O estranho misterioso (parte final)

Foi na manhã do dia seguinte, quando não se passara uma hora da alvorada e o orvalho ainda cobria como um véu de pérolas a grama ou pingava das pétalas das flores oscilando na brisa matinal, que o cavaleiro Woislaw saiu às pressas pelos campos em direção à floresta, e tomou um caminho sombrio, por cuja direção podia-se perceber que conduzia às torres de Klatka. Quando chegou ao velho carvalho que tivemos a ocasião de mencionar antes, procurou cuidadosamente na estrada por traços de passos humanos, mas apenas um cervo passara por ali. Parecendo satisfeito com sua busca, prosseguiu em seu caminho, embora não sem antes desembainhar seu punhal, como se quisesse ter certeza de que estaria pronto para ser usado caso houvesse necessidade.

Aos poucos subiu pelo caminho; era evidente que levava alguma coisa sob sua capa. Chegando ao pátio, deixou as ruínas do castelo e entrou na velha capela. No coro, olhou atenta e cuidadosamente ao redor. Um silêncio mortal reinava no santuário deserto, apenas rompido pelo murmúrio do vento num espinheiro que crescia lá fora. Woislaw olhara ao redor antes de notar a porta que conduzia à câmara mortuária, lá embaixo; correu em sua direção e desceu. A posição do sol permitia que seus raios penetrassem pelas fendas e iluminasse com tamanha profusão a câmara subterrânea que era possível ler com facilidade as inscrições na parte superior e inferior dos caixões. 

Primeiro o cavaleiro colocou no chão o pacote que até então levara sob o manto, e então, indo de caixão a caixão, por fim deteve-se diante do mais velhos deles. Leu a inscrição atenciosamente, tirou o punhal com cuidado da bainha e tentou levantar a tampa com a ponta da lâmina. Não foi difícil fazê-lo, pois os pregos enferrujados não se prendiam direito à madeira apodrecida. Olhando lá dentro, só um monte de cinzas, alguns restos de roupas e um crânio eram o conteúdo. Ele rapidamente voltou a fechá-lo e passou ao seguinte, saltando os de uma mulher e duas crianças. Ali as coisas tinham mais ou menos a mesma aparência, exceto pelo fato de que o cadáver estava inteiro até que a tampa fosse aberta, desfazendo-se depois em poeira, sendo que uns trapos de linho e ossos eram só o que se podia distinguir. 

No terceiro, no quarto e praticamente na meia dúzia seguinte, os corpos estavam em melhor estado de preservação: em alguns, pareciam uma espécie de múmia marrom-amarelada, enquanto em outros um crânio sem pele coberto de cabelo sorria com escárnio sob as cobertas de seda, veludo ou bordaduras mofadas; todos porém, tinham sido tocados com a repugnante marca da decomposição. Apenas mais um caixão restava para ser inspecionado; Woislaw aproximou-se dele e leu a inscrição. Era a mesma que antes atraíra o Cavaleiro de Fahnenberg: Ezzelin von Klatka, o último que estivera em posse da torre era descrito como jazendo ali dentro. Woislaw encontrou dificuldades em abrir a tampa, dessa vez; e foi apenas com o uso da grande força que por fim conseguiu retirar os pregos. Fez tudo, porém, tão silenciosamente com se temesse acordar alguém que dormisse lá dentro; então ergueu a tampa, e lançou um olhar para o cadáver. 

Um involuntário "Oh" escapou de seus lábios quando ele recuou um passo. Se fosse menor sua expectativa de de se deparar com a visão que se apresentou aos seus olhos, teria ficado bem mais consternado. No caixão estava Azzo, tal como vivia e respirava, e como Woislaw  tinha visto à mesa de jantar apenas um dia antes, ao final da tarde. Seu aspecto, roupas e todo o resto eram os mesmos; além disso ele mais parecia estar dormindo do que morto - nenhum traço de decomposição era visível - havia até mesmo uma coloração rosada em sua face. Somente pela circunstância de que o peito não se movia era possível distingui-lo de alguém que dormisse. Por alguns instantes, Woislaw não se mexeu; só conseguia olhar fixamente para o caixão. Com uma pressa atípica nos movimentos, subitamente agarrou a tampa, que lhe caíra das mãos, e, colocando-a sobre o caixão, bateu os pregos de volta no lugar. Assim que terminou o trabalho, apanhou o pacote que deixara na entrada e, deixando-o sobre o caixão, subiu rapidamente os degraus, deixando a igreja e as ruínas.

