O estranho misterioso (parte dois)

Quatro semanas se passaram até que as aventuras dos viajantes novamente viessem à tona. O cavaleiro e Franz ficaram tão ocupados inspecionando todos os detalhes da enorme propriedade e empenhando-se em introduzir várias melhorias alemãs que ficavam pouco tempo em casa. A princípio, tudo encantava Franziska naquele lugar tão inteiramente novo e desconhecido. Parecia-lhe tão romântico, tão diferente de sua pátria-mãe alemã, que ela sentiu o maior interesse em tudo, e frequentemente fazia comparações entre os dois países, que em geral terminavam de forma desfavorável para a Alemanha. Bertha era de opinião diametralmente oposta: ria de sua prima, e dizia que seu gosto pela novidade e por paisagens desconhecidas devia mesmo ter chegado a um nível inaudito se ela preferia choupanas das quais a fumaça saía pelas portas e janelas, e não pela chaminé, paredes cobertas de fuligem e habitantes não muito mais limpos e de hábitos grosseiros às moradias confortáveis e ao povo educado da Alemanha. No entanto, Franziska persistia em sua opinião, e replicava que tudo na Áustria era enfadonho, ennuyant e comum; e que um camponês pouco civilizado dali, com seu rústico casaco de pele, era dez vezes mais interessante para ela do que um circunspecto austríaco em sua roupa de festa, cuja mera visão era suficiente para causar bocejos.

Assim que o cavaleiro conseguiu fazer cumprir as primeiras providências e instalar um grau mínimo de ordem, o grupo voltou a estar amiúde reunido. Franz continuava a demonstrar grande atenção à sua prima, que, no entanto, a recebia com pouca gratidão, pois fazia dele o alvo de todos os caprichos de seu humor, que logo regressaram, quando, após uma longa estada, ela já se acostumara um pouco mais à sua nova vida. Muitos passeios nos arredores foram feitos, mas o cenário variava pouco, e logo deixaram de diverti-la. 

Um dia o grupo se reuniu no antiquado salão, o almoço acabava de ser retirado e eles combinavam em que direção cavalgariam.

--- Já sei - exclamou de súbito Franziska. --- Pergunto-me por que nunca pensamos em ir ver de dia o local em que se passou nossa aventura noturna com os lobos e com o Estranho Misterioso.
--- Quer dizer uma visita às ruínas... como são chamadas? - perguntou o cavaleiro. 
--- Castelo Klatka - exclamou Franziska alegremente. --- Ah, realmente, precisamos ir até lá! Seria tão encantador passar de novo, à luz do dia e em segurança, pelo lugar onde tantos temores vivemos.
--- Tragam os cavalos - disse o cavaleiro a um criado --- e diga ao mordomo que venha falar comigo imediatamente.

Esse último, um homem idoso, pouco depois entrou no salão.

