Música e outras mídias (1ª parte)

Música e memória

O homem sempre usou a música como forma de comunicação, de transmitir uma mensagem, pois ela nada mais é que um conjunto de sons articulados para formar um discurso, sons em harmonia, uma linguagem transmitida pela voz e, como tal, passível de interpretação.Deste modo a música torna-se uma fonte ou documento histórico que, na visão de Karnal e Tatsch (2009. p. 24) “[...] é qualquer fonte sobre o passado, conservado por acidente ou deliberadamente, analisado a partir do presente e estabelecendo diálogos entre a subjetividade atual e a subjetividade pretérita.” sendo o que permite a análise da ação humana e também o conhecimento de seu meio. Como novos objetos, as canções[1], tornaram necessárias novas formas de problematização para sua interpretação e estudo.

De acordo com Almeida (2008. p. 317-319), ela – a canção – é uma mescla de lingüística e música e como tal pode ser analisada de várias formas; como letra usando os mesmos “procedimentos aplicados ao poema” por sua construção de sentido através da junção entre letra e música. Ainda no entendimento do sentido a melodia tem um significado que não pode ser ignorado, visto que, também constrói o sentido. Vista como letra e melodia, a canção é considerada híbrida por não se adequar a qualquer conceito fechado da literatura, podendo corresponder a um ou vários. Além disto, ela também é uma forma de oralidade pelo uso e transmissão pela voz, seu objetivo final é ser ouvida e cantada, embora a moderna indústria fonográfica faça a mediação do autor e do receptor, modificando a sonoridade que o ouvinte percebe.
Neste ponto, a autora vai de encontro às idéias de Zumthor (1997) que diz que a voz midiatizada escapa do espaço e do tempo, as gravações são guardadas ficando somente a voz, sem o corpo ao qual pertencia, pois este já não é mais visto, somente ouvido. O que permite, de acordo com Valente (1999), a criação e repetição da voz de um cantor perdida no tempo tornando-a contemporânea, para que possamos conhecer o que foi feito e cantado muito tempo atrás.

Por outro lado, esta possibilidade nos remete a outra questão igualmente importante, a ligação entre a memória e a música ou a canção, pois esta é geradora de memória. Visto que “a memória é o ato de lembrar, reter o que já passou, contendo tanto a reminiscência quanto o esquecimento. [...] A memória reconstrói a própria relação entre passado e presente, o sentido que se dá à história.” (PEREIRA, 2007. p. 156)

As relações entre história e memória, no que diz respeito à música são fortes a ponto de ser um problema a ser percebido, analisado e discutido através das relações da música com o meio e a sociedade, segundo Moraes (2010).

Alguns estudos sobre a música popular brasileira são atrelados à questão da memória e do que a música desperta, ela é um gatilho imediato para a memória, marca momentos e sentimentos que são revividos quando se ouve determinada música. Todos temos aquelas músicas que ouvíamos na infância, na adolescência, que nos trazem a sensação de nostalgia e de rememoração dos “bons tempos idos”.

[...] A música faz parte da memória involuntária que é fruto do imponderável, um passado que surge fragmentado, descontínuo, em flashes, instantâneo, no qual muitas vezes não se sabe onde ele se articula, a que se vincula, onde se situa, sendo a incerteza seu indício maior, advindo de uma memória afetiva, sonora, em que sabores, cheiros, sons, sensações táteis têm papel preponderante no processo. [...] O sujeito, ao ouvir música, tem suscitadas impressões, sentimentos, lembranças. [...] Neste sentido, é que a música e seu registro midiático podem servir como lugar de memória, local de guardar experiências fixadas que, no entanto, não estão estáticas, mas sempre relidas no presente de quem escuta. (PEREIRA, 2007. p. 158-169).

Músicas sempre foram usadas como forma de comunicação, dissemos anteriormente, e também foram usadas como forma de reforçar uma idéia ou um objeto, no caso dos comercias de televisão que criam jingles[2] que se tornam inesquecíveis. Um exemplo é um comercial veiculado em meados dos anos 1980, feito para a campanha de Natal do extinto Banco Nacional. Ele mostra as peripécias e trapalhadas de um menino que tenta chegar a tempo para cantar no coral da escola. A música usada, com o título “Quero ver você não chorar” foi composta para este fim por Edison Borges de Abrantes[3] convidado por Lula Vieira que dirigiu o comercial original em 1971. Ela emocionou mais de uma geração e ainda é lembrada e conhecida. 
Poderíamos gastar dezenas de páginas enumerando casos como estes!
No caso da televisão brasileira, as novelas exploram este recurso, vinculando músicas às personagens e às suas aberturas tornando-as, em sua maioria, grandes sucessos pela divulgação e associação. O cinema também fez isto com os cantores de rádio...


[1] Canções sendo aqui consideradas como o conjunto: música, letra e harmonia.
[2] Uma mensagem publicitária musicada e elaborada com um refrão simples e de curta duração, a fim de ser lembrado com facilidade. É uma música feita exclusivamente para um produto ou empresa.
[3] Edison Borges de Abrantes, o Passarinho, foi parceiro da cantora e compositora Dolores Duran (“Olha o tempo passando”, “Canção da tristeza”, “Tome continha de você”), do compositor Alfredo Borba (“Contando estrelas”, gravada por Walter Wanderley; “Amor eterno”, por Cascatinha e Inhana) e de Vadico (“Dói muito mais a dor”, registrada por Agostinho dos Santos). Originalmente, a música do jingle “O Natal existe” destinava-se ao grupo Os Titulares do Ritmo, mas o convite do publicitário Lula Vieira fez com que o autor Edison Borges desse outro destino à sua cria. (Fonte: http://www.gafieiras.com.br)

Referências:

ALMEIDA, T. V. O corpo do som: notas sobre a canção. In: MATOS, C. N.; TRAVASSOS, E.; MEDEIROS, F. T. (orgs.). Palavra cantada: ensaios sobre poesia, música e voz. Rio de Janeiro: 7Letras, 2008. p. 316-326.
KARNAL, L.; TATSCH, F. G. A memória evanescente. In: PINSKY, C. B.; LUCA, T. R.  (orgs.). O historiador e suas fontes. São Paulo: Contexto, 2009. p. 9-27.
VALENTE, H. A. D. Os cantos da voz: entre o ruído e o silêncio. São Paulo: Annablume: 1999.
ZUMTHOR, P. Introdução à poesia oral. São Paulo: Hucitec, 1997.
das mídias. In: VALENTE, H. A. D. (Org.). Música e mídia: novas abordagens sobre a canção. São Paulo: Via Lettera/Fapesp: 2007.
PEREIRA, S. Escutando memórias: uma abordagem antropológica para o estudo da canção
MORAES, J. G. V. Entre a memória e a história da música popular. São Paulo: Alameda, 2010. 

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