparitions des esprits et sur les vampires ou les revenans de Hongrie, Moravie, etc., Calmet trouxe a discussão para o centro do fenômeno iluminista, e se transformou num grande bestseller com a ajuda involuntária dos próprios filósofos iluministas. A obra teve inúmeras publicações, e ficou conhecida em toda a Europa. Os efeitos da obra foram tão impactantes que a imperatriz da Áustria, Maria Tereza, decretou uma lei proibindo a abertura de sepulturas e o estacamento de mortos, tentando coibir o surto de pânico que se espalhara nos domínios do império Austro-húngaro. Os filósofos do Iluminismo passaram a discutir o assunto e finalizaram a questão determinado, arbitrariamente, que era tudo irreal, fantasia da imaginação daquele povo. A lei também conseguiu atingir seu objetivo, ao diminuir as violações de corpos e, lentamente, acabar com a histeria vampírica. Depois de o assunto ser rechaçado e ridicularizado por homens como Voltaire (que dedica um verbete de seu dicionário filosófico especialmente à questão), Diderot e Rousseau, as autoridades seculares e eclesiásticas não viram mais necessidade de desmistificar os vampiros, e a obra de Calmet foi posta de lado como um “trabalho científico” - mas o autor não viu isso ocorrer, falecendo em 1757.

A razão, pois, negava seus próprios métodos, em função da afirmação de um discurso contra as crenças e superstições. Foi exatamente aí, no entanto, que a literatura popular pôde tirar proveito daquela série de histórias interessantes relatadas por Calmet, e sobre as quais haviam tomado conhecimento com toda a discussão que se desenrolara. Durante quase um século, diversos autores empregaram o vasto material recolhido por Calmet para criarem contos e histórias fantásticas sobre vampiros, dando-lhes diversas formas diferentes. O romance Drácula (1897), de Bram Stoker, seria tão somente a conclusão deste processo, dando uma forma acabada ao mito do vampiro que conhecemos hoje. Quanto a Dom Calmet, este passou a história - não como o pesquisador que realmente se propunha a ser, e sim, como a fonte principal de um dos maiores mitos do imaginário e da literatura popular mundial.

Referências:
CALMET, Dom Augustin. Tratado sobre os aparecimentos dos espíritos, sobre vampiros ou os fantasmas da Hungria, Moravia, Silésia e Polônia. Tomo II. Paris: 1751.
ARGEL, M. e MOURA NETO, H. (org.). O vampiro antes de Drácula. São Paulo: Aleph, 2008.
BARTLET, W. e IDRICEANU, F. Lendas de sangue: o vampiro na história e no mito. São Paulo: Madras, 2007.
COSTA, F. M. (Org.) 13 melhores contos de vampiros. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.
LECOUTEUX, C. História dos vampiros – Autópsia de um mito. São Paulo: Unesp, 2005.
MELTON, G. J. O livro dos vampiros – A enciclopédia dos mortos vivos. São Paulo: M. Books do Brasil, 2003.
FLORESCU, R. e MCNALLY, R. T. Em busca de Drácula e outros vampiros. São Paulo: Mercuryo, 1995.
VIEIRA, Mayte. Sombras e sangue: Don Calmet e as investigações sobre casos de vampirismo na Europa Iluminista. União da Vitória: FAFIUV, Paraná, 2009. (Monografia de História)

Esta é uma adaptação de meu artigo publicado na Revista Leituras da História número 37, fev. de 2011.

História dos vampiros - Autópsia de um mito

A criatura que se aproxima de suas vítimas na escuridão da noite para lhes roubar o sangue e a alma recebe neste livro um tratamento digno do fascínio que exerce ainda hoje sobre as pessoas, mesmo que sua imagem seja diferente daquela de épocas remotas que ainda não conheciam "as Luzes da Razão". Sua figura liga-se aos mistérios que povoam o imaginário humano - como seres que transitam entre este e o outro mundo -  e a anseios ancestrais, como a passagem da vida para a morte. 

A criatura das trevas de tez pálida e lábios encarnados fascinou os herdeiros do Século das Luzes. Na literatura, além de Bram Stoker e seu Drácula, grandes nomes como Alexandre Dumas, Byron, Baudelaire e Mérimée assinaram histórias com vampiros. Cerca de seiscentos e cinquenta filmes foram dedicados a ele desde o pioneiro The Vampire (1913). Dissertações sobre o tema existem desde 1679, e Voltaire, Marx e Geissendorfer usaram-no para criar uma associação negativa com monges, capitalistas e nazistas. Partindo dos tratados do século XVIII, Lecouteux retoma as narrativas originais e a etimologia da palavra "vampiro", buscando uma exatidão de abordagem que inexiste em grande parte das obras que tratam deste tema. Uma leitura indicada para quem quer conhecer os vampiros de forma mais aprofundada.

Sobre o livro:
LECOUTEUX, Claude. História dos vampiros: autópsia de um mito. São Paulo: Unesp, 2005.

