Música e outras mídias (final)



Análise rápida e prática:

Pretendemos ilustrar a capacidade de transformação e de gerar identificações que a música no cinema sonoro tem. Para isto, escolhemos dois trechos específicos do filme Drácula de Bram Stoker para uma análise. A escolha de trechos deste filme em especifico, em detrimento de tantos outros, tem fundamento em nosso trabalho de pesquisa atual e na apreciação pessoal, uma união do útil ao agradável.

Drácula de Bram Stoker
dirigido e produzido por Francis F. Copolla, em 1992 foi considerada a versão mais fiel ao romance escrito por Bram Stoker em 1897. Isto se deve a narrativa cinematográfica que manteve os elementos do livro. A história é contada através dos diários dos personagens. Em relação à narrativa do livro, Copolla fez algumas modificações, mas manteve o combate entre o bem e o mal.

O filme começa em 1462, na Transilvânia (Romênia), com a danação de Drácula, que ao retornar da guerra encontra sua noiva morta. Como ela havia cometido suicídio por achar que ele havia perecido em combate, sua alma está condenada a não ter descanso, segundo a tradição católica ortodoxa. Drácula se revolta e enfia a espada na cruz, amaldiçoando Deus e se autocondenando às trevas.

Quatro séculos depois, em 1897, um desavisado Jonathan Harker, jovem advogado, vai até a Transilvânia finalizar a venda de uma propriedade em Londres para o conde Drácula. Ao entregar os papéis ao conde, este encontra por acidente a foto de Mina, noiva de Jonathan. Ela tem a idêntica aparência da perdida noiva de Drácula. Após ver a foto e considerar Mina como a encarnação de seu amor perdido, Drácula – agora um maléfico ser das trevas, amaldiçoado, um vampiro – prende Jonathan no castelo e se dirige a Londres em busca de sua noiva.

Drácula chega a uma Londres moderna que já conta apresentações do cinematógrafo, que ele vai assistir. No decorrer da narrativa, Drácula, depois de conquistar Mina e de ser descoberto por Jonathan, Van Helsing e mais alguns amigos, foge de volta à Transilvânia tendo os caçadores em seu encalço.

Esta breve narrativa do filme tem a intenção de apresentar a história para dar o contexto dos trechos que utilizaremos. O primeiro é a chegada do conde Drácula às movimentadas ruas de Londres, onde um menino anuncia a apresentação do Cinematógrafo. O segundo é a perseguição que Jonathan, Van Helsing e os outros fazem a Drácula que foge para seu castelo.

Como metodologia para a análise usamos a indicação de Jullier e Marie (2009. p. 55) que orientam a ouvir repetidas vezes, com e sem imagem, o som de uma seqüência de filme e após descrição rigorosa do conteúdo sonoro, desenvolver a análise relacionando sons e imagens.

Seqüência 01:
Ocorre, aproximadamente, aos 44 min e 30 s do filme, e tem duração de 38 s. Drácula esta andando nas ruas de Londres. Ouvimos o som como se fossemos o próprio conde andando pelas ruas, o som dos passos de quem cruza seu caminho, o latido de um cão ao longe, cavalos passando na rua, um garoto gritando um anúncio sobre o cinematógrafo, convidando a todos para assistir. Mas, o que realmente chama atenção na seqüência é que durante todo o seu decorrer há o som de um antigo projetor de cinema, de um filme em rolo, que se sobrepõe aos outros sons. Ao assistirmos a citada seqüência, percebemos que a imagem também não é contínua, ela parece “fragmentada”, os movimentos dos atores parecem truncados, as pessoas passam apressadamente, exatamente como nos filmes antigos, nas primeiras projeções.

Levando em consideração o filme como um todo, visto que ele tem uma série de referências a estilos cinematográficos e filmes antigos, supomos que Coppola quis passar exatamente isto, a sensação de estarmos assistindo esta cena através de um antigo projetor. Numa referência clara ao cinematógrafo, já que a seqüência é editada desta forma, exatamente durante um anuncio da novidade que havia chegado a Londres. 



