O estranho misterioso (parte um)

Este conto foi escrito em 1860 e sua autoria é desconhecida. Segundo fontes, ele é uma das inspirações de Stoker para Drácula que tem algumas de suas características, como o controle dos animas selvagens. 
Por tratar-se de um conto bastante longo, decidi dividi-lo em partes para facilitar a leitura. 


O Bóreas, aquele temível vento noroeste que na primavera e no outono agita as mais remotas profundezas do turbulento mar Adriático, e é, então, perigosíssimo para as embarcações, uivava através da floresta e lançava ao ar os galhos dos velhos carvalhos nodosos dos montes Cárpatos quando um grupo de cinco cavaleiros, cercando uma liteira puxada por um par de mulas, tomou um dos caminhos da floresta capaz de oferecer alguma proteção do clima de abril e de permitir qe os viajantes recuperassem o fôlego. 

Já anoitecia, e o frio era intenso; a neve caia vez por outra em flocos grandes. Um cavalheiro alto e idoso, de aparência aristocrática, seguia à frente da tropa. Tratava-se do Cavaleiro de Fahnenberg, da Aústria. Ele herdara de um irmão sem filhos uma propriedade considerável, situada nos montes Cárpatos; e fora tomar posse da propriedade, acompanhado por sua filha Franziska e por uma sobrinha de cerca de 20 anos, qu etiha sido criada com ela. Ao lado do cavaleiro ia um belo jovem de vinte e poucos anos - o barão Franz von Kronstein; usava, como o outro, o chapéu de abas largas com penas pendentes, o gibão de couro, as botas de montaria de cano largo - em suma, os trajes de viagem que estavam em moda no começo do século XVII. 

As feições do jovem revelavam em grande parte uma natureza aberta e amigável, bem como uma razoável inteligência; mas a expressão era antes a de uma suavidade sonhadora e sensível mais do que a da audácia típica da mocidade, embora ninguém pudesse negar que ele possuísse uma grande beleza juvenil. Quando o grupo entrou na floresta de carvalhos, o jovem se aproximou da liteira e conversou com as damas que estavam sentadas lá dentro. Uma delas - e para ela essa conversa foi principalmente dirigida - tinha uma beleza deslumbrante. Seu cabelo caía em cachos naturais em torno do belo oval de seu rosto, no qual brilhava um par de olhos que eram cmo estrelas, cheios de vivacidade, grande imaginação, e um certo grau de malícia.

Franziska von Fahnenberg parecia escutar sem muita atenção as palavras de seu admirador, que fez muitas perguntas atenciosas sobre como ela se sentira durante a viagem, realizada com uma série de dificuldades: todas as vezes ela lhe respondeu com impaciência, quase com désdem; e no fim acrescentou que, se não fosse pelas objeções de seu pai, há muito teria pedido ao barão que tomasse seu lugar naquela liteira, uma horrível gaiola, pois, a tomar pelos comentários dele, parecia incomodado com o clima; e ela teria preferido mil vezes montar o fogoso cavalo, enfrentando o vento e a tempestade, do que ficar enclausurada ali, arrastada morro acima por aqueles animais de orelhas compridas, e entendiando-se até a morte naquele fastio.

As palavras da jovem e, mais do que isso, o tom algo desdenhoso com que foram ditas, pareceram causar a mais dolorosa impressão no rapaz: ele não lhe respondeu no mesmo instante, mas o ar ausente com que ouviu os comentários amáveis da outra jovem revelavam o quão desconcertado estava.

--- Parece, querida Franziska - disse ele por fim, num tom gentil -, que as adversidades do caminho a afetaram mais do que se dá conta. Geralmente tão amável com outros, tem estado com bastante frequencia de mau humor durante a viagem, e particularmente com relação a este seu humilde servo e primo, que aceitaria com prazer carregar um fardo duplo ou triplo de desconforto, se assim pudesse poupá-la do menor deles. 

Franziska revelava, por sua expressão, estar prestes a responder com alguma amarga zombaria, quando a voz do cavaleiro foi ouvida chamando por seu sobrinho, que saiu a galope nesse instante. 

