O estranho misterioso (parte três)

Na manhã seguinte, Franziska ficou por mais tempo do que o habitual na cama. Quando sua amiga foi até seu quarto, temendo que ela estivesse doente, encontrou-a pálida e exaurida. Franziska queixou-se de ter passado uma noite péssima; achava que a discussão com Franz acerca do estranho devia tê-la agitado muito, pois ela se sentia bastante febril e exausta, e além disso fora atormentada por um estranho sonho, que evidentemente era uma consequência da conversa que tinham tido à noite. 

Bertha, como de hábito, tomou o partido do jovem, e acrescentou que uma discussão corriqueira sobre um homem que ninguém conhecia, e sobre o qual todos podiam formam suas próprias opiniões, não a teria de modo algum levado ao presente estado. 

--- Pelo menos -  ela prosseguiu --- você pode me deixar ouvir esse sonho maravilhoso. 

Para sua surpresa, Fraziska recusou-se  por algum tempo a fazê-lo. 

--- Vamos, conte-me - perguntou Bertha --- o que pode impedi-la de contar um sonho -, um simples sonho? Eu chegaria até mesmo a achar, se a ideia não fosse tão horrível, que o pobre Franz não está totalmente errado quando diz que o magro, cadavérico, seco e antiquado estranho causou em você uma impressão mais forte do que diz. 
--- Franz disse isso? - perguntou Franziska --- Então pode contar a ele que não está enganado. Sim, acho o magro, cadavérico, seco e exdrúxulo estranho mais interessante do que o corado, bem vestido, polido e aborrecido primo. 
--- Estranho - disse Bertha. --- Não consigo em absoluto compreender a influência quase mágica que esse homem tão repulsivo exerce sobre você. 
--- Talvez a razão mesma que me leva a tomar seu partido seja o fato de todos vocês serem tão preconceituosos com relação a ele - observou Franziska, impertinente. --- Sim, deve ser isso; pois o fato de sua aparência agradar meus olhos é algo que ninguém em sã consciência poderia imaginar. Mas - ela prosseguiu, sorrindo e se aproximando de Bertha - não é risível que eu perca a paciência até mesmo com você por causa desse estranho? Compreendo isso melhor se for com Franz e que esse desconhecido estrague a minha manhã, como já estragou minha noite e meu sono?
--- Através do sonho, você quer dizer? - perguntou Bertha, facilmente apaziguada, enquanto colocava o braço em volta do pescoço da prima e a beijava. --- Agora, conte-o para mim. Sabe como gosto de ouvir coisas desse tipo. 
--- Bem, é uma sorte de compensação pelo mau humor para com você - disse a outra, segurando as mãos da amiga. --- Agora, escute! Eu andara para um lado e para o outro, no meu quarto, por um bom tempo; estava exaltada - deprimida -, não sei exatamente o quê. Era quase meia-noite quando me deitei, mas não conseguia dormir. Fiquei me virando na cama, e por fim foi a pura exaustão que me derrubou. Mas que sono foi esse! Um medo interno me dominava o tempo todo. Vi alguns desenhos diante de meus olhos, como acontecia quando era criança e ficava doente. Não sei se estava dormindo ou meio acordada. Então sonhei, mas com tanta nitidez que foi como se estivesse completamente desperta, que uma espécie de névoa invadia o quarto, e dele saía o cavaleiro Azzo. Ele me olhou durante algum tempo, e então, baixando devagar até ficar num dos joelhos, beijou meu pescoço. Seus lábios ficaram ali durante muito tempo; e senti uma leve dor, que aumentava sem parar, até que não consegui mais suportá-la. Com toda a minha força tentei afastar a visão de mim, mas só consegui depois de me esforçar durante muito tempo. Não há dúvida de que gritei pois isso me despertou de meu transe. Quando recobrei um pouco os sentidos, notei uma espécie de medo supersticioso se apossar de mim - o tamanho desse medo você poderá imaginar quando lhe disser que, com meus olhos abertos e acordada, pareceu-me que o vulto de Azzo ainda estava junto à minha cama, e então, desaparecendo gradualmente em meio à névoa, sumiu junto à porta!
--- Você deve ter tido um sonho muito intenso, minha pobre amiga - começou Bertha, mas de repente se interrompeu. Ficou olhando surpresa para o pescoço de Franziska. --- Ora, o que é isso?! - exclamou --- Veja só: que coisa extraordinária, um traço vermelho em seu pescoço!

