Como matar o que já está morto? - Estacas



Uma das formas mais conhecidas e difundidas pelo cinema, literatura e televisão é a estaca. Aparentemente cravar uma estaca no coração de um vampiro faz com que ele, quase de forma instantânea, vire pó. Entre vários autores que estudam, escrevem e pesquisam sobre o mito dos vampiros o uso e a eficácia da estaca é controversa. Para Melton (2003, p.291), segundo o folclore europeu, as estacas eram usadas para manter o corpo preso ao chão e impedir o vampiro de sair do túmulo, geralmente era cravada no estômago, pois no coração a caixa torácica dificultaria a execução.

Este método era bastante difundido antes do uso dos caixões para o sepultamento. Em alguns casos, conforme Ronecker (2000, p.56-57) podiam ser usadas além da estaca, longas agulhas feitas de ferro que poderiam ser inseridas no crânio como o objetivo de destruir a alma do redivivo. No folclore de algumas regiões da Europa a cabeça era considerada a morada da alma e o coração seu receptáculo, por isto as agulhas no crânio e a estaca no coração. Libertando a alma destruía-se o corpo. Um acréscimo às versões do uso da estaca é feito por Florescu (1995, p.126) que diz que na Romênia esta deveria atravessar o umbigo ou o coração e deveria ser feita de álamo ou oliveira (árvores específicas). Como mencionamos anteriormente a estaca era usada para prender o corpo ao túmulo ou destruí-lo dependendo da região, porém a versão que ganhou o mundo através da literatura (mais tarde do cinema) foi o uso da estaca como forma de matar o vampiro. O padre beneditino Augustin Calmet na obra Traité sur les apparitions des esprits et sur les vampires ou les revenans de Hongrie, Moravie, etc ., que fez uma ampla compilação de casos de vampirismo e do folclore europeu sobre estas criaturas em 1746, conta que,

“[...] um pastor da aldeia de Blow, perto da vila de Kadam na Boemia , que apareceu depois de algum tempo, e que chamava algumas pessoas, que não escapavam à morte em oito dias. Os camponeses de Blow desenterraram o corpo deste pastor, e o fixaram na terra com uma estaca atravessando o corpo. Ele zombou do tratamento que lhe deram e agradeceu por terem lhe dado uma vara para defender-se contra os cães. Na mesma noite ele levantou-se, e assustou com sua presença várias pessoas, e sufocou mais do que havia feito até então. Logo após o nascer do sol, puseram-no sobre um carro para transportá-lo para fora da aldeia e queima-lo.” (CALMET, 1751, p.33-34)


A literatura, através de Sheridan Le Fanu no romance Carmilla publicado em 1872. Atualmente séries televisivas, cinema e literatura se dividem quanto ao uso da estaca como arma letal, alguns usam como meio de paralisar o vampiro, outros como meio de dar fim à sua existência. Em Drácula, publicado em 1897, Bram Stoker descreve a cena em que a personagem Lucy Westenra, após transformar-se em vampira, é destruída por seu noivo com um golpe certeiro que enterra a estaca em seu coração, para logo depois ter sua cabeça cortada, finalizando o processo.

O próprio Conde Drácula é destruído quando uma faca é enterrada em seu coração, mas como é um vampiro muito antigo, Drácula se desfaz no momento em que a faca atinge seu peito. Contudo o escritor brasileiro André Vianco em Os Sete (2001), livro que conta a história de sete vampiros portugueses que são despertados no Brasil, descreve o efeito que as estacas têm sobre os vampiros, narrado por um deles, “Estacas são excelentes para nos fazer parar, para nos imobilizar. Uma estaca no peito nos paralisa completamente, eternamente, desde que não seja removida.” (VIANCO, 2001, p.277).

O mesmo principio é utilizado na minissérie Tempestade de Sangue, publicada no Brasil em 2001. Esta é uma história em quadrinhos da DC Comics onde Batman está caçando Drácula e um grupo de vampiros trazidos à Gotham pelo Coringa. O herói é vampirizado e ao sucumbir à sede de sangue se desespera pedindo que lhe enfiem uma estaca no coração. Ele fica imobilizado, mas a estaca é retirada e ele acorda imediatamente.

Referências:

BEATY, J., JONES, K. e MOENCH, D. Batman: Bruma Escarlate – Parte Um. São Paulo: Mythos, 2001.
CALMET, A. Traité sur les apparitions des esprits et sur les vampires ou les revenans de Hongrie, Moravie, etc. Paris: 1751.

FLORESCU, R. e MCNALLY, R. T. Em busca de Drácula e outros vampiros. São Paulo: Mercuryo, 1995.
LE FANU, S. Carmilla. Rio de Janeiro: Brugrera, 1971.
MELTON, G. J. O livro dos vampiros – A enciclopédia dos mortos vivos. São Paulo: M. Books do Brasil, 2003.
RONECKER, J. P. Vampiros. Lisboa: Hugin, 2000.
STOKER, B. Drácula. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002.
VIANCO, A. Os sete. Osasco, SP: Novo Século, 2001.

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