Estela chinesa invocando um vampiro




Victor Segalen, um artista, poeta e arqueologo (também médico) francês viajou pela China no início do  século 20, e escreveu o livro Estelas e Terra Amarela copiando e traduzindo estelas que encontrou pelo caminho na China. 
As estelas são pedras votivas, que se diferenciam das lápides por estarem posicionadas em caminhos, estradas, grutas, ou um local definido, pois elas portam leis ou éditos imperiais, poemas, dedicatórias, etc.
O próprio Segalen não as data, e talvez seja impossível mesmo fazê-lo, já que como elas não estão em tumbas, muitas não portam a data em que foram feitas, isso pode significar que elas foram talhadas entre o século 3 a.C. (quando começa a moda entre os Han) até o século 20, cerca de 1911.
Segalen encontrou uma estela dedicada a um vampiro. Explica-se: o amigo (ou amante) enterrou o parceiro morto, mas dedica-lhe uma estela invocando-o: se ele quiser, pode voltar do mundo dos mortos e sugá-lo, para que ambos continuem a amizade.
Segue, pois a transcrição da estela:


"Amigo, amigo, deitei o teu corpo num caixão de belo verniz vermelho que bom dinheiro me custou 
Guie tua alma, com o seu nome familiar, nesta tabuinha que rodeio de cuidados 
Mas não mais de ti devo ocupar-me: tratar o que vive como um morto, que falta de humanidade!
Tratar o que está morto como vivo, que ausência de discrição! Que risco de se enganar!

Amigo, amigo, apesar dos princípios, não posso te abandonar 
Formarei pois um ser equívoco, nem gênio, nem morto, nem vivo. 
Me escuta:
Se te agrada sorver ainda a vida de gosto açucarado, com agras especiarias
Se te agrada bater as pálpebras, encher de ar o teu peito e estremecer sob tua pele, escuta:
Torna-te meu vampiro, meu amigo, e todas as noites, sem tumulto nem pressa, sorve a bebida quente do meu coração."
 
Referências:
Texto do sinólogo, prof. Dr. André da Silva Bueno. (Autor do Projeto Orientalismo. Quem se interessar em conhecer mais das civilizações asiáticas, acesso o site: http://orientalismo.blogspot.com/ - o link Orientalismo está ao lado).
SEGALEN, V. Estelas e Terra Amarela. Lisboa: Cotovia - Fundação Oriente, 1996, pág 63-64.
A imagem das estelas é meramente figurativa, para que se possa visualizar o que é uma estela.

A noiva de Corinto - Johann Wolfgang von Goethe

De Atenas provindo, a Corinto
Chega um jovem que desconheciam,
Como hóspede em domo distinto. 
Os dois pais sempre se recebiam, 
Ambos desde cedo
O moço e a moça
Noivo e noiva já se prometiam.

Mas será ele também lá bem-vindo,
Se boas graças nunca conquistou?
Com seus gentios é pagão ainda, 
E o da casa em Cristo batizou.
Nova fé que fulge
Contra amor insurge
Qual erva daninha logo se arrancou.

A casa inteira repousa, é tarde, 
Pai, filha, só a dona domina;
Que recebe o moço com boa vontade,
Logo o melhor quarto ela lhe destina.
Uma ceia ostenta, 
Bem alojá-lo tenta:
Depois diz boa noite, sai em surdina.

Entretanto o apetite é perdido,
Farta refeição posta, a despeito;
Extenuado, dos comes abstido,
Mesmo vestido se faz ao leito;
Quase ele cochila, 
Mas a porta estila
Esgueira-se ao quarto um afeito.

Ao clarão da luz, vê se insinuar
Pelo quarto, moça virginal
Brancos véus a acobertar, 
Cingindo a fonte preto-ouro xal.
Tão logo o vislumbra
No canto à penumbra, 
Espanta, mão alva eleva ao alto.

"Sou por acaso estranha", diz ela,
"Que do hóspede nem tenho notícia?
Ah, assim mantém-me eles na cela!
Por isso cometo a incoveniência.
Prossiga dormindo
Me esquivo, vou indo,
Saio com vim, peço licença."

"Fique, jovem!" - grita o rapaz
Veloz num só pulo de seu tálamo:
"De Ceres e Baco, as oferendas
Tens. E agora o amor traz teu âmago.
O susto de descora
Vem, não vá embora,
Deleitemos dos deuses o júbilo!"

"Fique longe, mancebo! Parado!
Não me é permitida a ventura. 
Fatal passo, ah! Já foi dado.
Boa mãe doente em insânia pura
Caso convalesça
A promessa faz:
Que consagra filha aos céus em jura."

De deuses antigos o cortejo
Proscrito, a casa silencia logo.
Invisível um uno em adejo, 
O salvador na cruz está morto.
E o imoleiro, 
Não rêz ou cordeiro,
Mas, seres humanos tem sacrificado.

Ele indaga as palavras pesando, 
Que jamais com o espírito desavêm:
É possível ter num ermo aposento
Minha noiva em pessoa ante mim?
"Seja minha, criança"
Os pais com a fiança
As bençãos celestes nos concedem."