Sobre o autor:
Claude Lecouteux é professor de Literatura e de Civilização Germânica da Idade Média na Universidade de Paris IV-Sorbonne. Tem vários livros publicados sobre mitos sobrenaturais, como fantasmas, lobisomens, feiticeiras, elfos, demônios e gênios.
(Este texto é parte da orelha do livro)

Os vampiros no imaginário (parte de minha monografia)

Para compreendermos os vampiros é necessário entender primeiramente, mesmo que de forma superficial, a visão da morte e dos mortos e suas transformações ao longo do tempo, visto que a crença dos mortos que voltam para assombrar os vivos é tão antiga quanto à própria humanidade, sempre esteve e ainda se mantém dentro do imaginário humano. Ela tem fundamento em nosso medo da morte, do desconhecido, na questão para a qual buscamos inúteis respostas: o que acontece após a morte?

As civilizações da antiguidade clássica acreditavam na sobrevivência da alma após a morte, mas não na separação da alma e do corpo; e em sua concepção, corpo e alma permaneciam juntos e convivendo na terra junto com os seus. “Nascida junto com o corpo não seria dele [a alma] separada pela morte, alma e corpo seriam encerrados juntos no mesmo túmulo.” (COULANGES, 2007, p. 14). Sendo assim, eram deixados alimentos e bebidas para o morto, para que este pudesse comer e beber após sua morte, pois se acreditava que ele continuava vivendo, através de sua alma, debaixo da terra em sua sepultura. Isto explica o sepultamento, sua necessidade veio da crença que as almas precisavam de um lugar para morar, onde descansar e receber as oferendas dos vivos, as almas sem sepultura seriam errantes e se tornariam fantasmas que assombrariam os vivos lembrando-os de sua condição.

Desgraçada, logo essa alma se tornaria perversa. Atormentaria os vivos, provocando-lhes doenças, devastando-lhes os campos, atormentando-os com aparições lúgubres, para alertá-los de que tanto o seu corpo como ela própria queriam sepultura. (COULANGES, 2007, p. 16)

Não se temia a morte, mas sim a privação da sepultura ou dos ritos funerários adequados para passar a eternidade tranquilamente. Esta crença era difundida a todos, na Grécia e Roma antigas os relatos de fantasmas são abundantes. (SCHMITT, 1999, p. 28). Além disto, existia também a noção que o homem tinha que viver sua vida no tempo correto, sem abreviá-la, quando isto acontecia havia “conseqüências nefastas e perigosas para todos” (LECOUTEUX, 2005, p. 28).

Isto se aplicava a todos os mortos prematuros: recém-nascidos, mães mortas no parto, suicidas; incluindo nestes, feiticeiros, pessoas que de alguma forma inquietavam a comunidade, os que tinham motivo para vingança, os que não eram sepultados nos locais que determinaram e os que não eram sepultados; todos que podiam tornar-se fantasmas e voltar para assombrar os vivos, eram os recusados no além e ficavam presos sem poder fazer o trespasse. Da mesma forma se não fossem cumpridos os ritos de passagem corretamente o morto também não descansaria. Todos tinham que viver dentro da normalidade e dos códigos morais e se desprender de todos os elos que os ligavam aos vivos no momento da morte para poderem descansar em paz. (LECOUTEUX, 2005, p. 40-51)

Nos séculos V e VI os cemitérios eram como no tempo dos romanos, afastados das cidades com a intenção de manter o mundo dos vivos e o mundo dos mortos separados. A morte era pessoal e individual, os ritos funerários eram obrigação da família, o cuidado para que os mortos não fossem perturbados e tratados de forma correta para não retornarem e atormentar os vivos também.
Por volta do século VII com o cristianismo, a igreja passou a trazer os mortos para serem enterrados dentro de seu edifício, assim aproximando os vivos e mortos e apaziguando o medo.

Assim a morte se tornava pública. Os fiéis rezavam com os pés sobre seus próximos. O mundo dos vivos e o mundo dos mortos formavam apenas um, separados somente pela fronteira simbólica do piso, num mesmo espaço sagrado. [...] A morte foi integrada à humanidade. (ROUCHE, 1989, p. 492-493)

A forma tradicional de encarar a morte e de tratar os mortos conviveu durante muito tempo com as práticas cristãs. As famílias eram responsáveis por seus mortos, por prepará-los para a passagem quando da morte. Ainda havia “a crença que os mortos podiam retornar para juntos dos vivos e atormentá-los, principalmente quando o trespasse ou a conduta de seus parentes não os satisfaziam.” (LAWERS, 2006, p. 247)

A igreja via os relatos de fantasmas como manifestações do demônio, mas as crenças nos fantasmas não desapareceram do Ocidente, principalmente entre os povos eslavos e germânicos que acreditavam que os criminosos poderiam retornar, tendo assim práticas para enfrentá-los. Cadáveres, no direito germânico, podiam agir juridicamente, podiam ser condenados e objeto de uma execução póstuma, portanto, “se os mortos eram julgados e executados, como não acreditar em seu temível poder?” (DELUMEAU, 1989, p. 85)

Para Vovelle (2004, p.126), os mortos vivem entre os vivos, às vezes velando por eles, às vezes hostis, e é preciso se livrar de sua presença indesejada.