O dia se passou. Antes do entardecer, Franziska pediu a seu pai que lhe permitisse sair a cavalo com Woislaw, sob o pretexto de mostrar-lhe a região. Ele, bastante feliz em ver um sinal de melhora em sua filha, no mesmo instante consentiu; assim, acompanhados por um único criado, os dois montaram e deixaram o castelo. Woislaw estava silencioso e sério de maneira incomum. Quando Franziska começou a zombar de sua gravidade e da cura por simpatia que se aproximava, ele replicou que o que havia diante dela não era motivo para risos, e que, embora o resultado fosse com certeza uma cura, ainda assim deixaria marcas indeléveis em sua vida futura.

Em meio a essas palavras, chegaram à floresta, e por fim ao carvalho, onde deixaram os cavalos. Woislaw deu o braço a Franziska, e os dois subiram a colina devagar e em silêncio. Tinham acabado de chegar a uma das semidilapidadas fortificações, de onde podiam ter uma vista do campo aberto, quando Woislaw, falando mais para si mesmo do que para sua companheira, disse:

--- Dentro de um quarto de hora o sol vai se pôr, e uma hora depois a lua terá nascido; é então que tudo terá que ser feito. Logo chegará o momento de começar o trabalho.
--- Então, acho que é hora de me dar alguma idéia do que se trata - disse Franziska, olhando para ele.
--- Bem, minha senhora - ele replicou, virando-se para ela, com grande solenidade na voz ---, eu lhe rogo, Franziska von Fahnenberg, para o ser próprio bem, que, por seu amor ao pai que se mantém fiel à senhora com toda sua alma, pondere bastante sobre minhas palavras, e não me interrompa com perguntas que não posso responder até que o trabalho esteja completo. Sua vida corre o maior perigo devido à doença de que está sofrendo; de fato, a senhora não terá salvação se não cumprir na íntegra o que eu lhe instruir a fazer. Agora, prometa-me que fará irrestritamente tudo o que eu disser; dou-lhe minha palavra de cavaleiro que não é nada contrário aos céus, ou à honra de sua casa; e além disso, é a única maneira de salvá-la. 

Com essas palavras, ele ergueu a mão direita diante da companheira, enquanto erguia a outra na direção do céu, em confirmação de seu juramento.

--- Prometo-lhe - disse Franziska, visivelmente comovida com o tom solene de Woislaw, enquanto tocava sua mão pálida e emagrecida na dele.
--- Então venha; já está na hora - foi o que ele replicou, enquanto a conduzia em direção à igreja. 

Os últimos raios de sol derramavam-se lá dentro pelas janelas quebradas. Entraram no coro, a parte bem mais preservada de toda a construção; ainda havia ali alguns antigos genuflexórios, colocados diante do altar, do qual no entanto nada restava além da pedra trabalhada e de alguns degraus; as pinturas e decorações todas tinham desaparecido.

--- Reze uma Ave-Maria; precisará dela - disse Woislaw, pondo-se ele próprio de joelhos.

Franziska ajoelhou-se ao lado dele, e repetiu uma curta oração. Após alguns instantes, ambos se ergueram.

--- O momento chegou! O sol se põe, e antes que a lua nasça tudo precisa estar acabado - disse Woislaw prontamente.
--- O que devo fazer? - perguntou Franziska alegremente.
--- Está vendo ali aquela câmara mortuária aberta! - respondeu o cavaleiro Woislaw, apontando para a porta e para o lance de escada.  --- Deve descer. Deve ir sozinha; não posso acompanhá-la. Quando chegar à câmara mortuária, encontrará, perto da entrada, um caixão, sobre o qual há um pequeno pacote. Abra esse pacote, e dentro dele encontrará três pregos compridos de ferro e um martelo. Faça uma pequena pausa; mas quando eu começar a repetir o Credo em voz alta, martele com toda sua força, primeiro um prego, depois o segundo e depois o terceiro, na tampa do caixão, até a cabeça.
Franziska ficou aterrada; seu corpo inteiro tremia, e ela não conseguia dizer uma única palavra: Woislaw notou-o.