--- Pretendemos cavalgar até Klatka - disse o cavaleiro. --- Tivemos uma aventura ali, em nosso caminho...
--- O velho Kumpan me disse - interrompeu o mordomo.
--- E o que me diz a respeito? - perguntou o cavaleiro.
--- Realmente não sei o que dizer - replicou o velho, meneando a cabeça. --- Eu era um jovem de 20 anos quando vim para este castelo, e agora meus cabelos estão cinzentos; meio século se passou desde então. Centenas de vezes meu dever me levou aos arredores daquelas ruínas, meu eu jamais vi o Diabo de Klatka. 
--- O que está dizendo? Quem é que chama por esse nome? - perguntou Franziska, cuja paixão pela aventura e pelo romance tinha sido amplamente desperta.
--- Ora, as pessoas chamam por esse nome o fantasma ou espírito que supostamente assombra as ruínas - replicou o administrador. --- Dizem que ele só aparece em noites de lua...
--- Isso é bem natural - interrompeu Franz, sorrindo. --- Os fantasmas não podem suportar a luz do dia; e se a lua não brilhasse, como esse fantasma haveria de ser visto? Pois não se supõe que alguém fosse visitar as ruínas à luz de tochas apenas para encontrar uma criatura dessas. 
--- Há algumas pessoas crédulas que alegam ter visto esse fantasma - continuou o administrador. --- Caçadores e lenhadores dizem tê-lo encontrado junto ao grande carvalho na encruzilhada. Ali, meu nobre senhor, parece ser o local que ele mais frequentemente assombra, pois a árvore foi plantada em memória do homem que morreu ali.
--- E quem era ele? - perguntou Franziska.
--- O último dono do castelo, que àquela época era uma espécie de covil de bandidos, e o quartel-general de todos os depredadores das vizinhanças - respondeu o velho. --- Dizem que esse homem tinha uma força sobre-humana, e era temido não só por seu temperamento passional, mas ainda por seus tratados com as hordas turcas. Também ocorria que qualquer mulher jovem nos arredores por quem ele tivesse alguma preferência era levada para sua torre e dela nunca mais se tinha notícia. Quando a medida de sua iniquidade tornou-se insuportável, a população ergueu-se em massa, cercou sua fortaleza e por fim ele foi morto no local onde agora se ergue o imenso carvalho. 
--- Pergunto-me por que não queimaram o castelo inteiro, para apagar até mesmo sua memória - disse o cavaleiro. 
--- Era de domínio da Igreja, e isso o salvou - replicou o outro. --- Seu bisavô mais tarde tomou posse dele, pois tinha boas terras nos arredores. Como o Cavaleiro de Klatka era de boa família, um monumento foi erguido para ele na igreja, que agora se encontra em ruínas tanto quanto o próprio castelo.
--- Ah, vamos partir agora mesmo! Nada vai me impedir de visitar um lugar tão interessante - disse Franziska, ansiosa. --- As donzelas prisioneiras que jamais reapareceram, o assalto à torre, a morte do cavaleiro, as perambulações noturnas de seu espírito junto ao carvalho, e, por fim, nossa própria aventura, tudo isso me atrai para aquele local com uma curiosidade indescritível. 

Quando um criado anunciou que os cavalos estavam na porta, as jovens desceram às risadas os degraus que levavam ao pátio onde as montarias aguardavam. Franz, o cavaleiro e um criado bem familiarizado com a região seguiram-nas; e em poucos minutos o grupo estava a caminho da floresta.

O sol ainda estava alto no céu quando viram as torres de Klatka se erguendo acima das árvores. Tudo na floresta estava silencioso, exceto pelo chilrear alegre dos passáros, saltitando por entre os botões e folhas que nasciam e anunciando que a primavera tinha chegado.

O grupo logo se encontrou perto do velho carvalho ao pé da colina em que ficavam as torres, ainda imponentes em sua ruína. A hera e a sarça tinham se entrelaçado nas paredes, e forçado tão firmemente suas raízes profundas por entre as pedras, que eram essas plantas, em grande medida, que as mantinham em pé. No topo do ponto mais alto, um pequeno arbusto jovem e verdejante oscilava suavemente na brisa.

Os cavaleiros ajudaram suas companheiras a desmontar e, deixando os cavalos aos cuidados do criado, subiram a colina até o castelo. Depois de tê-lo explorado em cada recanto e fresta, e passado muito tempo numa busca infrutífera de algum traço do extraordinário estranho que Franziska declarou estar determinada a descobrir, passaram a uma inspeção da igreja contígua. Descobriram que ela havia suportado melhor as devastações do tempo e do clima; a nave estava, de fato, inteiramente dilapidada, mas o teto ainda cobria o coro e o altar, bem como uma espécie de capela que parecia ter sido o local de honra para as famílias dos antigos cavaleiros do castelo. Poucos traços permaneciam, porém, das vidraças magnificamente pintadas que deviam outrora ter adornado as janelas, e o vento entrava à vontade pelos espaços abertos.

O grupo se ocupou por algum tempo em decifrar as inscrições em algumas lápides e nas paredes, sobretudo no coro. Eram em geral memoriais dos antigos senhores, com figuras de homens em armaduras, e de mulheres e crianças em todas as idades. Um corvo em pleno voo e vários outros desenhos ocupavam os cantos. Uma lápide, que ficava perto do coro, era bastante diferente das outras: não havia nenhuma figura esculpida, e a inscrição, que em todas as outras lápides em volta era um amontoado de louvores e lisonjas, era ali simples e sem adornos; continha apenas estas palavras: "Ezzelin von Klaska tombou como um cavaleiro no assalto ao castelo" - em tal dia e ano.