Franziska se levantou e foi até um pequeno espelho que ficava na janela. De fato viu um traço vermelho com uns dois centímetros e meio de extensão em seu pescoço, que começou a doer quando ela o tocou com o dedo. 

--- Devo ter de algum modo me cortado enquanto dormia  - ela disse, depois de uma pausa -; e isso num certo sentido, explica meu sonho.

As amigas continuaram conversando durante algum tempo sobre aquela singular coincidência - o sonho e o estrangeiro; e por fim Bertha transformou tudo numa brincadeira. 

Várias semanas se passaram. O cavaleiro encontrara a propriedade e os negócios em maior desordem do que imaginara a princípio; e em vez de ficarem três ou quatro semanas, como originalmente pretendiam, sua partida foi adiada por um período indefinido. Esse adiamento também foi em grande medida ocasionado pela contínua indisposição de Franziska. Ela, que inicialmente florescera como uma rosa em sua beleza cheia de juventude e frescor, tornava-se a cada dia mais magra, adoentada, exaurida, e ao mesmo tempo tão pálida que no espaço de um mês nem mesmo o mais leve tom de vermelho era perceptível em sua face outrora radiante. A ansiedade do cavaleiro com relação a ela era intensa, e procuraram as melhores orientações dentro dos limites daquela época e daquele lugar; mas tudo sem resultado. Franziska queixava-se de tempos em tempos de que o terrível sonho com o qual sua enfermidade começara se repetia, e que sempre no dia seguinte ela sentia uma fraqueza maior e indescritível. Bertha naturalmente debitava isso aos efeitos da febre, mas os estragos dessa febre no juízo normalmente são de sua amiga a alarmavam muito. 

O cavaleiro Azzo repetia suas visitas de tempos em tempos. Sempre chegava à tardinha, e quando a lua brilhava com intensidade. Sua conduta era sempre a mesma. Falava em monossílabos, e era friamente cortês com o cavaleiro; com Franz e Bertha, particularmente com o primeiro, era desdenhoso e arrogante; mas com Franziska, era a afabilidade em pessoa. Frequentemente, quando, após uma breve visita, ele deixava a casa, suas particularidades tornavam-se assunto de conversa. Além de sua maneira estranha de falar, na qual dizia Bertha haver um ódio profundo, uma fria aversão por toda a humanidade, à exceção de Franziska, duas outras singularidades eram observáveis. Em nenhuma das suas visitas, que com frequencia se davam à hora do jantar, ele foi persuadido a comer ou beber o que quer que fosse, e isso sem fornecer qualquer motivo razoável para sua abstinência. 

Uma alteração notável também ocorrera em seu aspecto: parecia uma criatura inteiramente diferente. A pele, antes tão enrugada e estirada, parecia suave e macia, enquanto um suave tom avermelhado surgira em suas faces, que começaram a parecer arredondadas e roliças. Bertha, que não conseguia em absoluto esconder sua má vontade para com ele, dizia com frequencia que, por mais que detestasse seu rosto antes, quando ele parecia mais uma caveira do que um ser humano, agora era mais do que nunca repulsivo; ela sempre sentia um calafrio correr-lhe pelas veias quando seus olhos incisivos e penetrantes a fitavam. Talvez se devesse à parcialidade de Franziska, ou à forma desdenhosa com que o cavaleiro Azzo respondia a Franz, ou à maneira arrogante com que em geral o tratava, o fato de que a jovem gostasse cada vez menos dele. 