--- Gostaria de repreendê-la seriamente, Franziska - disse sua companheira, com certa rispidez - por estar sempre atormentando seu pobre primo Franz desse jeito vergonhoso; ele que a ama com sinceridade e que, não importa o que você diga, será um dia seu marido.
--- Meu marido! replicou a outra, zangada. - Ou eu mudo completamente as minhas idéias ou ele muda todo o seu ser antes que isso ocorra. Não, Bertha! Sei que esse é o maior desejo de meu pai, e não nego as boas qualidades que o primo Franz possa ter, ou de fato tenha, já que você está fazendo cara feia; mas casar com um homem efeminado - nunca!
--- Efeminado! Você lhe faz grande injustiça - retrucou com presteza sua amiga - só porque em vez de embarcar para a guerra turca, na qual poucas honrarias haveriam de ser conquistadas, ele seguiu os conselhos de seu pai e ficou em casa, a fim de trazer ordem às suas negligenciadas propriedades, o que logrou fazer com cuidado e prudência; e porque não representa esse vento uivante como um zéfiro manso - por razões tais que você acha certo chamá-lo efeminado.
--- Diga o que quiser, isso é um fato - replicou a outra, obstinadamente - audacioso, ambicioso, até mesmo despótico deve ser o homem que quiser conquistar meu coração; essas naturezas suaves, pacientes e pensativas me desagradam inteiramente. Será Franz capaz de uma compreensão profunda, tanto na alegria quanto na tristeza? Ele é sempre o mesmo - sempre silencioso, suave e aborrecido.
--- Ele tem bom coração, e não é desprovido de inteligência - disse Bertha. 
--- Um bom coração! Isso pode ser - replicou a outra, - mas eu preferia ser tiranizada e escravizada por meu futuro marido do ser amada de maneira tão enfadonha. Você diz que ele também tem inteligência. Não vou exatamente contradizê-la, já que isso seria indelicado, mas não é algo que se descubra com facilidade. Mesmo aceitando, porém, que você tenha razão nas duas afirmações, ainda assim o homem que não transforma essas qualidades em ações é uma criatura desprezível. Um homem pode fazer muitas tolices, pode até ser um pouco perverso vez por outra, desde que não seja nada desonroso; e é possível perdoá-lo, se ele estiver apenas agindo de acordo com alguma teoria fixa acerca de algum objeto especial. Veja, por exemplo, o seu próprio fiel admirador, o Castelão de Glogau, Cavaleiro de Woislaw; ele a ama sinceramente e está agora de fato em posição de permitir que você se case com conforto. O bravo homem perdeu sua mão direita - razão suficiente para ficar sentado átras do fogão, ou perto da roda de fiar da sua Bertha; mas o que faz ele? - Vai para a guerra na Turquia; luta por um ideal nobre...
--- E corre o risco de ter sua outra mão decepada, e de ganhar uma outra grande cicatriz no meio do rosto - acrescentou sua amiga.
--- Deixa sua amada chorando e se lamentando um pouquinho - prosseguiu Franziska - mas regressa com fama, se casa, e é ainda mais honrado e admirado! Isso é feito por um homem de 40 anos, um guerreiro forte, que não foi criado na corte, um soldado que não tem coisa alguma além de seu manto e sua espada. E Franz - rico, nobre - mas não vou prosseguir. Nem mais uma palavra sobre esse assunto detestável, se você gosta de mim, Bertha. 
Franziska recostou-se no canto da liteira com um ar insatisfeito e fechou os olhos, como se, vencida pelo cansaço, quisesse dormir.