--- Esse deve ser o monumento ao cavaleiro cujo fantasma dizem assombrar estas ruínas - exclamou Franziska, ansiosa. --- Que pena ele não ser representado da mesma forma que os outros... eu gostaria de saber como ele era!
--- Ah, ali está a câmara mortuária da família, com degraus que levam até lá, e o sol a está iluminando através de uma fenda - disse Franz, saindo da sacristia contigua. 

Todo o grupo seguiu-o, descendo os oito ou nove degraus que levavam a uma câmara razoavelmente arejada, onde estavam situados caixões de todos os tamanhos, alguns deles se desfazendo em pó. Ali, mais uma vez, um caixão próximo à porta distinguia-se pela simplicidade de seu modelo, pela aparência mais recente e pela breve inscrição: "Ezzelinus de Klatka, Eques."

Como nem mesmo o menor eflúvio era perceptível, ficaram algum tempo na câmara mortuária; e quando subiram outra vez à igreja, conversaram longamente sobre os antigos proprietários, dos quais o cavaleiro agora se lembrava de ter ouvido seus pais falarem. O sol desaparecera, e a lua começava a nascer quando os exploradores se voltaram para deixar as ruínas. Bertha dera um passo para dentro da nave quando emitiu uma leve exclamação de medo e surpresa. Seus olhos caíram sobre um homem que usava um chapéu com penas pendentes, uma espada junto ao corpo e uma capa curta, de corte um tanto antiquado, sobre os ombros. O estranho apoiava-se displicentemente numa coluna quebrada à entrada; não parecia notar em absoluto o grupo; e a lua brilhava sobre seu rosto pálido.

O grupo avançou na direção do estranho.

--- Se não estou enganado - começou o cavaleiro -, nós já nos encontramos antes. 

Nenhuma palavra do desconhecido.

--- O senhor nos salvou de maneira quase miraculosa - disse Franziska - daqueles lobos terríveis. Estou errada em supor que temos uma dívida para com esse significativo serviço?
--- Os animais têm medo de mim - replicou o estranho num tom profundo e veemente, enquanto fixava os olhos fundos na moça, sem tomar conhecimento dos outros.
--- Então o senhor provavelmente é um caçador - disse Franz - e combate essas bestas ferozes. 
--- Quem não é o perseguidor ou o perseguido? Todos perseguem ou são perseguidos, e o destino persegue a todos - respondeu o estranho, sem olhar para ele.
--- O senhor vive nestas ruínas?
--- Sim; mas não para estragar a sua brincadeira, como talvez receie, Cavaleiro de Fahnenberg - disse o estranho, com desdém. --- Pode estar certo disto; sua propriedade permanecerá intocada...
--- Ah! Meu pai não quis dizer isto - interrompeu Franziska, que parecia sentir o maior interesse pelo estranho. --- Acontecimentos desafortunados e experiências tristes levaram o senhor, sem dúvida, a tomar como moradia estas ruínas, das quais meu pai de modo algum tiraria sua posse.
--- Seu pai é um homem muito bom, se foi isso que quis dizer - disse o estranho em seu tom inicial de voz; e nas feições escuras parecia ter se desenhado um leve sorriso -; mas pessoas do meu tipo são difíceis de expulsar. 
--- O senhor deve viver muito desconfortavelmente aqui - disse Franziska, um pouco vexada, pois achava que suas palavras amáveis mereciam uma resposta melhor.
--- Minha moradia não é exatamente desconfortável, só um pouco pequena. Mas mesmo assim é bem adequada para pessoas sossegadas - disse o estranho, com um espécie de sorriso escarninho. --- Não sou, contudo, sempre sossegado; às vezes fico ansioso em deixar o espaço estreito, e então corro pelas florestas e campos, sobre as colinas e sobre os vales; e o momento que sou obrigado a voltar para a minha pequena moradia sempre chega cedo demais para mim.
--- Como o senhor vez por outra deixa sua moradia - disse o cavaleiro -, gostaria de convidá-lo para nos visitar, se soubesse...
--- Que ocupo uma posição que lhe permita fazê-lo - interrompeu o outro; e o cavaleiro ficou um pouco surpreso, pois o estranho expressara com precisão seu pensamento parcialmente externado. --- Lamento - continuou ele, friamente - não poder lhe dar detalhes sobre isso. Algumas dificuldades se interpõem: esteja certo, porém, de que sou um cavaleiro, e de família pelo menos tão antiga quanto a sua. 
--- Então não pode recusar nosso pedido - exclamou Franziska, bastante interessada nas maneiras estranhas do desconhecido. --- Deve vir nos visitar.
--- Não sou uma companhia alegre, e por esse motivo poucos têm me convidado, ultimamente - replicou o outro com seu sorriso peculiar -; além disso, normalmente fico em casa durante o dia; esse é meu período de descanso. Pertenço, deve saber, àquela classe de pessoas que trocam o dia pela noite, e a noite pelo dia, e que amam tudo o que é incomum e peculiar.
--- Verdade? Eu também! E por esse motivo deve nos visitar - exclamou Franziska. --- Ora - ela prosseguiu, sorrindo -, suponho que tenha acabado de se levantar, e que esteja tomando seu ar matinal. Bem, já que a lua é o seu sol, por favor visite com frequência nosso castelo à luz de seus raios. Acho que vamos nos entender muito bem, e que será muito agradável para nós travar conhecimento.
--- A senhora deseja isso? É sincera em seu convite?
--- Com certeza, pois do contrário o senhor não virá - respondeu, com poucas palavras, a jovem.
--- Muito bem, então, eu irei! - disse o outro, novamente com o olhar fixo nela. --- Se minha companhia não a agradar em algum momento, a senhora será responsável por manter relações com alguém que raramente impõe sua presença, mas de quem é difícil se livrar.

