A mortalha da falecida

Goethe (A noiva de Corinto) e Sheridan Le Fanu (Carmilla) inspiraram-se numa antiga lenda cujo teor é dado por Selt em 1833: depois de ter levado uma vida dissoluta, uma mulher retorna à cidade de Wroclaw (1). Compare-se esse fato com a balada de Goethe que transcrevemos em outro post. 

Aquilo que já tinham suposto e dito quando ela estava viva, confirmou-se: a mulher má nao conhecia o repouso em seu túmulo. O vigia da torre de Santa Elisabete notou com terror que, toda noite, quando soava a hora dos espíritos (2) essa pessoa saía de seu sepulcro, jogava a mortalha sobre o túmulo e partia a passos rápidos para seu domícilio, onde, durante uma hora, media retalhos de tecido, trabalhando sem fim até que o suor lhe perlasse a fronte e seus olhos sangrassem (3).

Uma noite, após constatar que a aparição saída do túmulo tinha jogado seu sudário e partido para cuidar de seus assuntos, o vigia desceu da torre, alcançou a tumba, apoderou-se da mortalha e retornou prontamente para seu posto. Quando quis fechar a porta e subir a escada em caracol, ele teve repentinamente uma idéia e, por prudência, traçou três vezes o sagrado sinal da cruz na porta. Feito isso, com a velha mortalha no braço, fechou a porta e subiu rapidamente a escada até seu posto elevado e jogou o sudário sobre um pequeno altar de madeira. Pôs-se à janela de onde podia abarcar com o olhar o cemitério e os túmulos.

Era meia-noite e quarenta e cinco quando a aparição voltou para sua morada. Ela não encontrou a mortalha, seu olhar se dirigiu imediatamente para a janelinha onde o vigia indiscreto observava a cena e se sobressaltou diante de seus gestos furiosos. Contudo, seu temor aumentou ainda mais quando ele viu que a aparição tomava o caminho da torre a passos rápidos. Quanto mais ela se aproximava, mais o vigia se aterrorizava. Ele juntou as mãos para reszar, e seus lábios balbuciavam sem que ele tivesse consciência. Eis que a falecida chegou à entrada, avistou o sinal sagrado e recuou tremendo. O vigia horrorizado debruçou-se um pouco para fora da janela. Quando viu o efeito produzido pela cruz, quis entrrar em casa para agradecer a Deus por tê-lo salvo, mas quando lançou um último olhar para vere se a aparição fizera meia-volta, constatou com terror que esta começou a escalar a parede da torre. O pânico tomou conta dele, seus membros estavam petrificados, não podia mais deixar a janela, permaneceu aí, fascinado, e não conseguiu deixar de observar a mulher que se aproximava cada vez mais. Ele já podia perceber seu rosto convulsionado de raiva, que a lua banhava com luz pálida. Seus cabelos se eriçaram na cabeça. A aparição chegou à galeria, iria subir, e o vigia desabou no chão com um grito de pavor. Soou uma hora Imediatamente, os ossos da mão da descarnada soltaram a balaustrada, as pernas não apertaram mais o pilar que enlaçavam e, com estrondo, a falecida caiu sobre o chão duro do cemitério.

Na manhã seguinte, encontraram o corpo terrivelmente destruído, mas ainda reconhecível, dessa maldita mulher. O povo, que nesse ínterim tinha ouvido a notícia do terrível acidente - depois do qual o vigia caiu doente pelo terror sentido -, não admitiu que se recolocasse o corpo em terra consagrada. Chamaram o carrasco: ele cortou a cabeça com uma cavadeira (4) e, colocando o corpo sobre couro de boi, foram enterrá-lo sob o patíbulo.O vigia não sobreviveu a essa horrível noite (5), mas nunca mais se reviu a aparição. Esse acontecimento atroz foi gravado no metal por um artista e a imagem foi vista até o início deste século numa das portas da igreja Santa Elisabete, ao lado, oculta na parede (6).


Notas: 
(1). SELT, Sagen aus Breslau's Vorzeit, Breslau, 1833, p. 50 et seq. 
(2). Aproximadamente meia-noite.
(3). A danação é a repetição por toda a eternidade, neste caso, medir retalhos.
(4). A forma de destruir a aparição é cortar sua cabeça, mesma de destruir o vampiro. No período anterior a apropriação pela literatura, todo fantasma, espectro e afim era considerado um vampiro. 
(5). Em quase todos os casos, quem encontra um morto, morre a seguir.
(6). O texto foi impresso no Schlesisches Labyrinth, Breslau e Leipzig, 1737, p. 363-393.

Referência:
LECOUTEAUX, Jean Claude. História dos vampiros: autópsia de um mito. São Paulo: Unesp, 2005. p. 184-186.

Um comentário:

  1. estou adorando ver esse blog :)
    André c/pedra (rs)

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