Segundo Lecouteux (2005, p. 40-51), uma das crenças era que os mortos impuros – os feiticeiros, os mortos prematuros e também, a partir da Idade Média, os excomungados – não eram aceitos pela terra, portanto não se decompunham até que tivessem seus pecados ou maldades exorcizados, eles eram decapitados, amarrados, tinham uma estaca enfiada em seu coração para garantir que não retornassem e assombrassem os vivos.

Conforme Schmitt (2006, p. 253-260), a concepção da antiguidade clássica em que o corpo e a alma eram inseparáveis modificou-se com o cristianismo, para os cristãos corpo e alma são duas coisas separadas. Com a morte o corpo volta ao pó e a alma vai para o purgatório, geralmente aguardar seu julgamento final para os bons terem os corpos ressuscitados como Cristo, e ascenderem ao Paraíso. Devido a isto as normas da Igreja combatiam a destruição do corpo que seria ressuscitado no Juízo Final.

A igreja passou a tomar para si o cuidado com os mortos, transformando um acontecimento visto como privado, particular da família num acontecimento público, em geral com a intenção de lutar contra o medo da morte e as crenças em aparições. Assim, “contra a angústia da morte, deslocou os defuntos para colocá-los à vista de todos, ao redor dos vivos.” (ROUCHE, 1989, p. 529). Mesmo com esta domesticação dos mortos pelo cristianismo e a difusão da crença pelos clérigos que somente os santos reapareciam com o propósito de mandar mensagens sobre a salvação das almas e exemplos para ter o descanso no além, ainda assim, as crenças nos mortos maléficos permaneceram, de acordo com Schmitt (2006, p. 47). São mortos que

[...] não são almas penadas que voltam para mendigar humildemente os sufrágios dos vivos, mas mortos maléficos, próximos daqueles descritos pelas sagas escandinavas;[...] aterrorizam seus parentes e toda a vizinhança, fazem os cães uivar à noite, são acusados de corromper o ar, de provocar epidemias e mesmo de beber o sangue dos homens. Dois deles são explicitamente qualificados de vampiro (sanguisuga) e, quando sua sepultura é aberta, é encontrada maculada de sangue e o cadáver todo inchado, o rosto rubicundo, a mortalha rasgada. [...] Em todos os casos, a solução finalmente proposta pelos clérigos consiste em abrir a sepultura e em depositar uma fórmula escrita de absolvição sobre o peito do morto. Inversamente, os clérigos consideram "indecente e indigno" o método que os habitantes, e sobretudo os "jovens" que vencem seu terror, empregam: alguns deles (até dez) dirigem-se ao cemitério, desenterram o cadáver, fazem-no em pedaços e queimam tudo em uma fogueira fora da aldeia. Antes, um deles retirou o coração, pois sua presença impediria o cadáver de queimar. (SCHMITT, 2006, p. 101)

Segundo Lecouteux (2005, p. 41-60), na Europa no século XVII e até hoje no país de Gales, persiste a crença que as almas dos mortos continuam vivendo embaixo da terra em sua sepultura. Na Polônia, na Romênia, na Europa Oriental em sua maioria, havia a crença que os mortos voltavam para comer e beber em sua casa, para se aquecer no fogo da lareira que era deixada acesa para este fim. Os mortos viviam em meio aos vivos e a morte era um sono do qual não deviam ser perturbados, quando o eram retornavam e atormentavam os vivos. (ARIES, 2000, p.362). A igreja medieval tentou incorporar estas crenças dizendo que as aparições das lendas populares eram demônios que se apossavam do corpo dos mortos com o único fim de aterrorizar os vivos.

Toda esta crença conservava os mortos no cotidiano, imaginava sua vida no além sendo uma réplica da vida dos vivos conseqüentemente,

[...] os defuntos têm muitas atividades dos vivos; eles assistem a serviços religiosos rezados por padres falecidos, dançam nos cemitérios, continuam a amar seus parentes e odiar seus inimigos, defendem seus bens e estrangulam os profanadores de sepulcro ou lhes furam os olhos, eles vão e vêm, dão notícias de si por intermediários especializados – feiticeiros locais ou de fora -, e até retomam sua atividade profissional, [...] (LECOUTEUX, 2005, p. 57)

Em todas estas crenças o morto maléfico por excelência é o vampiro – ser que pertence aos dois mundos e mantém seu corpo para transitar entre eles – existindo em numerosas formas, podendo ser tanto um morto ressuscitado como espíritos desencarnados, fantasmas, demônios, que é o caso dos vampiros gregos, entretanto todos têm um traço em comum: sua sede de sangue tanto de humanos quanto de animais para prolongar sua existência que desafia a morte e o tempo. 