Seqüência 02:
Ocorre aos 60 min e 53 s do filme, aproximadamente, e tem duração de 01 min e 02 s. Nela se desenrola a perseguição ao conde Drácula que tenta chegar a seu castelo. Ouvimos o som de cavalos correndo, tiros sendo trocados, gritos de ordens sendo proferidas. O que chama a atenção e dá o tom nesta seqüência é a música. Num ritmo acelerado ela deixa claro que se trata de uma cena de ação e perseguição, além disto, a composição e melodia da música, o som dos tiros e a forma como são disparados nos remetem a uma seqüência dos velhos filmes de faroeste, os werstern americanos.

Temos a nítica impressão de estar assistindo a uma sequencia de algum filme de Sergio Leone com as composições de Ennio Morricone. No final da seqüência, um dos homens grita Atacar e para reforçar sua ordem, ao fundo toca uma corneta. A menção é clara. Mais uma vez, supomos a intenção de referência direta aos antigos filmes de faroeste. A imagem nos mostra exatamente o que pensamos estar ouvindo, uma perseguição alucinante, a cavalo, como nos filmes citados.


Ambas as seqüências, trabalhadas de maneira superficial, apenas para demonstrar o que discutimos sobre o poder da música, reforçam isto de forma irrevogável. A maior parte de nós nunca assistiu um filme num antigo projetor, mas conhecemos o som e o associamos automaticamente à imagem, dando sentido ao que é visto. O som característico dos filmes de faroeste, também é inconfundível, ao fazermos a associação dos sons com a imagem entendemos automaticamente a referência contida na perseguição.

Concordamos com Aumont e Marie (2009), quando dizem que através da memória dos filmes anteriormente assistidos ou conhecidos culturalmente, fazemos a conexão e encontramos o sentido da mensagem passada pela música no filme. Sem música, ambas as seqüência teriam sentidos completamente diferentes, seriam apenas um caminhar pela cidade e apenas uma perseguição...


Para finalizar:

A música, atualmente, é parte inseparável de um filme, a música dá o sentido à imagem, reforça, emociona, marca, torna inesquecível cenas, personagens, os próprios filmes. Foi um longo caminho de desenvolvimento de técnicas até chegarmos às modernas tecnologias atuais. Muitos foram os compositores e diretores que criaram formas de fazer música no cinema que são seguidas ainda. Contribuições como a de Max Steiner; compositor de Tara’s Theme, a música tema de E o vento levou; que criou a música como tema do filme ou do personagem, inspirado nas óperas de Wagner. Sua idéia foi seguida e continua sendo.

O som foi o que impulsionou o cinema e o tornou um sucesso, ele que permite o reforço da ilusão de realidade que temos quando assistimos um filme, a sincronização entre voz, corpo e som ambiente que nos faz acreditar na lógica do que estamos vendo.

Porém ainda há muito a ser analisado, a maior parte dos autores consultados para este artigo discute a diferença da importância dada, da bibliografia e dos estudos existentes sobre a imagem no cinema e o som no cinema. Ainda há muito a estudar e analisar sobre o som no cinema. Em alguns casos, a música é somente um acompanhamento da cena, em outros, como as seqüências que analisamos, ela permite o entendimento da narrativa. Sem música, sem som, talvez não existisse o cinema moderno.


Referências:
DRÁCULA DE BRAM STOKER. Título original: Bram Stoker’s Dracula. Direção: Francis F. Copolla. Produção: Francis F. Copolla, Fred Fuchs e Charles Mulvehill. EUA: American Zoetrope e Columbia Pictures Corporation, 1992. 1 DVD (127 min.). son., color.
AUMONT, J. ; MARIE, M. A análise do filme. Lisboa: Texto & Grafia, 2009.

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