Verbete: Vampiro (parte 1)

Ao publicar o Traité sur les apparitions des esprits et sur les vampires ou les revenans de Hongrie, Moravie, etc.,  Dom Augustin Calmet trouxe a discussão sobre a existência ou não dos vampiros relatados em suas compilações dos casos ocorridos no Leste Europeu para o centro do fenômeno iluminista, e se transformou num grande bestseller com a ajuda involuntária dos próprios filósofos iluministas que passaram a discutir o assunto e finalizaram a questão determinado, arbitrariamente, que era tudo irreal, fantasia da imaginação daquele povo.

Voltaire, um dos mais influentes filósofos iluministas, escreveu uma obra chamada Dicionário Filosófico que foi publicada em 1764 alcançando muito sucesso pois, através dos verbetes, Voltaire criticava o Estado e a religião. Um dos verbetes do Dicionário foi dedicado aos Vampiros, sendo usado para criticar pesadamente a obra de Calmet e a crença em vampiros. Nas edições de bolso encontradas facilmente em livrarias não consta este verbete. Geralmente estas edições são mais curtas e tem somente aqueles referentes ao Estado e à Igreja.

Dicionário Filosófico - Verbete: Vampiros
"Pois bem! Dentro de nosso século XVIII há quem acredite na existência de Vampiros! Depois dos reinados de Locke, Shafterbury, Trenchard e Collins. E durante os reinados de D'Alembert, Diderot, Saint-Lambert e Duclos, ainda se acredita na existência de Vampiros, e o reverendo Dom Augustin Calmet - padre beneditino da congregação de Saint-Vannes e de Saint-Hidulphe, abade de Senones, uma abadia de cem mil rendas livres, vizinha de duas outras abadias do mesmo rendimento - imprimiu e reimprimiu a história dos vampiros com a aprovação da Sorbonne, assinada por Marcilli!
Os vampiros eram defuntos que saíam à noite de seus túmulos no cemitério para sugar o sangue dos vivos, através da garganta ou do ventre, e depois retornavam às suas covas. Os vivos que tinham sido sugados, emagreciam, tornavam-se pálidos e iam se consumindo; enquanto os mortos que haviam chupado tornavam-se gordos, com a pele corada e tinham excelente apetite. Foi na Polônia, Hungria, Silésia, Morávia, Áustria e Lorena que os mortos fizeram suas melhores refeições. Jamais ouvimos falar de Vampiros em Londres, nem mesmo em Paris. Admito que nestas duas cidades existiam agiotas, comerciantes e homens de negócios que sugavam o sangue do povo à luz do dia; porém, não estavam mortos, ainda que corrompidos. Estes sugadores verdadeiros não habitavam cemitérios, mas sim confortáveis palácios. 
Quem acreditaria que a moda dos Vampiros nos veio da Grécia? Não aquela Grécia de Alexandre, de Aristóteles, Platão, Epicuro e Demóstenes, mas a Grécia cristã, infelizmente cismática. 
Há muito tempo, os cristãos do rito grego acreditam que os corpos dos cristãos do rito latino, enterrados na Grécia, não se decompõem jamais porque foram excomungados. É exatamente o contrário do que nós, cristãos do rito latino, pensamos. Nós acreditamos que os cadáveres que não se decompõem são aqueles que têm impresso o selo da beatitude eterna. E enquanto se paga cem mil escudos a Roma pela canonização de cada santo, tributamos a este uma adoração de anjos.

Os gregos estão convencidos que seus mortos são feiticeiros, e lhes dão o nome de broucolacas ou vroucolacas, dependendo da pronúncia da segunda letra do alfabeto. Os cadáveres gregos visitam as casas para chupar o sangue de crianças, servir-se da janta dos pais e das mães, beber o vinho e quebrar todos os móveis. Só é possível trazer-lhes à razão quando são queimados, depois de capturados. Porém, é preciso ter o cuidado de colocá-los no fogo somente depois de ter-lhes arrancado o coração, que precisa ser queimado separadamente. 
O célebre Tournefort, enviado ao Oriente por Luís XIV, como tantos outros virtuosos, testemunhou alguns truques sujos atribuídos a um desses broucolacas, e as citadas cerimônias.

Depois da maledicência, nada se espalha tão rapidamente quanto a superstição, o fanatismo, o sortilégio e as histórias de aparições. Logo existiam broucolacas na Valáquia, Moldávia e dentro da Polônia, nações pertencentes rito romano. Não era necessária mais esta superstição, mas ela espalhou-se por toda a parte oriental da Alemanha. Não se falou doutra coisa além de vampiros entre 1730 e 1735: espreitamos-los, arrancamos seus corações e os jogamos no fogo; mas, semelhantes aos antigos mártires, quando mais os queimávamos, mais eles apareciam.

Calmet enfim tornou-se seu historiador, e dedica-se aos Vampiros com antes havia se ocupado do Velho e do Novo Testamento, referindo-se fielmente a tudo que havia sido dito sobre o assunto antes que ele.

Deve ser, penso eu, uma coisa muito curiosa examinar os processos verbais legalmente estabelecidos contra os mortos que abandonavam suas covas para chupar o sangue de meninos e meninas da vizinhança. Calmet relata que na Hungria dois oficiais nomeados pelo imperador Carlos VI, ajudados pelo meirinho e um carrasco, cuidaram da investigação dum Vampiro, morto seis semanas antes, que chupava o sangue de toda a vizinhança. Encontraram-no em seu caixão fechado, fresco, robusto, de olhos abertos e esfomeado. O meirinho leu a sentença. O carrasco arrancou o coração do Vampiro e o queimou; depois disso, ele não chupou o sangue de mais ninguém. 

Depois deste caso, ninguém deve atrever-se a duvidar dos mortos ressuscitados que infestam nossas lendas antigas, nem todos os milagres relatados por Bollandus e pelo sincero reverendo Dom Ruinart!"

Referência:
Voltaire. Dictionnaire Philosophique. Paris, 1764.

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