Referências:
COULANGES, F. A cidade antiga. São Paulo: Martin Claret, 2007.
DELUMEAU, J. História do medo no Ocidente: 1300-1800, uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
LAUWERS, M. Morte e mortos. In: LE GOFF, J. e SCHMITT, J. (org.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval – Volume II. São Paulo: Edusc, 2006.
LECOUTEUX, C. História dos vampiros – Autópsia de um mito. São Paulo: Unesp, 2005.
ROUCHE, M. Alta Idade Média ocidental. In: VEYNE, P. (org.) A história da vida privada: Do Império Romano ao ano 1000 – Volume I. São Paulo: Companhia das Letras: 1989.
SCHMITT, J. Os vivos e os mortos na sociedade medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
SCHMITT, J. Corpo e alma. In: LE GOFF, J. e SCHMITT, J. (org.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval – Volume I. São Paulo, Edusc, 2006.
VIEIRA, Mayte. Sombras e sangue: Dom Calmet e as investigações sobre casos de vampirismo na Europa Iluminista. União da Vitória: FAFIUV, Paraná, 2009. (Monografia de História)
VOVELLE, M. Ideologia e mentalidades. São Paulo: Brasiliense, 2004.

Em busca de Drácula e outros vampiros

Este é um livro pra quem se interessar em conhecer a história de Vlad Tepes, o Empalador. Personagem histórico que levou Bram Stoker a escolher o nome Drácula para seu vampiro.
Os autores buscam pela história do verdadeiro Drácula, que era um príncipe, não um conde, e teve este nome como um apelido por conta de seu pai, cavaleiro da Ordem do Dragão.
Vlad Tepes tem uma história curiosa, um homem violento numa época violenta e o livro faz uma biografia dele, além de apresentar um roteiro sobre a Transilvânia, uma lista de livros e filmes de vampiros, um estudo completo.
Para quem quiser saber mais sobre a história por trás da lenda, é uma ótima recomendação. Apesar de ter já alguns anos da publicação no Brasil seu conteúdo permanece atual.

Sobre o livro:
MCNALLY, Raymond T. e FLORESCU, Radu. Em busca de Drácula e outros vampiros. São Paulo, Mercuryo, 1995.

Sobre os autores:
Ambos, juntos ou separadamente já escreveram muitos livros a respeito de Drácula e do vampirismo. São internacionalmente conhecidos como autoridade sem par sobre este tema. São professores do Boston College, onde dão cursos sobre Drácula, histórias de terror (na literatura e no cinema) e história da Rússia e do Leste europeu.

O livro dos vampiros - A enciclopédia dos mortos-vivos

"O fascínio pelos vampiros está longe de estar morto."

O livro dos vampiros é uma coletânea de fatos e ficção acerca dos mortos-vivos. Ele é composto por inúmeros verbetes, imagens, ilustrações, lendas, mitos, biografias de atores que representaram vampiros.
Contém informações que abrangem desde super produções até sátiras sobre as criaturas da noite, séries televisivas, quadrinhos, enfim uma gama de produções que envolvem estes seres.
É, como o próprio nome diz, uma enciclopédia dos mortos-vivos.

Sobre o livro:
MELTON, J. Gordon. O livro dos vampiros, a enciclopédia dos mortos-vivos. São Paulo: M. Books do Brasil, 2003.

Sobre o autor:
Presidente da Transylvania Society of Dracula's American Chapter, o Dr. J. Gordon Melton é respeitado nacionalmente como escritor, palestrante e erudito, sendo conhecido sobretudo por seu trabalho sobre religiões e cultos.

Como é difícil se livrar de um vampiro...


As inúmeras formas de afastar ou destruir um vampiro aqui apresentadas são todas parte do folclore europeu em sua maioria, o que demonstra que, provavelmente, existem muitas outras em regiões diversas. Isto porque o vampiro não é um ser mítico exclusivo da Europa, existem relatos do aparecimento e do temor destas criaturas em todo o mundo. Desde a antiguidade eles são mencionados, as antigas cidades da Assíria e da Babilônia já relatavam acontecimentos envolvendo estes seres, o folclore judeu menciona Lilith como um demônio vampiro, ela é considerada a primeira mulher de Adão, demonstrando que no folclore, o primeiro homem surgiu junto com o primeiro vampiro. 
Os vampiros ocidentais dos livros e do cinema são todos baseados no folclore europeu, consequentemente a forma de livrar-se deles também. Algumas práticas, como as sementes foram esquecidas sendo retomadas muito rapidamente, outras como a estaca e o alho permanecem no imaginário tornando-se parte do armamento anti vampiro básico para quem teme estas criaturas, porém vale lembrar que para os vampiros de nossos tempos modernos, crucifixos ou qualquer outro símbolo religioso não terão o menor efeito, deixando claro, mais uma vez, sua mais impressionante característica: a adaptação seja às sociedades, aos costumes ou ao tempo. Ele permanece sempre atento às mudanças do mundo em que vive e, para isto, como dizem os vampiros de Vianco, tem que se tornar “uma garça, entre as garças”.

Como afastar um vampiro? - Alho


O alho é consenso para afastar como a estaca para destruir, pelo folclore e por grande parte da literatura. Segundo Florescu e McNally (1995, p.126) na Transilvânia (atual Romênia) os camponeses acreditam no alho como poderoso para deter vampiros, untando toda e qualquer abertura na casa para mantê-los longe. Como é utilizado como erva medicinal afastando doenças eles acreditam que afastava também tudo que é mau demônios, lobisomens e vampiros, bruxas e feiticeiras. O alho aparece como poderoso protetor também no folclore do México, da América do Sul e da China, conforme Melton (2003, p.16). Ainda de acordo com Melton, o alho foi introduzido na literatura por Stoker, sendo usado pelo Dr. Van Helsing para evitar que Drácula se aproximasse de Lucy Westenra.

