Imaginário, imaginação social e seus símbolos

Bronislaw Baczko e Pierre Bourdieu fazem parte da corrente historiografica chamada Nova História Cultural. Ambos utilizam conceitos específicos que achamos por bem esclarecer para facilitar o entendimento dos textos: sistema simbólico, imaginário, imaginário social e representação Para isto, recorremos a outros autores que também definem estes conceitos.

As imagens fazem parte do cotidiano, da realidade vivenciada. O imaginário está totalmente inserido em nossa visão de mundo, influencia nossas decisões de como viver, morar, vestir, o que comer, como expressar as crenças quaisquer que sejam, como construir as práticas culturais que farão parte de nossa representação de um mundo, fechando um ciclo.

Para Castoriadis (1975) a rede de significações imaginárias de uma sociedade estabelece seu próprio mundo onde define o que é real ou não, o que tem ou não sentido. Seus símbolos partem do racional, do que já existia acabando por dar seus significados próprios. O homem está sempre buscando dar significado e sentido ao mundo e para isto cria significados, usando a imaginação.

O imaginário é, pois, representação, evocação, simulação, sentido e significado, jogo de espelhos onde o ‘verdadeiro’ e o aparente se mesclam, estranha composição onde a metade visível evoca qualquer coisa de ausente e difícil de perceber. Persegui-lo como objeto de estudo é desvendar um segredo, é buscar um significado oculto, encontrar a chave para desfazer a representação do ser e parecer. Não será este o verdadeiro caminho da História? Desvendar um enredo, desmontar uma intriga, revelar o oculto, buscar a intenção? (PESAVENTO, 1995. p. 24)

Ou ainda,

[...] uma realidade tão presente quanto aquilo a que poderíamos chamar de vida concreta, uma dimensão tão significativa das sociedades humanas como aquilo que corriqueiramente é encarado como realidade efetiva [...] sistema ou universo complexo e interativo que abrange a produção e circulação de imagens visuais, mentais, verbais, incorporando sistemas simbólicos diversificados e atuando na construção de representações diversas. (BARROS, 2005, p. 92-94)

Todos os grupos sociais utilizam símbolos que são reconhecidos pelo grupo. Estes são utilizados em várias instâncias, por exemplo, na legitimação da ordem estabelecida, identificação do grupo e hierarquização social. Sendo estas construções de extrema importância no mundo social. Os Estados modernos utilizam constantemente símbolos para sua identificação como bandeiras, hinos e brasões, fundamentais para a identificação nacional.
           
Para Bourdieu os símbolos só exercem efeito quando o público-alvo (povo) ignora a sua imposição por parte do grupo dominante, quando o símbolo é identificado e tomado pelo público, ele funciona como uma representação.

Já a representação, de acordo com Ginzburg (2001, p.85) é aquilo que quando identificado e visto pelo grupo ou indivíduo, remete a objetos ou sentimentos distintos. A representação evoca a ausência ou sugere a presença da realidade representada. Uma bandeira não é uma nação, mas em qualquer lugar do mundo traz a representação da pátria a quem a visualiza. Outro exemplo usado por Ginzburg diz respeito às práticas de funeral real para permitir a exposição do soberano morto ao povo por dias seguidos, tornando possíveis as homenagens.

Todas as construções coletivas de interpretação e organização social a partir de símbolos e representações podem ser entendidas como imaginário social. De acordo com Pesavento (1995. p. 24), “o imaginário social se expressa por símbolos, ritos, discursos e representações alegóricas figurativas”. O estudo do imaginário é de vital importância como elemento da construção e da organização da produção historiográfica.

A abordagem através do imaginário “nos sugere a possibilidade de esclarecer símbolos e metáforas eleitos por uma determinada coletividade que busca, em suas manifestações imaginárias e imaginadas, a superação da realidade indesejada e conflituosa.” (NOGUEIRA, 1995, p.12) e ainda, segundo Pitta (2005, p.67), “[...] o imaginário, longe de ser do domínio do não existente, é uma presença real, tão ‘verdadeira’ quanto a matéria, e mesmo mais, pois ela é transfigurativa e ativa.”

Baczko inicia seu texto discutindo a apropriação da palavra imaginação pelas ciências sociais que a retirou do campo da quimera e do irreal ao qual pertencia dentro do “domínio das artes, irrompia agora num terreno reservado às coisas sérias e reais.” (BACZKO, 1985, 296). Ele destaca o uso do termo a partir dos acontecimentos de maio de 68 onde passou a ser utilizado como fator identificatório de um movimento de massas.