Era possível observar que, todas as vezes que Franz fazia um comentário dirigido à sua prima na presença de Azzo, esse último imediatamente lançava sobre o assunto alguma luz perniciosa, de modo a distorcê-lo e fazer com que ganhasse um significado inteiramente diferente. Isso aumentava dia após dia, e por fim Franz disse a Bertha que não mais suportaria aquela conduta, e que apenas por consideração a Franziska ainda não o desafiara para um acerto de contas.

Nessa época, o grupo no castelo se viu aumentado com a chegada do convidado longamente aguardado de Bertha. Ele chegou no momento exato em que estavam se sentando para jantar, no fim da tarde, e todos correram a saudar o velho amigo. O cavaleiro Woislaw era um verdadeiro modelo de soldado, endurecido e fortalecido pela guerra com os homens e os elementos. Seu rosto não seria definido como feio se um sabre turco não tivesse deixado uma marca, do olho direito até a face esquerda, que sobressaía num vermelho vivo da pele queimada de sol. A constituição do Castelão de Gloucau quase poderia ser dita colossal. Poucos seriam capazes de carregar sua armadura, e menos ainda se mover com sua agilidade e desenvoltura sob tal peso. Ele não tinha a dita armadura em pouca estima, pois tinha sido um presente do palatino da Hungria, ao deixar o campo. O ferro batido azul era todo ornamentado com padrões em ouro; e ele a colocara para honrar sua noiva, junto com a maravilhosa mão de ouro, presente do duque. 

O cavaleiro e Franz fizeram a Woislaw perguntas sobre todos os detalhes da campanha; e ele relatou nos mínimos detalhes as batalhas, que, com relação à pilhagem, tinham sido mais bem-sucedidas do que nunca. Ele falou bastante sobre a força dos turcos no combate corpo a corpo, e sublinhou que devia ao duque muitos agradecimentos por seu esplêndido presente, pois em consequência de sua força muitos dos inimigos o consideravam como algo de sobre-humano. O aspecto doentio e a palidez mortal de Franziska eram perceptíveis demais para não serem notadas de imediato por Woislaw; acostumado a vê-la fresca e alegre, ele se apressou em perguntar a causa da mudança. Bertha relatou tudo o que ocorrera, e Woislaw escutou com maior interesse - que atingiu o ponto máximo no relato do sonho recorrente, do qual Franziska teve que lhe contar as mais detalhadas particularidades. Ele parecia já ter se deparado com um caso similar antes, ou pelo menos ouvira falar a respeito de um. Quando a jovem acrescentou o fato notável de que a ferida em seu pescoço, que reparara no começo de tudo, não cicatrizava, e ainda lhe doía, o cavaleiro Woislaw olhou para Bertha como se dissesse aquele último aumentara em muito sua convicção numa ideia acerca da origem da doença de Franziska. 

Era mais do que natural que o tema da coversa passasse, em seguida, a ser o cavaleiro Azzo, sobre quem todos começaram a falar com avidez. Woislaw perguntou com tantos detalhes quanto fizera com respeito à doença de Franziska sobre tudo o que se referia àquele estranho, desde a tarde em que o conheceram até sua última visita, sem, no entanto, dar qualquer opinião sobre o assunto. O grupo ainda estava entregue àquela grave conversa quando a porta se abriu e Azzo entrou. Os olhos de Woislaw permaneceram fixos nele, enquanto o cavaleiro, sem reparar o recém-chegado, caminhou até a mesa e, sentando-se, pôs-se a conversar sobretudo com Franziska e seu pai, fazendo, vez por outra, algum comentário sarcástico quando Franz começava a falar. A guerra turca mais uma vez veio à tona, e embora Azzo só fizesse comentários ocasionais, Woislaw tinha muito a dizer sobre o assunto. Assim, avançaram até tarde, noite adentro, e Fraz disse, sorrindo, para Woislaw:

--- Eu não ficaria espantado se o dia nos surpreendesse, enquanto ouvimos as suas interessantes aventuras. 
--- Admiro o gosto do jovem cavalheiro - disse Azzo, franzindo de maneira irônica o lábio. --- É melhor, de fato, ouvir histórias de tempestades e naufrágios em terra firme, e as de batalhas e mortes numa mesa hospitaleira ou junto à chaminé. Tem-se então a sensação confortável de se manter ileso, e de não correr perigo algum, nem mesmo o de apanhar um resfriado. 

Com essas últimas palavras, deu uma risada rouca, e, virando as costas a Franz, ergueu-se, inclinou-se diante do resto do grupo e deixou o salão. O cavaleiro, que sempre acompanhava Azzo até a porta, alegou estar cansado - e deu boa-noite aos amigos.

--- Essa impertinência de Azzo é intolerável! - exclamou Bertha depois que ele se foi. --- Torna-se cada dia mais rude, descortês e presunçoso. Só em saber do sonho de Franziska, embora é claro que não seja culpa dele, eu o detesto. Ora, hoje nem uma única palavra de cortesia foi dita a qualquer um de nós, exceto a Franziska, e, talvez, algum comentário ocasional a meu tio. 
--- Não posso negar que você esta certa, Bertha - disse sua prima. --- Pode-se perdoar um homem que o destino provavelmente tornou um tanto insociável; mas ele não devia ultrapassar as fronteiras da cortesia habitual. Mas onde diabos está Franz? - acrescentou Franziska, olhando inquieta ao redor. 

O jovem tinha deixado em silêncio o salão enquanto Bertha falava.

--- Não terá seguido o cavaleiro Azzo para desafiá-lo? - exclamou Bertha, alarmada. 
--- Seria melhor que entrasse no covil de um leão e puxasse sua juba! - disse Woislaw, veementemente. --- Preciso ir atrás dele agora mesmo. - acrescentou, e saiu às pressas do salão.

Passou rapidamente pelo pórtico, saiu do castelo e atravessou o pátio até chegar onde estavam os dois. Ali, uma ponte estreita com uma frágil balaustrada passava sobre a vala que circundava o castelo. Aparentemente, Franz acabara de dirigir a Azzo umas palavras violentas, pois quando Woislaw, sem ser notado pelo outro, avançou sob a sombra do muro, Azzo disse, lúgubre:

--- Deixe-me, rapaz tolo. Deixe-me; pois juro por aquele sol - e ele apontou para a lua tranquila sobre eles --- que você não verá mais seus raios se permanecer mais um minuto em meu caminho. 
--- E eu lhe digo, infeliz, que ou me dá uma explicação por sua repetida insolência, ou morre - exclamou Franz, desembainhando a espada. 

Azzo estendeu a mão, e, agarrando a espada pelo meio, quebrou-a como se fosse um junco. 

--- Vou adverti-lo pela última vez - disse, numa voz de trovão, enquanto jogava os pedaços na vala. --- Agora vá embora, vá embora do meu caminho, ou, por aqueles abaixo de nós, está perdido!
--- Você ou eu! Você ou eu! - exclamou Franz desvairadamente enquanto fazia uma investida na direção da espada de seu adversário e tentava tirá-la dele. 

Azzo não respondeu; apenas uma risada cruel escapou de seus lábios; então, agarrando Franz pelo peito, levantou-o como uma criança, e estava prestes a jogá-lo por sobre a ponte quando Woislaw pôs-se ao seu lado. Agarrando o braço de Azzo com sua maravilhosa mão, em cujas molas empregou toda sua força, ele puxou-o para baixo e o obrigou a soltar a vítima. Azzo pareceu extremamente surpreso. Sem voltar a dar atenção a Franz, fitou com assombro Woislaw. 