Existem dois outros elementos que praticamente não são mencionados ou associados aos vampiros pela literatura, mas fazem parte do folclore romeno e foram retomados por André Vianco: a prata e sementes. Em seus romances são utilizadas balas de prata para causar ferimentos graves nos vampiros e existe uma alusão a sementes como distração.

Os pesquisadores Florescu e McNally (1995, p.126-129) destacam que a prata, por ser considerada uma liga pura afasta tanto vampiros quanto lobisomens. Além disto, os vampiros são vistos como seres compulsivos, portanto qualquer coisa que possa ser contada os faz parar imediatamente para este fim. Os camponeses romenos cercavam a casa de sementes de papoula, ao se aproximar e ver as sementes espalhadas pelo chão o vampiro começa a conta-las e fica distraído até o amanhecer quando vai embora.

Referências:

FLORESCU, R. e MCNALLY, R. T. Em busca de Drácula e outros vampiros. São Paulo: Mercuryo, 1995.
MELTON, G. J. O livro dos vampiros – A enciclopédia dos mortos vivos. São Paulo: M. Books do Brasil, 2003.
STOKER, B. Drácula. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.

Como afastar um vampiro? - Água benta, hóstia e crucifixo


De acordo com Melton (2003, p.181) as crenças em vampiros são anteriores ao cristianismo, portanto o folclore anterior à difusão da religião não menciona qualquer problema destes seres com os símbolos cristãos. Foi somente a partir do século XIII e XIV com a Inquisição que as crenças pagãs passaram a ser combatidas fortemente e vampiros, bruxas ou qualquer criatura relacionada ao paganismo passou a ser associada à Satã, portanto precisava ser combatida e destruída. Assim os vampiros passaram a temer os símbolos cristãos como o crucifixo, a água benta e a hóstia.
  
"O medo das feiticeiras, dos vampiros e de outros monstros é acentuado pela ação da Igreja militante. Para a Igreja católica o problema do vampirismo era um problema político. A simples existência do vampiro coloca em questão o dogma católico e o poder político da Igreja. Segundo o dogma católico as almas dos mortos têm três alternativas: Inferno, Purgatório e Paraíso. Não existem almas que errem sobre a terra. Por isso, a caça a estes seres imaginários assim como a seus servidores era plenamente justificada." (BUSE, 2010, p.129).

Na literatura o temor aos símbolos religiosos é iniciado por Bram Stoker em Drácula, até então não era relevante. Seguindo Stoker os romances posteriores e logo após o cinema passaram a tratar o vampiro como um ser amaldiçoada por Deus, temente à ele que não podiam entrar em igrejas ou locais sagrados. A literatura atual, porém passou a descartar o simbolismo cristão, os vampiros atuais já não são se importam com isto, os vampiros de Anne Rice não tem qualquer dogma religioso.
Na badalada série Crepúsculo de Stephenie Meyer (2008) os vampiros não esboçam nenhum temor à cruz, pelo contrário, mantém uma em sua casa como ornamento, o que causa espanto à protagonista da série.
 
[...] estaquei no final do corredor olhando incrédula o ornamento pendurado no alto da parede. Edward riu ao ver minha expressão confusa. – Pode rir – disse ele. – É mesmo meio irônico.
Eu não ri. Minha mão se ergueu automaticamente, um dedo esticado como que para tocar a grande cruz de madeira, [...] – Porque vocês mantêm isto aqui? – perguntei.  – Nostalgia. [...]. (MEYER, 2008, p.240)
           
O autor brasileiro André Vianco em Sétimo (2002) sequencia do livro Os Sete, coloca um diálogo entre dois vampiros onde eles discutem o fato de Deus não importar-se com os vampiros que foram abandonados por ele e considerados amaldiçoados, perseguidos por seus semelhantes, os humanos. Na série, Vianco constrói uma narrativa colocando-os como vampiros originais, criados diretamente pelo demônio que “tomou nossas almas e largou na Terra nossos corpos. Desgraçadamente vivos! Para quê? [...] Por que Deus deixa isso acontecer?” (VIANCO, 2002, p.98).

Esta é outra criação da literatura atual iniciada por Anne Rice na série Crônicas Vampirescas: vampiros que tem moral, senso de que estão cometendo assassinatos, remorso e questionamentos a respeito de sua alma e de Deus, por quem se consideram desamparados.

Referências:
BUSE, I. Drácula: um mito sócio-político? In: Revista Tempo Brasileiro. n.180. Rio de Janeiro: 2010.
MELTON, G. J. O livro dos vampiros – A enciclopédia dos mortos vivos. São Paulo: M. Books do Brasil, 2003.
MEYER, S. Crepúsculo. Rio de Janeiro: Intrínseca, 2008.
VIANCO, A. Os sete. Osasco, SP: Novo Século, 2001.