--- Coragem, minha cara senhora! - ele disse. --- Pense que está nas mãos dos céus, e que, se não for o desejo de seu Criador, nem um único fio de cabelo cairá de sua cabeça. Além disso, repito, não há perigo algum.
--- Bem, então eu obedeço - disse Franziska, reconquistando, em certa medida, sua coragem.
--- O que quer que ouça, o que quer que aconteça dentro do caixão - prosseguiu Woislaw --- não deve ter qualquer efeito sobre a senhora. Enterre os pregos bem fundos, sem hesitar: seu trabalho precisa ter acabado quando minha oração chegar ao fim.

Franziska estremeceu, mas novamente se recobrou.

--- Vou fazê-lo; os céus me darão forças - murmurou suavemente.
--- Há mais uma coisa - disse Woislaw, hesitante -; talvez a mais difícil de todas as que propus, mas sem ela sua cura não será completa. Quando tiver feito o que lhe disse, uma espécie de - ele hesitou - uma espécie de líquido vazará do caixão; nesse líquido molhe seu dedo, e passe-o na ferida em seu pescoço.
--- Isso é horrível! - exclamou Franziska. --- Esse líquido é sangue. Um ser humano jaz no caixão.
--- Um ser sobrenatural jaz ali! O sangue é o seu próprio, mas corre em outras veias - disse Woislaw, sombrio. --- Não faça mais perguntas; o tempo está se esgotando. 

Franziska reuniu todas as forças de sua mente e de seu corpo, seguiu na direção dos degraus que levavam à câmara mortuária, e Woislaw caiu de joelhos diante do altar, numa oração silenciosa.

Depois que a dama desceu, encontrou-se diante do caixão sobre o qual estava o pacote antes mencionado. Uma espécie de penumbra reinava na câmara mortuária, e tudo ao redor estava tão quieto e pacífico que ela se sentiu mais calma e, aproximando-se do caixão, abriu o pacote. Mal vira que um martelo e três pregos longos eram seu conteúdo quando a voz de Woislaw subitamente ecoou pela igreja, rompendo a quietude das naves laterais. Franziska se alarmou, mas reconheceu a oração específica. Agarrou um dos pregos e, com um golpe do martelo, enterrou-o pelo menos uns dois centímetros na tampa. Tudo estava quieto; nada se ouviu além do eco do golpe. Tomando coragem, a donzela agarrou o martelo com ambas as mãos e golpeou duas vezes o prego com toda sua força, enterrando-o até a cabeça na madeira.

Nesse momento, começou a se ouvir um farfalhar; era como se algo no interior começasse a se mexer e se debater. Franziska recuou, alarmada. Já estava a ponto de largar o martelo e correr escada acima quando Woislaw ergueu sua voz com tamanho vigor, e de maneira tão suplicante, que, numa espécie de arrebatação, como a que induz alguém a correr para dentro do covil de um leão, ela regressou para junto do caixão, determinada a levar o plano a uma conclusão. Mal sabendo o que fazia, colocou um segundo prego no centro do caixão, e, depois de alguns golpes também ele estava enterrado até a cabeça. O violento debater-se aumentou assustadoramente, como se alguma criatura viva estivesse tentando arrebentar o caixão - de tal modo abalado que rachou e trincou em todos os lados.

Meio distraída, Franziska pegou o terceiro prego; ela não pensava mais em sua doença, apenas sabia estar correndo um perigo terrível, de uma natureza que não tinha como adivinhar: numa agonia que ameaçava privá-la de seus sentidos, e em meio aos abalos e estalos do caixão, no qual gemidos baixos agora podiam ser ouvidos, ela martelou o terceiro prego, enterrando-o igualmente fundo. Nesse momento, começou a perder a consciência. Queria sair dali correndo, mas cambaleou; e, mecanicamente tentando se agarrar a algo que a amparasse, segurou a beirada do caixão e caiu no chão ao lado dele, desmaiando.

Um quarto de hora devia ter se passado quando ela abriu novamente os olhos. Olhou ao seu redor. Acima dela estava a céu estrelado, e a lua, que lançava sua luz fria sobre as ruínas e as copas dos velhos carvalhos. Franziska estava deitada do lado de fora da igreja, Woislaw de joelhos ao seu lado, segurando suas mãos nas dele.

--- Que os céus sejam louvados, a senhora está viva! - ele exclamou, com um suspiro de alívio. --- Eu estava começando a duvidar se o remédio não teria sido forte demais, e no entanto era a única possibilidade de salvá-la. 