--- Esse vento terrível é tão poderoso, insiste você, temos que fazer um desvio para evitar sua força total - disse o cavaleiro a um velho, vestido com um gorro de pêlo e uma capa de pelo grosseira, que parecia ser o guia do grupo.
--- Aqueles que nunca sentiram na própria pele o Bóreas soprando pelos campos entre Sessano e Trieste não fazem idéia da realidade - replicou o outro. --- Assim que ele começa, a neve é soprada em colunas longas e espessas pelo chão. Isso não é nada diante do que se segue. Essas colunas se tornam cada vez mais altas, conforme o vento aumenta, e continuam crescendo até que não se vê mais nada além de neve em cima, embaixo, em toda parte - a menos, é claro, em alguns casos, quando areia e cascalho se misturam à neve, e ao cabo é de todo impossível abrir os olhos. Sua única forma de se defender é envolver-se em sua capa e se deitar no chão. Mesmo que sua casa esteja a apenas umas poucas centenas de metros de distância, corre o risco de perder a vida tentando chegar lá.
--- Bem, nós lhe agradecemos, velho Kumpan - disse o cavaleiro, embora com dificuldade ele se fizesse ouvir acima do rugido da tempestade. --- Agradecemos por nos ter trazido por esse desvio, pois assim poderemos chegar ao nosso destino sem correr perigo.
--- Pode estar seguro disto, nobre senhor. - disse o velho. --- Por volta da meia-noite nós teremos chegado, e sem encontrar qualquer perigo pelo caminho, se... - subitamente, o velho se interrompeu, fez com que o cavalo parasse no mesmo instante e manteve uma atitude de escuta atenta.
--- Parece-me que devemos andar nos arredores de algum povoado - disse Fraz von Kronstein -; pois em meio às rajadas da tempestade ouço um cão uivando.
--- Não é um cão, não é um cão! - disse o velho, inquieto, e tocou o cavalo, passando a uma andadura rápida. --- Pois por quilometros ao nosso redor não há moradias humanas; exceto pelo castelo de Klatka, que de fato fica nos arredores, mas está abandonado por mais de um século, provavelmente ninguém tem morado por aqui desde a criação do mundo. --- Mas eis aí outra vez o uivo - ele prosseguiu -, bem, como se eu não tivesse certeza desde o início.
--- O uivo parece incomodá-lo, velho Kumpan - disse o cavaleiro, ouvindo um som longo e penetrante, que parecia mais próximo do que antes, e dava a impressão de ser respondido em outro lugar.
--- Esse uivo não vem dos cães - replicou inquieto o velho guia. --- São lobos dos juncos; podem estar em nosso encalço; e seria bom que os cavalheiros preparassem suas armas de fogo.
--- Lobos dos junco? O que quer dizer com isto? - perguntou Franz, surpreso.
--- Na outra extremidade desta floresta - disse Kumpan - há um lago com cerca de um quilometro e meio de extensão, cujas margens são cobertas com juncos. Ali, um grupo de lobos fez sua moradia, alimentando-se de pássaros, peixes e animais desse tipo. São arredios no verão, e um menino de 12 anos pode assustá-lo; mas quando os pássaros migram, e os peixes congelam, eles espreitam, à noite, e então se tornam perigosos. São ainda piores, porém, quando o Bóreas assola este lugar, pois é como se o próprio diabo os possuísse: ficam tão enlouquecidos e bravos que os homens e os animais maiores tornam-se também suas vítimas; já se soube que um grupo deles chegou a atacar os ferozes ursos destas montanhas, e, o que é mais impressionante, saíram vitoriosos.
 O uivo se repetiu agora de maneira mais distinta, vindo de duas direções opostas. Os cavaleiros, alarmados, apanharam suas pistolas, e o velho agarrou a lança que pendia de sua sela.

--- Temos de ficar perto da liteira, os lobos estão muito próximos de nós - sussurrou o guia. 

Os homens deram meia-volta com seus cavalos, cercaram a liteira, e o cavaleiro informou as damas, com poucas e tranquilizadoras palavras, da causa daquele movimento.

--- Então nós teremos uma aventura... algo para variar um pouco! - exclamou Franziska, os olhos faiscantes. 
--- Como é que você pode falar de maneira tão tola? - disse Bertha, alarmada. 
--- Não estamos sob proteção masculina? O primo Franz não está do nosso lado? - disse a outra, em tom de escárnio. 
--- Veja, há uma luz brilhando entre os galhos; e outra ali - exclamou Bertha. --- Deve haver gente perto de nós.
--- Não, não - exclamou o guia, prontamente. --- Fechem a porta, senhoras. Fiquem juntos, cavalheiros. São os olhos dos lobos que estão vendo faiscar ali. 

Os cavalheiros olharam na direção da espessa vegetação rasteira, na qual vez por outra surgiam pequenos pontos luminosos, iguais aos que no verão seriam tomados por vaga-lumes; era exatamente a mesma luz amarelo-esverdeada, mas menos irregular, e havia sempre duas chamas juntas. Os cavalhos começaram a se rebelar, davam coices e puxavam o freio; mas as mulas se comportavam razoavelmente bem. 

--- Vou atirar nos lobos, e ensiná-los a manter distância - disse Franz, apontando na direção onde pontos luminosos apareciam em maior quantidade.
--- Espere, espere, senhor barão! - Kumpan exclamou prontamente, e agarrou o braço do jovem. --- O senhor levaria um grupo tão grande a se reunir, com o barulho do disparo, que, encorajados pelo seu número, eles com certeza fariam um primeiro ataque. Mas mantenham suas armas prontas, e se uma loba saltar - pois elas sempre lideram o ataque - mirem bem e matem-na, pois não pode haver hesitação. 