Quando o desconhecido concluiu essas palavras, fez um pequeno gesto com a mão, como se lhes pedisse licença, e, passando sob o pórtico, desapareceu entre as ruínas. Logo depois, o grupo montou nos cavalos e tomou a estrada para casa.

A tarde caía, no dia seguinte, e todos estavam novamente sentados no salão do castelo. Bertha recebera boas notícias naquele dia. O cavaleiro Woislaw escrevera da Hungria relatando que a guerra com os turcos em breve chegaria a um fim, naquele ano, e que embora ele antes pretendesse regressar à Silésia, tendo ouvido que o Cavaleiro de Fahnenberg fora tomar posse de suas novas propriedades, devia seguir a família àquele local, pois sem dúvida Bertha acompanhara sua amiga. Deu a entender que o duque o tinha em tão alta estima, devido aos seus valiosos serviços, que no futuro suas tarefas seriam ainda mais importantes e extensas; mas antes de começar a colocá-las em prática, precisava vir cobrar a promessa de Bertha de se tornar sua esposa. Seu mestre mais o butim dos turcos tinham feito dele um homem muito rico. Tendo anteriormente perdido a mão direita a serviço do duque, ele tentara lutar com a esquerda; mas não fora muito bem-sucedido, de modo que um artista de talento lhe fizera uma nova mão de ferro. Essa mão cumpria muitas das funções da mão comum, e poucos eram os movimentos que não executava; agora, no entanto, seu mestre o presenteara com uma de ouro, uma extraordinária obra de arte, produzida por um célebre mecânico italiano. O cavaleiro a descrevia como algo de maravilhoso, sobretudo pela força sobre-humana com que lhe permitia usar a espada e a lança. 

Franziska naturalmente muito se alegrou com a felicidade de sua amiga, que não recebia notícias de seu noivo fazia tanto tempo. Ela começava, de vez em quando, em parte para atormentar Franz, e em parte para expressar seus próprios sentimentos, a fazer grandes louvores e demonstrar grande admiração pela bravura e pelo espírito de aventura do cavaleiro, cujas qualidades ousadas elevava às nuvens. Até mesmo a cicatriz em seu rosto e a falta da mão direita eram tidas como virtudes;e por fim declarou, irreverente, que um homem feio lhe era infinitamente mais atraente que um homem bonito, pois, em geral, os homens bonitos eram vaidosos e efeminados. Assim sendo, ela acrescentou, ninguém poderia definir o homem que conhecera véspera como bonito, mas atraente e interessante ele certamente era. Fraz e Bertha discordaram ao mesmo tempo. 

A aparência sombria, a cor mortiça da pele, o tom de voz do estranho foram sucessivamente depreciados por Bertha, enquanto que Franz encontrou defeitos no desprezo e na arrogância que eram óbvios em sua fala. O cavaleiro se colocou entre os dois lados. Achava que havia algo em sua conduta que fazer pensar numa boa família, embora não se pudesse dizer muito sobre sua cordialidade; no entanto, o homem talvez tivesse passado por provas o suficiente em sua vida a ponto de se tornar insociável. 

