Um caso de vampirismo na Europa do século XVIII - O caso Arnold Paul

Em 3 de março de 1732 a revista Le Glaneur Hollandais, revista que circulava na corte de Versalhes,  publicou em detalhes um caso que daria início, na França, à discussão sobre a existência ou não dos vampiros. A publicação também passou a usar o nome vampiro – em francês vampire, até então era grafado vampyre – pela primeira vez. A história de Arnold Paul teve repercussão imediata em toda a Europa. A investigação do caso foi comandada “pelo médico militar Flückinger e endossado por vários oficiais da companhia do arquiduque, o documento final foi apresentado ao conselho de guerra de Belgrado.” (DEL PRIORE, 2000, p. 108). O relatório intitulado Visum e repertum ( LECOUTEUX, 2005, p.180-184), informava sobre a abertura dos túmulos, exumação dos corpos e condições em que foram encontrados, 

Uma vez assinalado que, na aldeia de Medvegia ( norte de Belgrado, numa área da Sérvia então pertencente ao Império Austríaco), os chamados vampiros tinham matado algumas pessoas sugando seu sangue, o muito honrado Alto Comando ordenou-me examinar a questão a fundo. Parti com dois oficiais e dois cirurgiões e realizei esse inquérito em presença do capitão Gorschitz, da companhia dos heiduques de Stallhaltar, do Hadnagi Bariactar e dos anciões da aldeia. Ouvi o que diziam.
            De suas declarações unânimes, destacou-se que um heiduque do lugar, chamado Arnold Paole, quebrara o pescoço ao cair de uma carroça de feno havia mais ou menos cinco anos. Quando era vivo, ele dizia freqüentemente que um vampiro o tinha perseguido perto de Gossowa, na Sérvia turca, que tinha, então, engolido terra do tumulo do referido vampiro e se untado com seu sangue, para livrar-se desse flagelo. No vigésimo ou trigésimo dia depois de sua morte, várias pessoas se queixaram de ter sido atormentadas por Arnold Paole. Seja como for, quatro indivíduos morreram por sua causa. Para acabar com esse flagelo, a conselho do Hadnagi, que já tinha assistido a acontecimento semelhante, exumaram Arnold Paole quarenta dias após seu falecimento; descobriram que ele estava em perfeito estado e não decomposto. Sangue fresco escorreu de seus olhos, nariz, boca e orelha; sua camisa, mortalha e caixão estavam todos ensangüentados. As unhas das mãos e dos pés tinham caído com a pele, e outras tinham crescido, daí deduziram que se tratava de um verdadeiro vampiro. Conforme o costume, atravessaram-lhe o coração com uma estaca; então, ele emitiu um suspiro bem perceptível e sangrou. Depois disso incineraram o corpo no mesmo dia e jogaram suas cinzas no túmulo.
            As referidas pessoas acrescentaram que todos aqueles que o vampiro perseguiu e matou devem tornar-se, por sua vez, vampiros. Então, exumaram e trataram da mesma forma as quatro pessoas evocadas. Afirmam, ainda, que Arnold Paole não atacou apensas as pessoas, mas também os animais do quais sugou o sangue. Como as pessoas comeram a carne esse animais, resulta mais uma vez que alguns vampiros estão aqui, razão pela qual dezessete pessoas, entres jovens e velhos, sucumbiram em três meses, algumas das quais em dois ou três dias no Maximo, sem terem estado doentes.
            O heiduque Jowiza declara que sua nora, chamada Stanacka, deitou-se saudável e disposta há quinze dias, mas por volta de meia-noite, acordou gritando horrivelmente e tremendo de medo, queixando-se de que Milloe, o filho de um heiduque, morto nove semanas antes, a tinha estrangulado, depois do que ela sentiu uma grande dor no peito; ela definhou de hora em hora até falecer no terceiro dia.
            Em seguida, em companhia dos anciãos da aldeia heiduque, dirigimo-nos todos ao cemitério à tarde para mandar abrir os túmulos suspeitos e examinar os corpos que aí se encontravam. Exumamos:
1. Uma mulher chamada Militza, de 60 anos de idade, morta de doença ao fim de três meses e enterrada havia dez dias. Muito sangue líquido se encontrava em seu peito; as vísceras estavam em bom estado, como na pessoa examinada anteriormente. Por ocasião da autópsia, todos os heiduques presentes se admiraram muito de ver o corpo gordo, declarando todos que conheceram aquela mulher desde a juventude e que, quando viva, tinha sido magra e seca, daí a estupefação de constatar que ela havia engordado no tumulo. Segundo suas declarações, ela era a causa dos vampiros atuais. Por acaso não tinha ela devorado a carne dos carneiros que os vampiros precedentes haviam matado?
2. Um menino de oito dias enterrado noventa dias antes. Ele possuía todas as características de um vampiro.
3. O filho do heiduque, de 16 anos de idade, enterrado havia nove semanas depois de morrer de doença ao fim de três dias. Foi encontrado no mesmo estado que os outros vampiros.
4. Joachim, também filho de um heiduque, com a idade de 17 anos, que sucumbiu a uma doença de três dias. Foi exumado depois de repousar na terra por oito semanas e quatro dias e a autópsia revelou que ele também era um vampiro.
5. Uma mulher de nome Ruscha, falecida de doença ao fim de dez dias e enterrada havia seis semanas. Muito sangue fresco se achava não só no seu peito, mas também no fundo dos ventrículos; constatou-se situação idêntica com seu filho de dezoito dias e morto havia cinco semanas.
6. Ocorreu algo semelhante a uma menina de 10 anos morta havia dois meses, ela estava em estado idêntico, inteira, não putrefata, com muito sangue no peito.
7. Fizemos exumar a esposa do Hagnagi e seu filho de oito semanas. Ela estava morta havia sete semanas e ele, 21 dias. Ambos estavam completamente decompostos, embora tendo repousado na mesma terra e nos mesmos túmulos que os vampiros mais próximos.
8. Um criado do cabo do heiduque local, chamado Rhode, de 23 anos de idade, que sucumbira pela doença em três meses. Exumado cinco semanas mais tarde, encontrava-se perfeitamente decomposto.
9. A mulher de Bariactar e seu filho, mortos seis semanas antes: ambos estavam perfeitamente decompostos.
10. Em Stanache, um heiduque de 60 anos, morto seis semanas antes, encontrei, como nos outros muito sangue no peito e no estômago. Todo o corpo estava no mesmo estado que os dos vampiros evocados.
11. Millo(v)e, um heiduque de 25 anos havia repousado na terra havia seis semanas, também apresentava as características de um vampiro.
12. Uma mulher chamada Stana (ou Stanoicka), de 20 anos morta havia dois meses após uma doença de três dias por causa de um parto. Antes de morrer, ela declarou ter-se untado com o sangue de um vampiro, depois do que ela e seu filho, morto pouco depois do nascimento e metade devorado pelos cães em razão de uma inumação superficial, deveriam transforma-se em vampiros. O corpo estava intacto e inteiro. Na autopsia, foi encontrada certa quantidade de sangue extravasado no peito; os vasos artérias e veias, assim com os ventrículos do coração não estavam, como de habito, repletos de sangue coagulado. Todas as vísceras – pulmões, fígado, estômago, baço e intestinos – estavam ainda frescas, como num homem sadio; o útero, entretanto, estava muito dilatado e inflamado exteriormente, porque a placenta e os lóquios tinham permanecido aí e se encontravam, então, em plena decomposição. As peles das mãos e pés, inclusive as unhas velhas, destacavam por si sós, mas uma nova pele fresca e novas unhas eram visíveis.
Acabado o exame, alguns ciganos presentes cortaram a cabeça dos vampiros e as queimaram assim como os corpos, e depois jogaram as cinzas no rio Morava; recolocaram os corpos putrefatos nos seus túmulos. Tal fato atesto com o cirurgião-adjunto que me assistiu. Actum ut supra.
Johannes Fluchinger, cirurgião-mor do honorável Regimento de Infantaria de Fürstenbuschl.
Nós, abaixo assinados, atestamos pela presente declaração que tudo o que o cirurgião do honorável Regimento de Infantaria de Fürstenbuschl, assim como seus dois assistentes co-signátarios, constataram anteriormente a propósito dos vampiros, corresponde à realidade em todos os pontos, e que eles, em nossa presença, investigaram e examinaram. Para confirmar, assinamos de próprio punho.

