Como matar o que já está morto? - Fogo e decapitação

A maneira definitiva de destruir um vampiro é o fogo, há um consenso entre folclore, literatura e aqueles que escrevem sobre o assunto. Antigo companheiro do homem, elemento capaz de produzir o calor e a luz, o fogo também tem seu simbolismo ligado à purificação, O fogo destrói e renova, consome "o velho e o corrupto dando lugar ao novo e puro" (MELTON, 2003, p.317). É uma força da natureza que tanto constrói, quanto destrói.

É necessário que se queime o corpo corrompido para que este seja destruído e através do fogo seja purificado, em alguns casos é necessário primeiro retirar o coração do corpo para que ele seja queimado em separado, caso contrário, o corpo não arderá. No momento em que é jogado às chamas o vampiro não tem mais salvação, seu corpo retorna ao pó, sua eliminação é total, é o recurso final, ao qual se apela quando os outros não funcionam ou como desfecho dos ritos anteriores. “Nenhum vampiro escapará do fogo”, para os romenos o fogo também afasta os vampiros porque eles têm medo da luz. (FLORESCU e MCNALLY, 1995, p.126-127).

A literatura também utiliza o fogo como forma de destruir um vampiro, segundo Melton (2003, p.318) em Varney, The Vampire do inglês James Malcolm Rymer, série de publicações de folhetins seriados que eram uma expressão de cultura de massa na Inglaterra do século XIX, o personagem Varney atira-se em um vulcão para ser consumido pelo fogo. Os vampiros da escritora norte americana Anne Rice, por sua vez, só podem ser destruídos pelo fogo, nada mais os afeta. Em geral, o corpo é cremado após a cabeça ser decapitada, o que também causa o extermínio por ser a cabeça, conforme Melton (2003) a morada da alma. Com a cabeça separada do corpo, usualmente é feita a incineração.

Em dois dos mais famosos casos de vampirismo disseminados por Augustin Calmet, o caso Arnold Paul na Sérvia e o caso Peter Plogowitz na Hungria os pretensos revividos foram retirados de sua sepultura, tiveram o corpo trespassado por uma estaca, a cabeça decapitada e após tudo isto, como garantia da supressão total do mal, foram lançados ao fogo. Segundo Calmet, em 1706 na Hungria,


[...] o pai de um soldado, após morto [foi] visto em sua casa, ao exumar o corpo encontraram-no como um homem que acaba de expirar e o seu sangue como um homem vivo. O Conde de Cabreras mandou cortar-lhe a cabeça em seguida, coloca-lo novamente em seu túmulo. [...] Fez queimar um outro, que estava enterrado há mais de dezesseis anos, e tinha sugado o sangue e causado a morte à dois de seus filhos. (CALMET, 1751, p.37-38)


A Crônica de Guillaume de Newbury, escrito no século XII é o mais antigo relato de eliminação de um vampiro. Ao se espalhar uma peste na cidade, alguns homens decidem que o responsável é um morto, considerado vampiro. Vão até sua sepultura o desenterram, levam para a floresta onde arrancam e despedaçam o coração, cortam a cabeça e queimam os restos. (LECOUTEUX, 2005, p.141-142).

Em Bucovina houve um caso de suspeita de vampirismo em 1920 e a comunidade desenterrou o morto apontado como responsável, abriu seu corpo, arrancou o coração e queimou. O desmembramento e a queima do corpo são comuns nas narrativas. (LECOUTEUX, 2005, p.143).
Em todos os casos registrados no folclore e nas narrativas e tratados são encontrados as formas de eliminar os vampiros, elas são parecidas, mas sempre envolvem um julgamento para definir se há realmente um vampiro e como proceder para que ele seja eliminado. Não há destruição do cadáver sem o consentimento e o conhecimento das autoridades, o que é atestado pelos casos narrados por Augustin Calmet (1751), todos envolvem processos jurídicos, e foi justamente o envolvimento das autoridades que deu legitimidade às narrativas.



Na Alemanha e Europa Oriental os supostos vampiros tinham sua cabeça decapitada e, em alguns casos, enterradas em outro local ou colocada aos pés do corpo com a intenção que o vampiro não pudesse coloca-la de volta. Ela era cortada com uma pá ou espada. (MELTON, 2003, p.214). Independente da forma que seja usada para dar ao vampiro a morte definitiva, os métodos envolvem um contato direto e muito próximo com a criatura, a manipulação de seu corpo e, sobretudo, sangue frio para executa-los. Na falta de qualquer um destes atributos a solução era manter o vampiro afastado, para isto existem várias maneiras relatadas pelo folclore e pela literatura.

FLORESCU, R. e MCNALLY, R. T. Em busca de Drácula e outros vampiros. São Paulo: Mercuryo, 1995.
MELTON, G. J. O livro dos vampiros – A enciclopédia dos mortos vivos. São Paulo: M. Books do Brasil, 2003.
LECOUTEUX, C. História dos vampiros – Autópsia de um mito. São Paulo: Unesp, 2005.
CALMET, A. Traité sur les apparitions des esprits et sur les vampires ou les revenans de Hongrie, Moravie, etc. Paris: 1751.

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