Como afastar um vampiro? - Água corrente


Segundo Melton (2003, p.8) no folclore russo e alemão o corpo de um suposto vampiro deveria ser atirado na água corrente, pois sendo um ser amaldiçoado a terra não o aceitaria e ele seria devolvido retornando à superfície quando enterrado. Na Grécia existe a lenda de uma ilha chamada Therasia, para ela eram banidos os vampiros gregos e nela ficavam aprisionados pela crença que eles não poderiam atravessar água salgada. “Embora uma característica do chiang-shi chinês, problemas com água corrente não estavam nos relatos folclóricos provindos da Europa Oriental, [...]”. (MELTON, 2003, p.8)
Na literatura não existem muitas menções à água corrente, em Drácula (1897), o Dr. Van Helsing cita que o vampiro só pode atravessar a água corrente na maré baixa. Recentemente o problema com a água corrente foi incluído nos livros da série Vampire Diaries de Lisa Jane Smith, publicado em 1991 nos Estados Unidos e no Brasil em 2009. Na sequencia abaixo as personagens do livro fogem de um vampiro atravessando um rio, que se interpõe entre elas e o ser por ter água corrente.
           

“Não parem! Cheguem ao outro lado!”
A ponte rangeu a medida que elas corriam vacilantemente por ela, seus passos ecoando pela água. Quando ela pulou na terra comprimida na margem distante, Elena por fim soltou a manga de Bonnie, e permitiu que suas pernas cambaleassem e parassem. 
Meredith estava curvada, as mãos nos quadris, respirando profundamente. Bonnie estava chorando.
“O que foi isso? Ah, o que foi isso?” ela disse. “Ainda está vindo?”
“Eu pensei que você fosse a expert,” Meredith disse instavelmente. “Pelo amor de Deus, Elena, vamos cair fora daqui.”
“Não, está tudo bem agora,” Elena sussurrou. Havia lágrimas em seus próprios olhos e ela estava tremendo, mas o hálito quente na parte de trás de seu pescoço tinha sumido. O rio se esticava entre ela e aquilo, as águas um tumulto escuro. “Aquilo não pode nos seguir aqui,” ela disse. (SMITH, 2009, p.26)

Referências:           
MELTON, G. J. O livro dos vampiros – A enciclopédia dos mortos vivos. São Paulo: M. Books do Brasil, 2003.
STOKER, B. Drácula. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.
SMITH, L. J. Diários do vampiro: O despertar. Rio de Janeiro: 2009.

Como matar o que já está morto? - Fogo e decapitação

A maneira definitiva de destruir um vampiro é o fogo, há um consenso entre folclore, literatura e aqueles que escrevem sobre o assunto. Antigo companheiro do homem, elemento capaz de produzir o calor e a luz, o fogo também tem seu simbolismo ligado à purificação, O fogo destrói e renova, consome "o velho e o corrupto dando lugar ao novo e puro" (MELTON, 2003, p.317). É uma força da natureza que tanto constrói, quanto destrói.

É necessário que se queime o corpo corrompido para que este seja destruído e através do fogo seja purificado, em alguns casos é necessário primeiro retirar o coração do corpo para que ele seja queimado em separado, caso contrário, o corpo não arderá. No momento em que é jogado às chamas o vampiro não tem mais salvação, seu corpo retorna ao pó, sua eliminação é total, é o recurso final, ao qual se apela quando os outros não funcionam ou como desfecho dos ritos anteriores. “Nenhum vampiro escapará do fogo”, para os romenos o fogo também afasta os vampiros porque eles têm medo da luz. (FLORESCU e MCNALLY, 1995, p.126-127).

A literatura também utiliza o fogo como forma de destruir um vampiro, segundo Melton (2003, p.318) em Varney, The Vampire do inglês James Malcolm Rymer, série de publicações de folhetins seriados que eram uma expressão de cultura de massa na Inglaterra do século XIX, o personagem Varney atira-se em um vulcão para ser consumido pelo fogo. Os vampiros da escritora norte americana Anne Rice, por sua vez, só podem ser destruídos pelo fogo, nada mais os afeta. Em geral, o corpo é cremado após a cabeça ser decapitada, o que também causa o extermínio por ser a cabeça, conforme Melton (2003) a morada da alma. Com a cabeça separada do corpo, usualmente é feita a incineração.

Em dois dos mais famosos casos de vampirismo disseminados por Augustin Calmet, o caso Arnold Paul na Sérvia e o caso Peter Plogowitz na Hungria os pretensos revividos foram retirados de sua sepultura, tiveram o corpo trespassado por uma estaca, a cabeça decapitada e após tudo isto, como garantia da supressão total do mal, foram lançados ao fogo. Segundo Calmet, em 1706 na Hungria,


[...] o pai de um soldado, após morto [foi] visto em sua casa, ao exumar o corpo encontraram-no como um homem que acaba de expirar e o seu sangue como um homem vivo. O Conde de Cabreras mandou cortar-lhe a cabeça em seguida, coloca-lo novamente em seu túmulo. [...] Fez queimar um outro, que estava enterrado há mais de dezesseis anos, e tinha sugado o sangue e causado a morte à dois de seus filhos. (CALMET, 1751, p.37-38)


A Crônica de Guillaume de Newbury, escrito no século XII é o mais antigo relato de eliminação de um vampiro. Ao se espalhar uma peste na cidade, alguns homens decidem que o responsável é um morto, considerado vampiro. Vão até sua sepultura o desenterram, levam para a floresta onde arrancam e despedaçam o coração, cortam a cabeça e queimam os restos. (LECOUTEUX, 2005, p.141-142).

