Uma vampira na Grécia Antiga

Por volta do século II d.C. o escritor Flávio Filostrato escreveu a obra “A vida de Apolônio” como biografia de Apolônio de Tiana, um filósofo grego que viveu no século I da era cristã. Nela Flávio conta que por volta do ano 61 da era cristã, em uma visita à cidade de Corinto, Apolônio encontrou um jovem amigo, Menipo, que se disse apaixonado por uma mulher encantadora, rica e estrangeira e que ia casar com ela. Apolônio disse ao rapaz que se tratava de uma lâmia, um ser demoníaco, mas não foi ouvido. No dia do casamento Apolônio vai até a casa da mulher e a confronta, até que finalmente ela confessa seus planos de alimentar-se do rapaz pois é “bonito e seu sangue é puro e forte.” (MELTON, 2003, p. 362-363). Esta história demonstra a antiguidade das crenças nestes seres, além disto, serviu de inspiração para Goethe escrever seu famoso poema A noiva de Corinto, tanto quanto o conto A mortalha da falecida. (ambos publicados anteriormente).
Naquele tempo, em Corinto, havia um homem chamado Demétrio, que estudava filosofia e que adotara em seu sistema todo o vigor masculino dos cínicos. Posteriormente, Favorino, em várias de suas obras, fez-lhe uma generosa referência, e sua atitude em relação a Apolônio foi exatamente aquela que, segundo se diz, Antístenes assumiu em relação ao sistema de Sócrates: pois era seu seguidor, ansiava por tornar-se seu discípulo, e era dedicado às suas doutrinas, levando para o lado de Apolônio os discípulos mais estimados.

Entre esses últimos incluía-se Menipo, natural da Lícia, de vinte e cinco anos, dotado de bom senso e de um físico tão belo e proporcionado que se assemelhava a um atleta excelente e másculo. Ora, segundo muita gente dizia, Menipo era amado por uma estrangeira, que além de bonita e extremamente elegante, afirmava ser rica; embora, conforme se constatou, ela não fosse nem uma coisa nem outra, a não ser na aparência.

Por certo, quando caminhava sozinho pela estrada que leva a Cencréia, Menipo deparou-se com um espectro, uma mulher que lhe deu a mão, declarou que fazia tempo que o amava, que era fenícia e vivia num subúrbio de Corinto; e mencionou o nome desse subúrbio, dizendo:

--- Hoje à noite, quando você chegar a esse lugar, ouvirá a minha voz quando eu cantar para você, e terá vinho para beber como nunca teve, e não haverá rival que o perturbe, e nós dois, lindos seres, viveremos juntos.

O jovem consentiu, pois, embora fosse filósofo rigoroso, era suscetível à paixão; e visitou-a à noite, e depois procurou constantemente a sua companhia, considerando-a sua amada, pois ainda não percebia que ela era uma simples aparição.

Então Apolônio, à maneira de um escultor, olhou Menipo, fazendo um esboço do jovem e, tendo percebido seus pontos fracos, disse-lhe:

--- Você é um jovem admirável e procurado por mulheres igualmente admiráveis, mas nesse caso está se afeiçoando a uma serpente, e uma serpente se afeiçoa a você.

E quando Menipo demonstrou surpresa, ele acrescentou:

--- Essa dama é do tipo que você não pode desposar. Porque você se casaria? Pensa que ela o ama?
--- É claro! Por Zeus! - disse o jovem - pois ela me trata como se me amasse.
--- E você, então, se casaria com ela? - perguntou Apolônio.
--- Ora, sim, porque seria uma alegria casar-me com uma mulher que me ama.

Em seguida Apolônio perguntou-lhe quando seria o casamento.

--- Em breve - disse o outro - talvez amanhã.