Ao analisar os usos do conceito de imaginação e imaginário, o autor destaca a concepção das ciências humanas que sempre viram o domínio do imaginário e do simbólico como estratégias de poder político.

Segundo ele para exercer um poder simbólico os agentes dominantes se apropriam dos símbolos utilizando suas relações de sentido através dos emblemas de poder, os monumentos, o carisma do chefe de Estado. (BACZKO, 1985. p.299). A importância do imaginário se justifica pelo fato de que todas as instituições políticas só são possíveis pela imagem que o homem faz de si e dos outros através de seus símbolos e ainda, todas as ações são reflexo dos desejos e das paixões dos homens.

Como exemplo, ele usa a Revolução Francesa onde “onde o combate pelo domínio simbólico traduziu-se, entre outros fatos, pela batalha encarniçada contra os símbolos do Ancien Régime.” (BACZKO, 1985. p.302).

Neste ponto cabe destacar Bourdieu (1998) que defende a identidade dos grupos através das representações mentais com que se conhecem e se reconhecem como os objetos que lhes dão a idéia de pertencimento a uma classe, grupo ou nação.  Manifestações sociais como a Revolução Francesa buscam manipular estas imagens mentais buscando “impor a definiçao legitima das divisões do mundo social.” (BOURDIEU, 1998. p.108). Para ele, o mundo social é também representação e vontade.

A partir disto ele menciona os conceitos de imaginário para diversos autores conforme a época e sua visão de mundo: Michelet, Tocqueville e Marx. Sendo este último  amplamente utilizado por suas definições de ideologia que moldam o imaginário social de todos os grupos e classes.

Ele destaca também que o imaginário social é uma forma de resposta aos conflitos, problemas, dúvidas e violência de um grupo.

O imaginário social é, deste modo, uma das forças reguladoras da vida coletiva. As referências simbólicas não se limitam a indicar os indivíduos que pertencem à mesma sociedade, mas definem também de forma mais ou menos precisa os meios inteligíveis das suas relações com ela, com as divisões internas e as instituições sociais, etc. [...] O imaginário social é, pois, uma peça efetiva e eficaz do dispositivo de controle da vida coletiva e, em especial, do exercício da autoridade e do poder. Ao mesmo tempo, ele torna-se o lugar e o objeto dos conflitos sociais. (BACZKO, 1985. p.310).
           
Para reforçar e esclarecer suas teorias, o autor faz análise dos imaginários sociais contidos na Revolução Francesa, nas revoltas camponesas ao redor dela e do período de governo de Stalin na União Soviética conhecido como terror.

Concluimos com Bourdieu (1998), segundo ele o imaginário social constitui a teia de representações e identidades de uma determinada sociedade ou grupo, legitimando seu poder e seu controle através dos símbolos que inflam a noção de pertencimento.

Referências:

PESAVENTO, Sandra J. Em busca de uma outra história: Imaginando o imaginário. In: Revista Brasileira de História, v. 15, n.º 29. São Paulo: 1995.
BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas lingüísticas. (O que falar quer dizer). São Paulo: EDUSP, 1998.
Bronislaw Baczko. Imaginação social. In: Enciclopédia Einaudi, s. 1. Lisboa: Imprensa Nacional/Casa da Moeda, Editora Portuguesa, 1985
CASTORIADIS, Cornelius. A Instituição Imaginária da Sociedade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1982.
BARROS, José D’Assunção. O Campo da História - especialidades e abordagens. Petrópolis: Vozes, 2004.
GINZBURG, C. Olhos de madeira. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

P.s. Na apresentação da proposta do Blog, eu mencionei que publicaria textos referentes não somente à vampiros, mas também a temas relacionados à História. Este texto sobre imaginário social está dentro deste parâmetro.

4 comentários:

  1. muito bom seu texto me ajudou bastante,obrigada

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  2. Olá, parabéns pelo seu texto e pelo Blog. Sou aluno do curso de História da Universidade Federal de Sergipe, e estou iniciando uma pesquisa do imaginário social. Ajudou-me bastante.

    Até!

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  3. Sendo assim, todo esse movimento do gauchismo e seus símbolos festivos representam o nosso imaginário social, acertei..?
    Obrigado por disponibilizar esse texto, agora, seguirei seus passos nesse estudo do imaginário.

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    1. Sim, exatamente! Estas questões são parte do imaginário social e da identidade de grupo. Que bom que pude ajudar, publicarei mais textos sobre estas questões.

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