Os vampiros no imaginário (parte de minha monografia)

Para compreendermos os vampiros é necessário entender primeiramente, mesmo que de forma superficial, a visão da morte e dos mortos e suas transformações ao longo do tempo, visto que a crença dos mortos que voltam para assombrar os vivos é tão antiga quanto à própria humanidade, sempre esteve e ainda se mantém dentro do imaginário humano. Ela tem fundamento em nosso medo da morte, do desconhecido, na questão para a qual buscamos inúteis respostas: o que acontece após a morte?

As civilizações da antiguidade clássica acreditavam na sobrevivência da alma após a morte, mas não na separação da alma e do corpo; e em sua concepção, corpo e alma permaneciam juntos e convivendo na terra junto com os seus. “Nascida junto com o corpo não seria dele [a alma] separada pela morte, alma e corpo seriam encerrados juntos no mesmo túmulo.” (COULANGES, 2007, p. 14). Sendo assim, eram deixados alimentos e bebidas para o morto, para que este pudesse comer e beber após sua morte, pois se acreditava que ele continuava vivendo, através de sua alma, debaixo da terra em sua sepultura. Isto explica o sepultamento, sua necessidade veio da crença que as almas precisavam de um lugar para morar, onde descansar e receber as oferendas dos vivos, as almas sem sepultura seriam errantes e se tornariam fantasmas que assombrariam os vivos lembrando-os de sua condição.

Desgraçada, logo essa alma se tornaria perversa. Atormentaria os vivos, provocando-lhes doenças, devastando-lhes os campos, atormentando-os com aparições lúgubres, para alertá-los de que tanto o seu corpo como ela própria queriam sepultura. (COULANGES, 2007, p. 16)

Não se temia a morte, mas sim a privação da sepultura ou dos ritos funerários adequados para passar a eternidade tranquilamente. Esta crença era difundida a todos, na Grécia e Roma antigas os relatos de fantasmas são abundantes. (SCHMITT, 1999, p. 28). Além disto, existia também a noção que o homem tinha que viver sua vida no tempo correto, sem abreviá-la, quando isto acontecia havia “conseqüências nefastas e perigosas para todos” (LECOUTEUX, 2005, p. 28).

Isto se aplicava a todos os mortos prematuros: recém-nascidos, mães mortas no parto, suicidas; incluindo nestes, feiticeiros, pessoas que de alguma forma inquietavam a comunidade, os que tinham motivo para vingança, os que não eram sepultados nos locais que determinaram e os que não eram sepultados; todos que podiam tornar-se fantasmas e voltar para assombrar os vivos, eram os recusados no além e ficavam presos sem poder fazer o trespasse. Da mesma forma se não fossem cumpridos os ritos de passagem corretamente o morto também não descansaria. Todos tinham que viver dentro da normalidade e dos códigos morais e se desprender de todos os elos que os ligavam aos vivos no momento da morte para poderem descansar em paz. (LECOUTEUX, 2005, p. 40-51)

Nos séculos V e VI os cemitérios eram como no tempo dos romanos, afastados das cidades com a intenção de manter o mundo dos vivos e o mundo dos mortos separados. A morte era pessoal e individual, os ritos funerários eram obrigação da família, o cuidado para que os mortos não fossem perturbados e tratados de forma correta para não retornarem e atormentar os vivos também.
Por volta do século VII com o cristianismo, a igreja passou a trazer os mortos para serem enterrados dentro de seu edifício, assim aproximando os vivos e mortos e apaziguando o medo.

Assim a morte se tornava pública. Os fiéis rezavam com os pés sobre seus próximos. O mundo dos vivos e o mundo dos mortos formavam apenas um, separados somente pela fronteira simbólica do piso, num mesmo espaço sagrado. [...] A morte foi integrada à humanidade. (ROUCHE, 1989, p. 492-493)

A forma tradicional de encarar a morte e de tratar os mortos conviveu durante muito tempo com as práticas cristãs. As famílias eram responsáveis por seus mortos, por prepará-los para a passagem quando da morte. Ainda havia “a crença que os mortos podiam retornar para juntos dos vivos e atormentá-los, principalmente quando o trespasse ou a conduta de seus parentes não os satisfaziam.” (LAWERS, 2006, p. 247)