A essa altura, as montarias estavam quase fora de controle, e o terror também dominara as mulas. No instante em que Franz virava-se para a liteira a fim de dizer uma palavra à sua prima, um animal, mais ou menos do tamanho de um cachorro grande, saltou da mata e agarrou a mula mais próxima. 

--- Fogo, barão! Um lobo! - gritou o guia.

O jovem atirou e o lobo caiu no chão. Um uivo amedrontado ressoou pela floresta.

--- Agora, em frente! Em frente, sem um minuto de demora! - exclamou Kumpan. --- Não dispomos de cinco minutos. Os animais vão fazer sua companheira ferida em pedaços e, se estiverem muito famintos, vão devorar parte dela. Enquanto isso, ganharemos algum terreno, e não estamos a mais de uma hora de cavalgada até o final da floresta. Ali - estão vendo? - ali estão as torres de Klatka por entre as árvores - lá onde a lua está nascendo, e dali em diante a floresta se torna menos densa.

Os viajantes esforçaram-se em aumentar ao máximo seu passo, mas a liteira atrasava seu progresso. Bertha chorava de medo, e até mesmo a coragem de Franziska tinha diminuído, pois ela se sentava imóvel. Franz tentava tranquiliza-las. Não tinham avançado por muito tempo quando os uivos recomeçaram, aproximando-se cada vez mais. 

--- Lá estão eles de novo, e mais ferozes e numerosos que antes - exclamou o guia, alarmado.

Logo as luzes eram novamente visíveis, e com certeza em maior número. A floresta já se tornara menos espessa e, a nevasca tendo cessado, os raios de luar revelavam vários vultos obscuros em meio às arvores, mantendo-se unidos como uma matilha de cães e avançando cada vez mais, até que estavam a vinte passos de distância, seguindo a trilha dos viajantes. Vez por outra, um uivo feroz surgia no meio deles, e era respondido por toda a matilha; por fim, imitavam-no vozes isoladas a distância. 

O grupo agora se encontrava a poucas centenas de metros do castelo em ruínas sobre o qual Kumpan falara. Possuía, ou parecia possuir, à luz da lua, alguma magnitude. Junto à parte principal, razoavelmente preservada, estavam as ruínas de uma igreja, que devia ter sido outrora bonita, localizada no alto de um outeiro onde cresciam espalhados alguns carvalhos e alguns arbustos de sarça. Tanto o castelo quando a igreja ainda guardavam parte do telhado, e um caminho seguia do portão do castelo a um carvalho antigo, onde se juntava, num ângulo de 90 graus, àquele pelo qual avançavam os viajantes. 
O velho guia parecia bastante perplexo.

--- Estamos correndo um enorme perigo, meu nobre senhor - ele disse. --- Os lobos em breve farão um ataque geral. Só haverá então um meio de escapar: deixar as mulas à própria sorte, e levar as senhoras em nossos cavalos. 
--- Estaria muito bem, se eu não tivesse pensado num plano melhor - replicou o cavaleiro. --- Ali está o castelo em ruínas; com certeza podemos alcança-lo, e então, bloqueando os portões, podemos simplesmente aguardar o amanhecer. 
--- Aqui? Nas ruínas de Klatka? Nem por todos os lobos do mundo! - exclamou o velho. --- Mesmo à luz do dia ninguém ousa se aproximar daquele lugar e, agora, à noite! O castelo, meu senhor, tem um mau nome. 
--- Por causa de ladrões? - perguntou Franz.
--- Não; ele é assombrado - o outro replicou.
--- Mentiras e bobagens! - disse o barão. --- Para as ruínas; não há um instante a perder. 

E era este mesmo o caso. Os ferozes animais estavam a apenas uns poucos passos de distância dos viajantes. De vez em quando se afastavam, uivando ferozmente. O grupo acabara de chegar ao velho carvalho antes mencionado e estava prestes a ingressar pelo caminho até as ruínas quando os animais, como se percebessem o risco que corriam de perder sua presa, chegaram tão perto que uma lança teria podido facilmente atingi-los. O cavaleiro e Franz se viraram bruscamente, esporeando seus animais para que fossem para o meio da matilha que avançava, quando de súbito surgiu um homem da sombra do carvalho, e com algumas passadas largas se colocou entre os viajantes e seus perseguidores. Até onde era possível ver na penumbra, o estranho era um homem alto, de compleição física; carregava uma espada na bainha e sobre sua cabeça estava um chapéu de abas largas. Se o grupo ficou surpreso com seu aparecimento súbito, mais ainda ficou com o que se seguiu. Assim que o estranho apareceu, os lobos abandonaram sua perseguição, tropeçaram uns sobre os outros e uivaram amedrontados. O estranho ergueu então a mão, pareceu fazer um gesto com ela, e os animais selvagens se arrastaram de volta para a mata com uma matilha de cães derrotados. 
Sem lançar um único olhar aos viajantes, que estavam por demais tomados pelo assombro para falar, o estranho seguiu pelo caminho que levava ao castelo, e logo desapareceu sob o pórtico de entrada. 