Só aos poucos Franziska recobrou de todo a consciência. O passado lhe parecia um sonho assustador. Apenas alguns momentos antes, aquela cena pavorosa; e agora aquela quietude em toda parte ao seu redor. Ela mal ousara, a princípio, erguer os olhos, e estremeceu quando descobriu ter sido removida apenas alguns passos do lugar onde suportara tão terrível agonia. Ouvia, parcialmente inconsciente, ora às palavras mitigantes que Woislaw lhe dirigia, ora o assobio do criado, que estava com os cavalos, e que, para passar o tempo, estava imitando a canção de um vaqueiro errante ao cair da noite.

--- Vamos embora - sussurrou Franziska, enquanto tentava se erguer. --- Mas o que é isto? Meu ombro está molhado, meu pescoço, minha mão...
--- Provavelmente é o orvalho da tarde na grama - disse Woislaw, delicadamente.
--- Não; é sangue! - ela exclamou, pondo-se de pé num salto e com um tom horrorizado na voz. --- Veja, minha mão está cheia de sangue.
--- Ah, a senhora se engana, com certeza - disse Woislaw, gaguejando. --- Ou talvez a ferida em seu pescoço tenha se aberto! Por favor, veja se é o caso - ele segurou-lhe a mão e a dirigiu ao local.
--- Não noto coisa alguma; não sinto dor - ela disse por fim, um tanto irritada.
--- Então, talvez ao desmaiar a senhora tenha batido num canto do caixão, ou tenha se cortado com a ponta de um dos pregos - sugeriu Woislaw.
--- Ah, de que o senhor me recorda! - exclamou ela, estremecendo. --- Vamos embora - embora! Eu lhe rogo, venha! Não permanecerei mais um instante perto deste lugar tão medonho.

Desceram o caminho muito mais rapidamente do que tinham subido. Woislaw instalou sua companheira no cavalo, e logo estavam a caminho de casa. Quando se aproximaram do castelo, Franziska começou a despejar sobre seu protetor perguntas a respeito da recente aventura; mas ele declarou que o estado de agitação em que ela se encontrava teria que fazê-lo adiar todas as explicações até a manhã seguinte, quando sua curiosidade seria satisfeita. Ao chegarem, ele a conduziu imediatamente ao quarto e disse ao cavaleiro que sua filha estava cansada demais com a cavalgada para comparecer à mesa do jantar.

Na manhã seguinte, Franziska acordou mais cedo do que andava acordando havia um bom tempo. Garantiu à sua amiga que pela primeira vez desde que sua doença começara ela tinha se sentido realmente revigorada pelo sono, e, o que era ainda mais notável, não tinha sido incomodada por seu velho e terrível sonho. Seu aspecto, que estava melhor, foi notado não apenas por Bertha, mas também por Franz e pelo cavaleiro; e, com a permissão de Woislaw, ela relatou as aventuras da tarde anterior. Ela mal concluíra o relato, e choveram perguntas sobre Woislaw acerca de uma ocorrência tão estranha.

--- Por acaso - disse esse último, voltando-se para o anfitrião --- já ouviu falar em vampiros?
--- Com frequencia - ele respondeu ---, mas jamais acreditei neles.
--- Nem eu - disse Woislaw ---, mas a experiência me convenceu de sua existência.
--- Ah, conte-nos o que aconteceu --- exclamou Bertha, ansiosa, e seu rosto pareceu se iluminar.
--- Foi durante minha primeira campanha na Hungria - começou Woislaw ---, quando fiquei incapacitado de lutar por algum tempo devido a este corte de espada de um janízaro em meu rosto, e outro em meu ombro. Tinha sido levado para a casa de uma respeitável família numa cidadezinha. Esta consistia no pai e na mãe, e numa filha de cerca de 20 anos de idade. Ganhavam a vida vendendo o excelente vinho da região, e a taverna estava sempre cheia de visitantes. Embora a família fosse próspera, parecia pesar sobre eles uma melancolia contínua, causada pela constante doença de filha única, uma ótima moça, e muito bonita. Ela sempre fora viçosa como uma rosa, mas fazia alguns meses que estava se tornando tão magra e debilitada, e isso sem qualquer motivo satisfatório: tentavam de todas as formas fazer com que se recuperasse, mas em vão. Como o exército estava acampando nos arredores, é claro que uma quantidade de pessoas de todos os países se reunia na taverna. Entre elas havia um homem que vinha todas as noites, quando a lua brilhava, e que impressionava a todos pela peculiaridade de suas maneiras e sua aparência; parecia seco e cadavérico, e praticamente não falava; mas tudo o que dizia era amargo e sarcástico. Grande atenção despertou o fato de que, embora ele sempre pedisse uma taça do melhor vinho e de vez em quando a levasse aos lábios, a taça sempre estava cheia depois que ele partia.
--- Isso tudo coincide perfeitamente com o aspecto de Azzo - disse Bertha, com profundo interesse.
--- A filha da casa - continuou Woislaw --- piorava a cada dia, apesar da ajuda não apenas de médicos cristãos, mas também de muitos entre os prisioneiros pagãos, que foram consultados na esperança de que talvez tivessem algum remédio mágico a sugerir. Era singular o fato de que a garota sempre reclamava de um sonho, no qual o desconhecido que frequentava a taverna a afligia e importunava.