Em Bucovina houve um caso de suspeita de vampirismo em 1920 e a comunidade desenterrou o morto apontado como responsável, abriu seu corpo, arrancou o coração e queimou. O desmembramento e a queima do corpo são comuns nas narrativas. (LECOUTEUX, 2005, p.143).
Em todos os casos registrados no folclore e nas narrativas e tratados são encontrados as formas de eliminar os vampiros, elas são parecidas, mas sempre envolvem um julgamento para definir se há realmente um vampiro e como proceder para que ele seja eliminado. Não há destruição do cadáver sem o consentimento e o conhecimento das autoridades, o que é atestado pelos casos narrados por Augustin Calmet (1751), todos envolvem processos jurídicos, e foi justamente o envolvimento das autoridades que deu legitimidade às narrativas.



Na Alemanha e Europa Oriental os supostos vampiros tinham sua cabeça decapitada e, em alguns casos, enterradas em outro local ou colocada aos pés do corpo com a intenção que o vampiro não pudesse coloca-la de volta. Ela era cortada com uma pá ou espada. (MELTON, 2003, p.214). Independente da forma que seja usada para dar ao vampiro a morte definitiva, os métodos envolvem um contato direto e muito próximo com a criatura, a manipulação de seu corpo e, sobretudo, sangue frio para executa-los. Na falta de qualquer um destes atributos a solução era manter o vampiro afastado, para isto existem várias maneiras relatadas pelo folclore e pela literatura.

FLORESCU, R. e MCNALLY, R. T. Em busca de Drácula e outros vampiros. São Paulo: Mercuryo, 1995.
MELTON, G. J. O livro dos vampiros – A enciclopédia dos mortos vivos. São Paulo: M. Books do Brasil, 2003.
LECOUTEUX, C. História dos vampiros – Autópsia de um mito. São Paulo: Unesp, 2005.
CALMET, A. Traité sur les apparitions des esprits et sur les vampires ou les revenans de Hongrie, Moravie, etc. Paris: 1751.

Como matar o que já está morto? - Exposição ao sol



Outra forma radicada de aniquilar o vampiro é a exposição à luz do sol, absolutamente criada pelo cinema. Conforme Melton (2003, p.514) sua estréia foi no filme Nosferatu de 1922, filme baseado na obra Drácula de Bram Stoker (1897). Exatamente para se diferenciar do livro, a cena final do filme mostra o assustador Conde Orlok (Drácula) virando fumaça ao ficar exposto ao sol nascente. Em nenhum dos livros anteriores ao filme ou no folclore das regiões europeias consta esta forma de extirpação.

No livro de Stoker (1897), que originou a maior parte dos mitos do vampiro moderno, a única menção à luz do sol diz respeito à força do conde, ele diz que durante o dia o vampiro pode circular normalmente, tendo como contratempo apenas a perda temporária de seus poderes sobrenaturais. Para atestar Dom Augustin Calmet (1751, p.61), menciona as notas publicadas nos anos de 1693 e 1694 no Mercure Galant – uma revista francesa fundada no fim do século XVII com publicações semanais cujo objetivo era informar o público dos assuntos mais diversos e publicar poemas ou historietas – que falam de oupires, vampiros ou revividos, que são vistos na Polônia, e, sobretudo na Rússia e aparecem desde o meio-dia até meia-noite vindo sugar o sangue dos homens ou dos animais vivos, desta forma o sol não era necessariamente, um empecilho.



A partir do filme Nosferatu (1922) o sol passa a ser o inimigo dos vampiros no cinema demarcando seu horário de atuação - do anoitecer ao amanhecer - e consagrando-o definitivamente como criatura da noite.

Como matar o que já está morto? - Estacas



Uma das formas mais conhecidas e difundidas pelo cinema, literatura e televisão é a estaca. Aparentemente cravar uma estaca no coração de um vampiro faz com que ele, quase de forma instantânea, vire pó. Entre vários autores que estudam, escrevem e pesquisam sobre o mito dos vampiros o uso e a eficácia da estaca é controversa. Para Melton (2003, p.291), segundo o folclore europeu, as estacas eram usadas para manter o corpo preso ao chão e impedir o vampiro de sair do túmulo, geralmente era cravada no estômago, pois no coração a caixa torácica dificultaria a execução.