A igreja via os relatos de fantasmas como manifestações do demônio, mas as crenças nos fantasmas não desapareceram do Ocidente, principalmente entre os povos eslavos e germânicos que acreditavam que os criminosos poderiam retornar, tendo assim práticas para enfrentá-los. Cadáveres, no direito germânico, podiam agir juridicamente, podiam ser condenados e objeto de uma execução póstuma, portanto, “se os mortos eram julgados e executados, como não acreditar em seu temível poder?” (DELUMEAU, 1989, p. 85)

Para Vovelle (2004, p.126), os mortos vivem entre os vivos, às vezes velando por eles, às vezes hostis, e é preciso se livrar de sua presença indesejada.

Segundo Lecouteux (2005, p. 40-51), uma das crenças era que os mortos impuros – os feiticeiros, os mortos prematuros e também, a partir da Idade Média, os excomungados – não eram aceitos pela terra, portanto não se decompunham até que tivessem seus pecados ou maldades exorcizados, eles eram decapitados, amarrados, tinham uma estaca enfiada em seu coração para garantir que não retornassem e assombrassem os vivos.

Conforme Schmitt (2006, p. 253-260), a concepção da antiguidade clássica em que o corpo e a alma eram inseparáveis modificou-se com o cristianismo, para os cristãos corpo e alma são duas coisas separadas. Com a morte o corpo volta ao pó e a alma vai para o purgatório, geralmente aguardar seu julgamento final para os bons terem os corpos ressuscitados como Cristo, e ascenderem ao Paraíso. Devido a isto as normas da Igreja combatiam a destruição do corpo que seria ressuscitado no Juízo Final.

A igreja passou a tomar para si o cuidado com os mortos, transformando um acontecimento visto como privado, particular da família num acontecimento público, em geral com a intenção de lutar contra o medo da morte e as crenças em aparições. Assim, “contra a angústia da morte, deslocou os defuntos para colocá-los à vista de todos, ao redor dos vivos.” (ROUCHE, 1989, p. 529). Mesmo com esta domesticação dos mortos pelo cristianismo e a difusão da crença pelos clérigos que somente os santos reapareciam com o propósito de mandar mensagens sobre a salvação das almas e exemplos para ter o descanso no além, ainda assim, as crenças nos mortos maléficos permaneceram, de acordo com Schmitt (2006, p. 47). São mortos que

[...] não são almas penadas que voltam para mendigar humildemente os sufrágios dos vivos, mas mortos maléficos, próximos daqueles descritos pelas sagas escandinavas;[...] aterrorizam seus parentes e toda a vizinhança, fazem os cães uivar à noite, são acusados de corromper o ar, de provocar epidemias e mesmo de beber o sangue dos homens. Dois deles são explicitamente qualificados de vampiro (sanguisuga) e, quando sua sepultura é aberta, é encontrada maculada de sangue e o cadáver todo inchado, o rosto rubicundo, a mortalha rasgada. [...] Em todos os casos, a solução finalmente proposta pelos clérigos consiste em abrir a sepultura e em depositar uma fórmula escrita de absolvição sobre o peito do morto. Inversamente, os clérigos consideram "indecente e indigno" o método que os habitantes, e sobretudo os "jovens" que vencem seu terror, empregam: alguns deles (até dez) dirigem-se ao cemitério, desenterram o cadáver, fazem-no em pedaços e queimam tudo em uma fogueira fora da aldeia. Antes, um deles retirou o coração, pois sua presença impediria o cadáver de queimar. (SCHMITT, 2006, p. 101)

Segundo Lecouteux (2005, p. 41-60), na Europa no século XVII e até hoje no país de Gales, persiste a crença que as almas dos mortos continuam vivendo embaixo da terra em sua sepultura. Na Polônia, na Romênia, na Europa Oriental em sua maioria, havia a crença que os mortos voltavam para comer e beber em sua casa, para se aquecer no fogo da lareira que era deixada acesa para este fim. Os mortos viviam em meio aos vivos e a morte era um sono do qual não deviam ser perturbados, quando o eram retornavam e atormentavam os vivos. (ARIES, 2000, p.362). A igreja medieval tentou incorporar estas crenças dizendo que as aparições das lendas populares eram demônios que se apossavam do corpo dos mortos com o único fim de aterrorizar os vivos.