Belgrado, 26 de janeiro de 1732,
Büttener, primeiro-tenente do honorável Regimento de Alexandre (de Wutemberg).
J. H. de Lidenfels, porta-bandeira do honorável Regimento de Alexandre (de Wutemberg).
 
A questão de ter sido uma investigação conduzida por oficiais militares com consentimento do Conselho de Guerra de Viena gerou todo um debate a respeito da veracidade dos fatos. Este controverso relatório circulou em toda a Europa no ano de 1732 dando início às histórias e discussões sobre vampiros e virou best-seller. Todos queriam ler para tomar conhecimento dos estranhos casos que estavam ocorrendo no Leste Europeu. Afinal não se tratava de uma história contada por alguém de forma duvidosa em um dos inúmeros manuais e roteiros de viagens que circulavam na época, mas sim de uma história atestada por documentos oficiais. Desta forma causou sensação na França Iluminista sendo discutida por homens como Voltaire e Jean-Jacques Rousseau. Voltaire, inclusive, criou um verbete em seu Dicionário Filosófico intituladoVampiro.
Podemos observar que, levando em consideração a ciência da época, os casos são surpreendentes. Como pessoas enterradas há tanto tempo ainda conservam as características de um morto recente? E como algumas com menos tempo estão decompostas? Ao nos fazermos estas perguntas podemos entender o motivo de tanto alarde e assombramento com o relatório. A falta de conhecimento sobre os processos de decomposição e a necessidade de achar um culpado para as mortes súbitas e em escala, geraram a crença que estas pessoas eram vampiros.

Referências:
DEL PRIORE, M. Esquecidos por Deus: monstros no mundo europeu e ibero-americano, uma história dos monstros do Velho e do Novo mundo (séculos XVI-XVIII).  São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
LECOUTEUX, C. História dos vampiros – Autópsia de um mito. São Paulo: Unesp, 2005.

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