Este método era bastante difundido antes do uso dos caixões para o sepultamento. Em alguns casos, conforme Ronecker (2000, p.56-57) podiam ser usadas além da estaca, longas agulhas feitas de ferro que poderiam ser inseridas no crânio como o objetivo de destruir a alma do redivivo. No folclore de algumas regiões da Europa a cabeça era considerada a morada da alma e o coração seu receptáculo, por isto as agulhas no crânio e a estaca no coração. Libertando a alma destruía-se o corpo. Um acréscimo às versões do uso da estaca é feito por Florescu (1995, p.126) que diz que na Romênia esta deveria atravessar o umbigo ou o coração e deveria ser feita de álamo ou oliveira (árvores específicas). Como mencionamos anteriormente a estaca era usada para prender o corpo ao túmulo ou destruí-lo dependendo da região, porém a versão que ganhou o mundo através da literatura (mais tarde do cinema) foi o uso da estaca como forma de matar o vampiro. O padre beneditino Augustin Calmet na obra Traité sur les apparitions des esprits et sur les vampires ou les revenans de Hongrie, Moravie, etc ., que fez uma ampla compilação de casos de vampirismo e do folclore europeu sobre estas criaturas em 1746, conta que,

“[...] um pastor da aldeia de Blow, perto da vila de Kadam na Boemia , que apareceu depois de algum tempo, e que chamava algumas pessoas, que não escapavam à morte em oito dias. Os camponeses de Blow desenterraram o corpo deste pastor, e o fixaram na terra com uma estaca atravessando o corpo. Ele zombou do tratamento que lhe deram e agradeceu por terem lhe dado uma vara para defender-se contra os cães. Na mesma noite ele levantou-se, e assustou com sua presença várias pessoas, e sufocou mais do que havia feito até então. Logo após o nascer do sol, puseram-no sobre um carro para transportá-lo para fora da aldeia e queima-lo.” (CALMET, 1751, p.33-34)


A literatura, através de Sheridan Le Fanu no romance Carmilla publicado em 1872. Atualmente séries televisivas, cinema e literatura se dividem quanto ao uso da estaca como arma letal, alguns usam como meio de paralisar o vampiro, outros como meio de dar fim à sua existência. Em Drácula, publicado em 1897, Bram Stoker descreve a cena em que a personagem Lucy Westenra, após transformar-se em vampira, é destruída por seu noivo com um golpe certeiro que enterra a estaca em seu coração, para logo depois ter sua cabeça cortada, finalizando o processo.

O próprio Conde Drácula é destruído quando uma faca é enterrada em seu coração, mas como é um vampiro muito antigo, Drácula se desfaz no momento em que a faca atinge seu peito. Contudo o escritor brasileiro André Vianco em Os Sete (2001), livro que conta a história de sete vampiros portugueses que são despertados no Brasil, descreve o efeito que as estacas têm sobre os vampiros, narrado por um deles, “Estacas são excelentes para nos fazer parar, para nos imobilizar. Uma estaca no peito nos paralisa completamente, eternamente, desde que não seja removida.” (VIANCO, 2001, p.277).

O mesmo principio é utilizado na minissérie Tempestade de Sangue, publicada no Brasil em 2001. Esta é uma história em quadrinhos da DC Comics onde Batman está caçando Drácula e um grupo de vampiros trazidos à Gotham pelo Coringa. O herói é vampirizado e ao sucumbir à sede de sangue se desespera pedindo que lhe enfiem uma estaca no coração. Ele fica imobilizado, mas a estaca é retirada e ele acorda imediatamente.

Referências:

BEATY, J., JONES, K. e MOENCH, D. Batman: Bruma Escarlate – Parte Um. São Paulo: Mythos, 2001.
CALMET, A. Traité sur les apparitions des esprits et sur les vampires ou les revenans de Hongrie, Moravie, etc. Paris: 1751.

FLORESCU, R. e MCNALLY, R. T. Em busca de Drácula e outros vampiros. São Paulo: Mercuryo, 1995.
LE FANU, S. Carmilla. Rio de Janeiro: Brugrera, 1971.
MELTON, G. J. O livro dos vampiros – A enciclopédia dos mortos vivos. São Paulo: M. Books do Brasil, 2003.
RONECKER, J. P. Vampiros. Lisboa: Hugin, 2000.
STOKER, B. Drácula. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.
VIANCO, A. Os sete. Osasco, SP: Novo Século, 2001.

Como matar o que já está morto?


Como matar um vampiro se ele é imortal? Em teoria, não se pode matá-lo, isto por uma razão óbvia: não há como matar o que já está morto. Contudo ele pode ser destruído. E são as controversas técnicas de destruição de um vampiro; pelo menos as mais conhecidas, pois existem inúmeras formas de destruir ou afastar estes seres; que iremos abordar neste pequeno artigo.

Através dos anos a literatura e o cinema incorporaram o vampiro ao imaginário moderno, o fascínio exercido por eles tem raízes na sua peculiar habilidade de fugir à morte e driblar o tempo, na maior parte dos casos eles mantêm a juventude e a beleza eternizadas. Seres com incrível capacidade de se adaptar às mais diversas épocas, os vampiros fazem com que nosso interesse se mantenha sempre oscilando entre altos e baixos níveis, mas nunca desaparecendo totalmente.

A possibilidade de ter vida, juventude e beleza eternas é tão sedutora quanto assustadora. Algumas das maneiras de repelir ou livrar-se deles fazem parte do folclore popular de tempos antigos, outras tomaram forma mais tarde sendo criadas pela literatura e, mais uma vez, sendo modificadas e reconstruídas pelo cinema. 
Esta será uma postagem sequencial com as principais formas de matar um vampiro.