Enquanto conversavam, a porta subitamente se abriu e o tema de suas observações em pessoa entrou. 

--- Perdoe-me, Cavaleiro - ele disse, friamente -, se venho, ainda que não sem ser convidado, pelo menos sem ser anunciado; não havia ninguém na ante-sala para me fazer esse serviço.

O salão profusamente iluminado permitia que tivessem uma visão completa do estranho. Era um homem de cerca de 40 anos, alto e extremamente magro. Os traços de seu rosto não podiam ser definidos como desinteressantes - havia ali algo de ousado e audacioso -, mas a expressão era, no conjunto, qualquer coisa, exceto benevolente. Havia desdém e sarcasmo nos frios olhos cinzentos, cujo olhar, porém, era por vezes tão penetrante que ninguém o suportava por muito tempo. Sua tez era ainda mais peculiar que os traços do rosto: não poderia ser definida como pálida ou amarela; era uma espécie de cinza, ou, por assim dizer, de branco sujo, como a de um indiano que sofresse de febre por muito tempo, e a cor se tornava ainda mais notável pelo preto intenso de sua barba e de seu cabelo curto. Os trajes do desconhecido eram os de um cavaleiro, mas fora de moda e desleixados; havia grandes manchas de ferrugem na gola e no peito de sua armadura, e sua adaga e o punho de sua espada finamente trabalhada estavam marcados com em alguns lugares com bolor.

Como o grupo estava indo jantar, era mais do que natural convidar o estranho a acompanhá-lo; ele aceitou, porém, mas apenas para sentar-se à mesa, pois nada comeu. O cavaleiro, um tanto surpreso, perguntou-lhe o motivo. 

--- Já faz tempo que me acostumei a não comer à noite - replicou ele, com um sorriso estranho. --- Minha digestão não está habituada aos sólidos, e na verdade eu mal teria como lidar com eles. Vivo inteiramente de líquidos. 
--- Ah, então podemos esvaziar um copo transbordante de vinho do Reno juntos - exclamou o anfitrião.
--- Obrigado; mas não bebo vinho ou qualquer outra bebida fria - retrucou o outro, num tom que era cheio de escárnio. Aparentemente, havia alguma associação divertida ligada àquela idéia.
--- Então darei ordens para que lhe tragam um hipocraz - bebida quente composta de ervas -; estará pronto imediatamente -  disse Franziska.
--- Muito obrigado, minha senhora; não no momento - replicou o outro. --- Mas se recuso a bebida que me oferece agora, esteja certa de que assim que precisar, e talvez seja logo, pedirei essa bebida, ou alguma outra, à senhora.

Bertha e Franz achavam que o homem tinha algo de indizivelmente repulsivo em todo seu comportamento, e não se sentiam inclinados a começar a conversar com ele; mas o barão, achando que talvez a polidez o obrigasse a dizer algo, virou-se para o convidado e começou, num tom amigável:

--- Já faz várias semanas que travamos conhecimento com o senhor; tínhamos que lhe agradecer, então, por seu serviço singular...
--- E eu ainda não lhes disse meu nome, embora fosse de seu agrado sabê-lo - interrompeu o outro, secamente. --- Eu me chamo Azzo; e - isso lhe disse outra vez com seu sorriso irônico --- já que, com a permissão do Cavaleiro de Fahnenberg, vivo no castelo de Klatka, podem no futuro chamar-me Azzo von Klatka. 
--- Admira-me que não se sinta solitário e desconfortável em meio àquelas paredes antigas - começou Bertha. --- Não consigo entender...
--- O que eu faço ali? Ah, sobre isso eu lhes falarei de bom grado, já que a senhora e o jovem cavalheiro interessam-se tão gentilmente pela minha pessoa - replicou o desconhecido em seu tom sarcástico. 

Franz e Bertha sobressaltaram-se, pois ele revelou seus pensamentos como se pudesse ler suas almas.