--- Que os céus tenham piedade de nós! - murmurou o velho Kumpan para si mesmo, enquanto fazia o sinal-da-cruz. 
--- Quem era aquele homem esquisito? - perguntou surpreso o cavaleiro, depois de ficar observando o estranho enquanto ele estava em seu raio de visão, e quando o grupo já retomara o caminho. 

O velho guia fingiu não entender e, dirigindo seu cavalo até onde estavam as mulas, ocupou-se com a amarração dos arreios, que tinham se desajustado devido àquele passo apressado: mais de um quarto de hora se passou antes que ele regressasse. 

--- Você conhece o homem que nos encontrou perto das ruínas e que nos livrou de nosso perseguidores de quatro patas dessa maneira miraculosa? - perguntou Franz ao guia.
--- Se eu o conheço? Não, meu nobre senhor, eu jamais o vi antes - o guia respondeu, hesitante.
--- Ele parecia um soldado, e estava armado - disse o barão. --- O castelo, então, é habitado?
--- Não nos últimos cem anos - replicou o outro. --- Foi demolido porque o dono, naqueles dias, tinha negócios iníquos; com certas hordas turco-eslavônias, que tinham avançado até aqui; ou melhor - ele se corrigiu, prontamente - é o que dizem. Mas talvez ele fosse tão correto e tão bondoso quanto qualquer homem que já andou sobre a face da terra. 
--- E quem é o dono destas ruínas e desta floresta? - perguntou o cavaleiro.
--- Quem além do senhor? - replicou Kumpan. - Faz mais de duas horas que estamos em sua propriedade, e logo chegaremos aos limites da floresta.
--- Já não ouvimos ou vemos mais nada dos lobos - disse o barão, depois de uma pausa. --- Até mesmo os uivos cessaram. O episódio com o estranho ainda permanece inexplicável para mim, até mesmo se supuséssemos tratar-se de um caçador...
--- Sim, sim; provavelmente é o que ele é - interrompeu o guia, enquanto olhava apreensivo ao redor. --- O bravo e bondoso cavalheiro que veio tão oportunamente em nosso auxílio devia ser um caçador. Ah, há muitos e poderosos habitantes da floresta nos arredores! Que os céus sejam louvados! - ele prosseguiu, respirando fundo. --- Ali está o fim da floresta, e em menos de uma hora estaremos a salvo, e bem acomodados.

E assim se deu. Antes que uma hora passasse, o grupo atravessou um povoado de boas construções, o lugar principal da propriedade, na direção de um venerável castelo, que tinha todas as janelas profusamente iluminadas, e em cuja porta estavam o mordomo e outros empregados, que, após receberem seu novo senhor com os mais respeitosos cumprimentos, conduziram o grupo aos seus aposentos esplendidamente mobiliados. 

(fim da parte 1)

Referência:
COSTA, Flavio Moreira da. (org.). 13 de melhores contos de vampiros. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. 

p.s. Para quem se interessa pelo assunto é uma ótima dica de leitura, os contos compilados no livro são uma excelente seleção.


2 comentários:

  1. Boa noite Mayte, tudo bem?
    Me chamo Fabrício e sou de Santa Maria/RS. Eu estava procurando informações sobre este texto, pois lembro que li esse conto em um livro sobre vampiros, há um bom atrás e acabei achando o seu blog.
    Recentemente me passou pela cabeça em saber como adaptar um texto ou livro para outras mídias e esse conto me veio a cabeça, por se tratar de gênero que gosto muito e também por ser de um autor desconhecido. Minha pergunta é, se por acaso tu sabes me dizer se este conto já está em domínio público?
    Ou se você tem mais informações sobre esse conto?

    Caso você tenha alguma informação, por favor entre em contato comigo - fabricio.bohrer@gmail.com

    Desde já agradeço pela sua atenção, obrigado.

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    1. Bom dia Fabrício,
      Desculpe não ter respondido antes. Eu não sei se este texto está em domínio público. Eu usei o livro da referência, que tem uma ótima seleção de contos.

      Abs,

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