--- Exatamente como seu sonho, Franziska - exclamou Bertha.

--- Certa noite - retomou Woislaw ---, um velho eslavônio - que fizera muitas viagens à Turquia e à Grécia, e que chegara mesmo a ver o Novo Mundo - e eu estávamos sentados, tomando nosso vinho, quando o estranho entrou, e sentou-se à mesa. A garrafa corria rapidamente entre meu amigo e eu, enquanto conversávamos sobre todo tipo de assunto, sobre nossas aventuras, sobre momentos de nossas vidas, tanto horríveis, quanto divertidos. Continuamos conversando assim por cerca de uma hora, e bebemos uma quantidade razoável de vinho. O desconhecido ficara inteiramente em silêncio o tempo todo, limitando-se a sorrir com desdém vez por outra. Pagara sua conta, e estava indo embora. Tudo isso me preocupava um pouco - talvez o vinho me tivesse subido ligeiramente à cabeça - e eu disse ao estranho: "Espere, estranho impassível; até o momento o senhor não fez nada além de escutar, e sequer esvaziou sua taça. Agora é sua vez de nos contar algo divertido, e se não beber nosso vinho, haverá uma briga entre nós.""Sim," disse o eslavônio, "o senhor tem que ficar; vai conversar e beber também", e ele agarrou - pois, embora já não fosse jovem, era grande e muito forte - o estranho pelo ombro, para puxá-lo de volta ao assento: esse último, porém, embora magro com um esqueleto, com um movimento da mão jogou o eslovônio no meio do salão, deixando-o atordoado por um momento. Eu então me aproximei para conter o estranho. Segurei-o pelo braço; e embora as molas de minha mão de ferro fossem menos poderosas do que as que tenho hoje, devo tê-lo agarrado com muita força, devido à minha ira, pois, depois de me olhar ferozmente por um instante, ele se inclinou diante de mim e sussurrou em meu ouvido: "Deixe-me ir: pela força de seu punho, vejo que é meu irmão, e portanto não retarde a busca de minha refeição de sangue. Estou com fome!" Surpreso com essas palavras, soltei-o, e quase antes que eu me desse conta disso ele deixou o salão. Assim que eu havia me recobrado minimamente de meu assombro, contei ao eslovônio o que ouvira. Ele se sobressaltou, evidentemente alarmado. Perguntei-lhe qual a causa de seu medo, e insisti para que me desse uma explicação sobre aquelas palavras extraordinárias. No caminho para o seu quarto, ele aquiesceu. "O estranho", ele disse, "é um vampiro!"