Toda esta crença conservava os mortos no cotidiano, imaginava sua vida no além sendo uma réplica da vida dos vivos conseqüentemente,

[...] os defuntos têm muitas atividades dos vivos; eles assistem a serviços religiosos rezados por padres falecidos, dançam nos cemitérios, continuam a amar seus parentes e odiar seus inimigos, defendem seus bens e estrangulam os profanadores de sepulcro ou lhes furam os olhos, eles vão e vêm, dão notícias de si por intermediários especializados – feiticeiros locais ou de fora -, e até retomam sua atividade profissional, [...] (LECOUTEUX, 2005, p. 57)

Em todas estas crenças o morto maléfico por excelência é o vampiro – ser que pertence aos dois mundos e mantém seu corpo para transitar entre eles – existindo em numerosas formas, podendo ser tanto um morto ressuscitado como espíritos desencarnados, fantasmas, demônios, que é o caso dos vampiros gregos, entretanto todos têm um traço em comum: sua sede de sangue tanto de humanos quanto de animais para prolongar sua existência que desafia a morte e o tempo. 

Referências:
COULANGES, F. A cidade antiga. São Paulo: Martin Claret, 2007.
DELUMEAU, J. História do medo no Ocidente: 1300-1800, uma cidade sitiada. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
LAUWERS, M. Morte e mortos. In: LE GOFF, J. e SCHMITT, J. (org.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval – Volume II. São Paulo: Edusc, 2006.
LECOUTEUX, C. História dos vampiros – Autópsia de um mito. São Paulo: Unesp, 2005.
ROUCHE, M. Alta Idade Média ocidental. In: VEYNE, P. (org.) A história da vida privada: Do Império Romano ao ano 1000 – Volume I. São Paulo: Companhia das Letras: 1989.
SCHMITT, J. Os vivos e os mortos na sociedade medieval. São Paulo: Companhia das Letras, 1999.
SCHMITT, J. Corpo e alma. In: LE GOFF, J. e SCHMITT, J. (org.). Dicionário Temático do Ocidente Medieval – Volume I. São Paulo, Edusc, 2006.
VIEIRA, Mayte. Sombras e sangue: Dom Calmet e as investigações sobre casos de vampirismo na Europa Iluminista. União da Vitória: FAFIUV, Paraná, 2009. (Monografia de História)
VOVELLE, M. Ideologia e mentalidades. São Paulo: Brasiliense, 2004.

4 comentários:

  1. Ola, meu nome é Juliana e sou aluna da Uerj de Letras Port/Ing. Meu professor de projeto de monografia passou uma tarefa valendo nota a qual devemos analisar uma monografia, uma dissertação e uma tese a fim de que possamos compreender melhor a estrutura desses trabalhos acadêmicos.
    Minha monografia será sobre vampirismo e procurando no google achei essa parte da sua que me interessou muito.
    Gostaria de saber se poderia me enviar por email para que eu possa analisa-la em meu trabalho, já que tem tudo a ver com a minha proposta.
    Meu email eh: ju.uerj@gmail.com. Por lá poderemos nos falar melhor.
    Desculpe por qualquer transtorno.
    Agradeço a compreensão.
    Juliana.

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  2. Olá, meu nome é Vivian e estou começando meu Tcc e vou trabalhar esse tema e gostaria de usar seu Tcc como fonte de pesquisa. Vc poderia enviar para o meu E-mail tb? Agradeço desde já, adooooorei essa parte do seu trabalho!
    vivianrodrigues7@hotmail.com

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  3. Ameiii esse seu blog amooo historias de vampiros e volta e meia estou xeretando os sites de vampiros e achei o seuu amei...estou pesquizando pois estou fazendo uma historia de vampiro bruxas e lobos! Vlww

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  4. Cara Maytê. Por favor encaminhe seu trabalho na integra para poder fazer referência ás suas citações e dar os devidos créditos no eu trabalho de pesquisa. meu e-mail: ravelimex@hotmail.com

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