Verbete: Vampiro (parte final)

Encontramos histórias de Vampiros até dentro das Lettres Juives* de D'Argens, a quem os jesuítas autores do Jornal de Trévoux antes haviam acusado de incrédulo. Eles puderam saborear seu triunfo quando o citado autor se referiu à história do Vampiro da Hungria; deram graças a Deus e à Virgem pela conversão do pobre D'Argens, camarista na corte dum rei que não acreditava de maneira alguma em Vampiros. "Vejam só", disseram eles, "o famoso incrédulo que ousou duvidar da aparição do anjo à santa Virgem, da estrela que conduziu os Reis Magos, da cura dos possuídos, dos dois mil porcos afogados no lago, do eclipse do sol na lua cheia, dos mortos ressuscitados que caminharam por Jerusalém: seu coração amoleceu e o espírito iluminou-se; ele acredita em Vampiros!"
A grande questão que surgiu então foi averiguar se aqueles mortos ressuscitaram pela própria vontade, pelo poder de Deus ou pela força do Diabo. Os grandes teólogos de Lorena, da Morávia e da Hungria tornaram públicas suas opiniões e suas descobertas. Relembraram tudo que Santo Agostinho, Santo Ambrósio e outros santos disseram de mais incompreensível a respeito dos vivos e dos mortos. Trouxeram à tona todos os milagres de Santo Estevão que estão incluidos no sétimo livro das obras de Santo Agostinho, e eis aqui um dos mais curiosos. Um jovem, na vila de Aubzal, na África, ficou esmagado sob as ruínas de uma muralha. A viúva imediatamente foi invocar por Santo Estevão, de quem ela era devota, e Santo Estevão ressuscitou o esmagado. Perguntaram-lhe o que havia visto no outro mundo: "Senhores", respondeu ele, "quando minha alma abandonou o corpo, encontrou uma infinidade de almas que fizeram muitas perguntas a respeito deste mundo aqui. Eu ia para não sei aonde quando encontrei Santo Estevão, que me disse: 'Devolva aquilo que recebeu'. Eu respondi-lhe: 'O que devo devolver-lhe se nunca me destes nada?'. Repetiu-me três vezes: 'Devolva aquilo que você recebeu'. Então compreendi que estava querendo falar do Credo. Rezei a ele o meu Credo e em seguida ele me ressuscitou".
Citaram, sobretudo, as histórias relatadas por Sulpício Severo sobre a vida de São Marinho, e provaram que entre os mortos que ele ressuscitou estava um condenado.
Mas todas estas histórias, por mais verdadeiras que sejam, não têm nada em comum com  os Vampiros que chupavam o sangue dos vizinhos e em seguida iam deitar-se em seus caixões. Procuraram também no Velho Testamento e na mitologia qualquer Vampiro que pudessem apresentar como exemplo de caso antigo; não encontraram nenhum. Mas eles provaram, sem sombra de dúvida, que os mortos comiam e bebiam, já que tantos povos da Antiguidade colocavam alimentos em seus túmulos.
A dificuldade era saber se era a alma ou o corpo do morto que se alimentava. Foi decidido que ambos comiam. Os pratos mais delicados e de pouca substância como merengues, creme batido e frutas secas, alimentavam a alma; o rosbife era para o corpo. Diziam que os reis da Prússia foram os primeiros que continuavam a se alimentar após a morte. São imitados por quase todos os reis dos dias atuais; mas são os monges que devoram sua janta e a ceia, e bebem seu vinho. Portanto os reis não são, falando propriamente, Vampiros. Os verdadeiros vampiros são os monge, que se banqueteiam às custas tanto dos reis quanto do povo.
É bem verdade que Santo Estanislau, que havia comprado dum nobre polonês um terreno de tamanho considerável, pelo qual não chegou a pagar, e foi perseguido e levado diante do rei Boleslau pelos herdeiros, ressuscitou o tal cavalheiro; porém unicamente para quitar-lhe a dívida. Nunca se disse que ele tenha servido sequer um copo de vinho ao vendedor, que retornou ao outro mundo sem comer nem beber. Discute-se com frequencia e grave questão de que se é possível perdoar o Vampiro que morreu excomungado. Isso é mais um fato. 
Não sou teólogo profundo o bastante para opinar sobre este assunto; porém, eu certamente votaria pela absolvição, pois em todos os assuntos duvidosos, deve-se sempre escolher o lado mais bondoso:
Odia restringenda, favores ampliandi. (Restrinja-se o odioso; amplie-se o favorável.)
O resultado de tudo isso é que uma grande parte da Europa esteve infestada por Vampiros durante cinco ou seis anos, e que hoje já não existem; que havia saltadores na França durante vinte anos, e que hoje já não há mais; que tínhamos endemoinhados durante mil e setecentos anos, e que não existem mais; que ressuscitávamos mortos desde os dias de Hipólito, e que hoje não ressuscitamos mais; que tínhamos os jesuítas na Espanha, em Portugal, na França e nas duas Sicílias, e que hoje já não os temos mais.

O tom de sarcasmo e a ironia nas palavras de Voltaire são incontestáveis. A produção e a publicação do Dicionário Filosófico com este verbete e as citações sobre o conteúdo da Dissertação de Dom Calmet demonstram a discussão que se espalhou pela França, entre os iluministas, a respeito do surto de vampirismo.


* Les Lettres juives ou Correspondance philosophique, historique et critique entre un juif voyageur à Paris et ses correspondans en divers endroits, também conhecido como Lettres Juives, é um romance epistolar escrito por Jean Baptiste de Boyer d'Argens, publicado em 1736.

Referência:
Voltaire. Dictionnaire Philosophique. Paris, 1764.




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