--- Veja, minha senhora - prosseguiu ele -, há um bom número de curiosas extravagâncias no mundo. Como já disse, amo o que é peculiar e incomum, pelo menos o que assim haveria de lhes parecer. É errado, em geral, surpreender-se com o que quer que seja, pois, vistas sob certa ótica, todas as coisas são iguais; até mesmo a vida e a morte, este lado do túmulo e o outro têm mais semelhanças do que imagina. A senhora talvez me ache um tanto desequilibrado mentalmente por residir junto com o morcego e a coruja; mas mesmo assim, por que não considerar todos os eremitas e reclusos loucos? A senhora me dirá que esses homens são santos. Com certeza não tenho pretensões nesse sentido; mas como eles encontram prazer nas orações e cânticos dos salmos, assim também eu me divirto caçando. Ah, sair à luz do pálido luar, num cavalo que jamais se cansa, sobre as colinas e os vales, pelas florestas e bosques! Eu corro entre os lobos, que fogem quando me aproximo, a senhora mesma notou, como se fossem cãezinhos com medo de um chicote.
--- Mas mesmo assim deve se sentir muito, muito solitário - observou Bertha.
--- Seria, durante o dia, mas é quando estou dormindo - replicou o outro secamente -; à noite eu me divirto bastante.
--- O senhor caça de maneira extraordinária - observou Franz, hesitante.
--- Sim; no entanto não tenho ligações com os ladrões, como o senhor parece imaginar - replicou Azzo friamente.

Franz mais uma vez sobressaltou-se - aquele exato pensamento acabara de passar-lhe pela mente.

--- Ah, peço-lhe perdão; eu não sei... - ele gaguejou.
--- O que pensar de mim - interrompeu o outro. --- Seria então razoável de sua parte acreditar no que estou dizendo, ou pelo menos evitar fazer suas próprias conjecturas, que não levarão a coisa alguma.
--- Eu compreendo: sei valorizar suas idéias, mesmo que ninguém mais saiba - exclamou Franziska, animadamente. --- A monotonia, a rotina diária da maioria dos homens lhe é repulsiva; o senhor já experimentou as alegrias e os prazeres da vida, pelo menos o que assim se denomina, e os considerou maçantes e vazios. Como nos cansamos cedo das coisas que vemos ao nosso redor! A vida consiste em mudanças. Só no que é novo, incomum e peculiar as flores do espírito florescem e produzem aroma. Até mesmo a dor pode se transformar em prazer se nos resgata da frívola monotonia da vida cotidiana, algo que hei de odiar até a hora da minha morte.
--- É isso, minha bela dama - é exatamente isso! Continue pensando dessa forma: essa sempre foi a minha opinião, e por ela sempre fui amplamente recompensado - exclamou Azzo; e seus olhos ferozes faiscavam com mais intensidade do que nunca. --- Estou duplamente satisfeito por ter encontrado na senhora uma pessoa que compartilha de minhas idéias. Ah, se a senhora fosse um homem, seria um companheiro maravilhoso; mas mesmo uma mulher pode ter boas experiências, uma vez que essas opiniões estão nela enraizadas, e concretizam-se em ações!

Depois que Azzo falou essas palavras num tom cortês e frio, mudou de assunto, e durante o resto do tempo que durou sua visita apenas deu ao cavaleiro respostas monossilábicas às suas perguntas, retirando-se antes que a mesa fosse tirada. Diante de um convite do cavaleiro, reiterado por outro ainda mais insistente da parte de Franziska, para que repetisse sua visita, ele respondeu que ia se aproveitar de sua gentileza, e viria algumas vezes. 

Depois que o estranho foi embora, muitos foram os comentários feitos sobre seu aspecto e conduta geral. Franz declarou que definitivamente antipatizava com ele. Quer porque fosse habitual irritar seu primo, quer porque Azzo de fato a tivesse impressionado, Franziska tomou partido desse último de maneira veemente. Quando Franz começou a contradizê-la com mais impaciência do que era seu costume, a jovem começou a usar expressões ainda mais fortes; e não se sabe que palavras duras seu primo teria ouvido se uma criada não tivesse entrado na sala.

(fim da parte 2)


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Este conto foi escrito no século XIX e um ponto interessante a ser analisado é a forma como é possível ver as relações e o pensamento do período. Para os leitores atentos, pelo menos, duas frases devem ter saltado aos olhos por apresentarem os preconceitos implícitos:
*[...] em geral, os homens bonitos eram vaidosos e efeminados. [...]
* [...]branco sujo, como a de um indiano que sofresse de febre por muito tempo [...]

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Referência:
COSTA, Flavio Moreira da. (org.). 13 de melhores contos de vampiros. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. 

p.s. Para quem se interessa pelo assunto é uma ótima dica de leitura, os contos compilados no livro são uma excelente seleção.

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