--- Como? - exclamaram o cavaleiro, Franziska e Bertha, simultaneamente, o horror evidente em sua voz. --- Então esse Azzo era...
--- Nada menos que isso. Ele também era um vampiro! - replicou Woislaw. --- Mas de qualquer modo a sua sede dos infernos passou para sempre; ele jamais retornará. Mas não terminei. Como em meu país nunca se ouvira falar em vampiros, fiz perguntas detalhadas ao eslovônio. Ele disse que na Hungria, Croácia, Dalmácia e Bósnia esses visitantes infernais não eram incomuns. Eram pessoas mortas que ou tinham servido de alimento a vampiros ou tinham morrido em pecado mortal, ou excomungadas; e sempre que a lua brilhava, saíam de seu túmulos e sugavam o sangue dos vivos.
--- Que horrível! - exclamou Franziska.  --- Se tivesse me contado isso antes, eu jamais teria realizado a tarefa. 
--- Foi o que pensei; e no entanto esta precisa ser executada pelas próprias vítimas, enquanto outra pessoa se incumbe das rezas - replicou Woislaw. --- O eslovônio - prosseguiu ele, após uma curta pausa ---, acrescentou muitos outros detalhes acerca desses visitantes sobrenaturais. Disse que, enquanto sua vítima definhava, eles melhoravam de aparência, e que um vampiro possuía uma força imensa...
--- Agora compreendo a mudança que sua mão falsa causou em Azzo - interrompeu Franz.
--- Sim, foi isso - replicou Woislaw. --- Azzo, bem como o outro vampiro, confundiu a enorme força de minha mão com a de um vampiro, e concluiu que eu era de sua espécie. Pode agora imaginar, minha cara senhora - ele prosseguiu voltando-se para Franziska --- quão alarmado fiquei com sua aparência quando cheguei: tudo o que a senhora e Bertha me diziam aumentava minha ansiedade; e quando vi Azzo, não tive mais dúvidas de que ele era um vampiro. Como soube, por seu relato, que havia nos arredores um túmulo com o nome de Ezzelin von Klatka, não tive dúvidas de que a senhora poderia ser salva se eu conseguisse convencê-la a me ajudar. Não me pareceu aconselhável relatar todos os detalhes do caso, pois sua força física estava tão debilitada que uma idéia dos horrores que havia diante da senhora poderia tê-la deixado impossibilitada de agir; por essa razão, cuidei para que tudo se desse da maneira como enfim se deu.
--- Agiu com sabedoria - replicou Franziska, estremecendo. --- Jamais conseguirei ser-lhe suficientemente grata. Se eu soubesse o que seria exigido de mim, jamais teria realizado a tarefa.
--- Era o que eu temia - disse Woislaw ---; mas a sorte nos favoreceu do princípio ao fim.
--- E o que houve com a infeliz moça na Hungria? - perguntou Bertha.
--- Não sei - respondeu Woislaw. --- Naquela mesma noite houve um alarme da aproximação dos turcos, e fomos mandados embora. Nunca mais tive notícias dela.

A conversa sobre aqueles estranhos acontecimentos prosseguiu por algum tempo. O cavaleiro determinou que a câmara mortuária em Klatka fosse fechada para sempre. Isso se deu no dia seguinte; o cavaleiro alegou como razão o fato de que não queria os mortos importunados por mãos irreverentes.

Franziska se recuperou aos poucos. Sua saúde fora tão seriamente abalada que um longo tempo se passou até que ela estivesse suficientemente revigorada a ponto de considerarem-na fora de perigo. O temperamento da jovem sofreu uma grande mudança no intervalo. Seu vigor inicial talvez tivesse, em um certo nível, diminuído, mas em lugar dele ela adquiriu uma delicadeza benevolente, que trouxe à tona todas as suas melhores qualidades. Franz continuou dedicando suas atenções à prima; mas, talvez seguindo um conselho de Bertha, era menos assíduo em exibi-las. Suas inclinações não o levaram à batalha, à vida militar ou à conquista de honrarias; seu principal objetivo era melhorar a condição e aumentar a felicidade de seus servidores, e para tanto ele empenhava toda a energia de sua mente. Franziska não conseguiu resistir aos sinais discretos da contínua devoção do jovem; e não se passou muito tempo até que o crédito que ela se via obrigada a dar aos seus nobres esforços pelo bem-estar de seus semelhantes se transformasse em afeto, que continuou crescendo, até que por fim assumiu as características do amor.

Como Woislaw insistisse em fazer de Bertha sua esposa antes de regressar à Silésia, foram tomadas as providências para que o casamento se desse em sua presente moradia. Que surpresa feliz teve o Cavaleiro de Fahnenberg quando sua filha e Franz de igual modo suplicaram suas bênçãos, e manifestaram o desejo de ser unidos no mesmo dia! Essa data logo chegou, e viu as expressões radiantes de dois felizes casais.

FIM

Referência:
COSTA, Flavio Moreira da. (org.). 13 de melhores contos de vampiros. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. 

p.s. Para quem se interessa pelo assunto é uma ótima dica de leitura, os contos compilados no livro são uma excelente seleção.

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