Por conseguinte, Apolônio aguardou a cerimônia de casamento, e na ocasião, colocando-se diante dos convidados que tinham acabado de chegar, disse:

--- Onde está a dama por quem vocês vieram?
--- Está aqui - respondeu Menipo, e ao mesmo tempo ergueu-se ligeiramente do assento, ruborizando.
--- E a qual de vocês pertence a prata e o ouro e todos os ornamentos do salão do banquete?
--- À dama, pois isto é tudo que possuo - respondeu o jovem apontando para o manto de filósofo que usava.

E Apolônio perguntou-lhes:

--- Ouviram falar dos jardins de Tântalo, de como existem e mesmo assim não existem?
--- Sim - responderam - nos poemas de Homero, pois decerto nunca descemos ao Hades.
--- Assim devem ver esta ornamentação - retrucou Apolônio -, pois não é a realidade, mas imagem da realidade. E para que constatem a verdade do que digo, esta noiva admirável é uma empusa (1), quer dizer, um desses seres que muitos conhecem por lâmias (2) e seres maléficos. Esses seres se apaixonam, desejando os prazeres de Afrodite e sobretudo a carne dos humanos; e seduzem aqueles que pretendem devorar em seus banquetes.

E a dama retrucou:

--- Pare com esta conversa agourenta e vá embora!

E fingia estar ofendida com o que ouvira, e de fato estava disposta a insultar os filósofos e dizer que sermpre falavam bobagens. Quando, no entanto, os cálices de ouro e a prataria provaram ser tão leves quanto o ar e tudo se dissipou, e aqueles que serviam vinho, os cozinheiros e a criadagem desapareceram devido à reprovação de Apolônio, o espectro fingiu que chorava e lhe implorou que não a torturasse e não a obrigasse a confessar o que era, realmente.

Mas Apolônio insistiu e não a deixou impune; e então ela admitiu ser uma empusa, e estava engordando Menipo com prazeres, antes de devorá-lo pois tinha o hábito de se alimentar de corpos jovens e belos, porque neles o sangue era puro e forte.

Relatei com detalhes, porque era necessário, a história mais célebre de Apolônio; pois muitos a conhecem e sabem que esse incidente ocorreu no centro da Grécia; entretanto, apenas de modo geral e superficial, souberam que ele uma vez surpreendeu e dominou uma empusa, verdadeira vampira, em Corinto, mas nunca descobriram o que ela estava prestes a fazer, nem que Apolônio agiu desse modo para salvar Menipo, e devo o meu relato a Damis e à obra que escreveu.

(1) De acordo com Florescu e McNally (Em busca de Drácula e outros vampiros, 1995, p. 123), a lâmia era conhecida também como empusa, era um ser “horrível homem-mulher-demônio de asas, que levava os jovens à morte para beber seu sangue e comer sua carne”, sendo considerada um vampiro.
(2) Segundo Melton (O livro dos vampiros, 2003, p. 362), na Grécia antiga existem relatos sobre vários tipos de vampiros, um deles é a lamiai, que vem de Lâmia que se dizia ser uma rainha líbia amaldiçoada pela deusa Hera – esposa de Zeus, rei dos deuses do Olimpo, na mitologia grega – por ser uma das amantes de Zeus, como vingança Hera privou Lâmia de seus filhos e a baniu para uma caverna, amaldiçoada ela matou todos os bebês humanos sugando-lhes o sangue. Com o tempo, os gregos perderam seu medo das lâmias, mas ainda permanece uma crença antiga que diz que quando uma criança morre sem causa aparente, ela foi estrangulada por uma lâmia, o que deixa entrever um ponto comum em todas as lendas: a busca de uma explicação para a morte prematura. Quando esta resposta não é encontrada no mundo real, ela é automaticamente associada a uma causa sobrenatural. 

Referências:
FLORESCU, R. e MCNALLY, R. T. Em busca de Drácula e outros vampiros. São Paulo: Mercuryo, 1995.
MELTON, G. J. O livro dos vampiros – A enciclopédia dos mortos vivos. São Paulo: M. Books do Brasil, 2003.