"Coração, não é a ti que destino!
É a mana que te hão de atribuir.
Enquanto na cela nefasta amofino, 
Lembre de mim um dia no porvir, 
Que só penso em ti
Pelo amor sofri
E a terra em breve há de cobrir."

"Não! Eu juro, com a mão sobre o fogo
Vontade paterna compartilhar;
Nem perdida ou desdita, te rogo,
Vem para casa comigo viajar.
Fique! Eu te peço!
Um sonho confesso
Nossas núpcias em festim celebrar!"

E trocam eles prendas de amor:
Ela dá-lhe um dourado adereço,
Por sua vez, faixa de prata cor;
Presenteia-lhe em terno apreço.
"Não é meu o xale!
Mas muito me vale!
Dê-me uma mecha de teu cabelo."

Dos fantasmas soa a fúnebre hora, 
Só agora ela torna-se langue.
Ávida sobre a pálida boca
Sôfrega o vinho tinto qual sangue:
Mas de trigo o pão, 
Que o gentil em vão, 
Lhe oferece, ela sequer o tange.

Estende ela o cálice ao moço, 
Que ardente o esvazia num gole, 
E suplica a cear licencioso;
Amor, que seu coração console.
Mas ela resiste, 
Ao que insiste, 
Até que na cama em pranto implore.

Aproxima-se ela, ajoelha:
"Desatino é ver teu sofrer!
Satisfaça-te e toque-me e olhe
Esses membros que estou a esconder.
Clara como a neve;
Mas fria como deve
A amada que vens de eleger."

Ardente a cerra, abraço viril, 
Intenso a estreita, a inunda:
"Eu desejo aquece-la do frio, 
Mesmo que tu me venhas da tumba!
Um beijo fervente!
Anseio eloquente!
Não te queima uma paixão profunda?"

E selando em êxtase o amor, 
Lágrimas ao desejo se mesclam;
Suga-lhe ela à boca o calor;
Presos um ao outro se infundem.
Seu ardor feroz
Anima-a voraz;
Não lhe pulsa o coração, porém!

Nisso a mãe pela casa vagueia
Sempre alerta, tão tarde em ofício,
Detém-se escutando à soleira,
Um singular gemido e bulício.
Em pleno alvoroço
A moça e o moço
Indícios de amor em balbucio.

Ela imóvel detém-se ao umbral, 
Suspeita mas reluta uma vez, 
Cisma e apura paixão cabal, 
Que evoca a sanha cupidez - 
"O galo canta, amada! - 
Mas noutra madrugada..."
Beijos, beijos. "Tu vens, talvez?"

Não contém a raiva em delonga, 
A porta ela abre de chofre:
"Há cá nesta casa songa-monga,
Que ao forasteiro se oferece?"
Entra e ojeriza, 
Ao clarão divisa - 
Santo Deus! A filha reconhece.

O jovem no primeiro espanto
Tenta com o véu a impudente,
Com o tapete, cobrir-lhe o desmanto;
Mas ela se ergue logo saliente.
Como um fantasma
Que do alto plasma
Longa e lenta, plana ao leito.

"Mãe, mãe!" Diz com voz de sepulcro, 
"Você quer ser desmancha-prazer?
Tira-me ao tépido e pulcro!
Me acorda para arrefecer?
Como se não basta, 
Quando inda casta, 
Você cedo ao túmulo me poer?

Mas uma lei bem própria me expulsa
A cantilena sacra é insulsa, 
A mim sequer comove oração;
Salmodiou sem efeito
Se os jovens a eito;
Ah! Terra não esmorece paixão.

Esse moço me foi prometido,
Nos bons tempos do templo de Vênus.
Mãe, contudo foi o voto rompido, 
Mas nenhum deus ouve,
Quando a madre ousa 
Recusar à filha as bodas de jus.

Da sepultura lançada à vida, 
Á procura do anelado bem,
Por perdido ser inda querida
Aspirar todo o sangue que tem.
Quando ele morrer,
Mais hei de querer,
Sedenta, a debelar gente jovem.

Tanto não viverás!
Definhas-te, aqui neste lugar, meu belo;
Ofertei-te minha correntinha
Comigo guardo a mecha com zelo.
Veja-lhe ademãs, 
Depois, meras cãs!
Lá insosso e sem cor será o pelo.

Ouça, mãe, a prece derradeira:
Minha última morada abre!
Então arme uma grande fogueira, 
Os amantes nas chamas, descanse!
Chispa resplandece, 
Brasa incandesce,
Devoltamos à crença fagueira."           


Escrito em 1797, Die Braut von Korinth, influenciou muitos escritores por tratar da história de um vampiro e também por auxiliar na inclusão do elemento sexual que atualmente é inerente ao vampiro. O poema conta a história de noivos que foram impedidos de se casar, pois os pais da noiva se converteram ao cristianismo enquanto o noivo e sua família permaneciam cristãos.
Goethe se inspirou na história da jovem Filinion que retorna da morte para desfrutar dos prazeres que lhe foram negados. A história de Filinion faz parte do folclore grego e foi escrita por Flégron de Tales no século II d. C. em seu livro De Mirabilibus.

Referências:
GOETHE, J. W. A noiva de Corinto. In: COSTA, B. (org.). Contos clássicos de vampiro. São Paulo: Hedra, 2010.