--- Quem és, que ousas me roubar minha presa? - perguntou, hesitante. --- Será possível? Será que é...
--- Não pergunte, criatura sanguinária! Vai buscar teu alimento! Logo a tua hora vai chegar! - replicou Woislaw num tom calma, mas firme.
--- Ah, agora eu sei! - exclamou Azzo, animadamente. --- Bem-vindo, irmão de sangue! Dou-lhe este verme, e por você não vou esmagá-lo. Adeus; em breve nossos caminhos hão de se cruzar outra vez. 
--- Em breve, muito em breve; adeus! - exclamou Woislaw, puxando Franz em sua direção. 

Azzo se afastou às pressas, desaparecendo. Franz ficara por alguns instantes num estado de estupefação, mas de repente sobressaltou-se, como se despertasse de um sonho.

--- Estou desonrado, desonrado para sempre! - exclamou, pressionando as mãos cerradas sobre a testa. 
--- Acalme-se; você não teria como vencer - disse Woislaw.
--- Mas vou vencer, ou então morrer! - exclamou Franz, enfurecido. --- Vou buscar esse aventureiro em seu covil, e um de nós morrerá, ou ele ou eu. 
--- Você não conseguirá feri-lo - disse Woislaw. --- Você mesmo seria infalivelmente a vítima. 
--- Então me mostre uma maneira de fazer esse infeliz pagar - exclamou Franz, agarrando as mãos de Woislaw, enquanto lágrimas de raiva vinham-lhe aos olhos. --- Desgraçado como estou, não posso viver. 
--- Você será vingado, e isso dentro de vinte e quatro horas, espero; mas só com duas condições...
--- Concordo com elas! Farei qualquer coisa... - começou o jovem, ansiosamente. 
--- A primeira é que não faça nada, e deixe tudo em minhas mãos - interrompeu Woislaw. --- A segunda é que me ajude a persuadir Franziska a fazer o que eu lhe disser ser absolutamente necessário. Azzo representa um perigo maior à vida dessa jovem do que à sua. 
--- Como? O quê? - exclamou Franz, furioso. --- A vida de Franziska em perigo! E por causa daquele homem? Diga-me, Woislaw, quem é esse demônio?
--- Não direi uma palavra à jovem ou a você, até que o perigo tenha passado - disse Woislaw com firmeza. --- A menor indiscrição arruinaria tudo. Ninguém pode agir neste caso a não ser a própria Franziska, e se ela se recusar a fazê-lo, estará irremediavelmente perdida.
--- Fale, e eu vou ajudá-lo. Farei tudo o que quiser, mas preciso saber...
--- Nada, absolutamente nada - replicou Woislaw. --- Preciso que você e Franziska concordem comigo incondicionalmente. Venha, agora, venha ter com ela. Deve manter silêncio sobre o que se passou, e fazer todos os esforços para induzi-la a concordar com minha proposta. 

Woislaw falou com firmeza, e era impossível para Franz fazer qualquer outra objeção; em poucos instantes, ambos entraram no salão, onde encontraram as jovens ainda esperando ansiosas por eles. 

--- Ah, fiquei tão assustada - disse Franziska, mais pálida do que o habitual, enquanto estendia a mão para Franz. --- Imagino que tudo tenha acabado de maneira pacífica. 
--- Tudo se arranjou; algumas palavras foram suficientes para pôr um ponto final na questão - disse Woislaw alegremente. --- Mas o Mestre Franz estava menos envolvido do que a senhora, minha cara dama. 
--- Eu! O que quer dizer?
--- Refiro-me à sua doença - respondeu o outro.
--- E o senhor falou sobre isso com Azzo? Ele conhece, então, um remédio que não podia me revelar ele mesmo? - perguntou ela, sorrindo penosamente.
--- O cavaleiro Azzo terá que participar de sua cura; mas falar sobre ela com a senhora ele não pode, do contrário o remédio perderia toda a eficácia - respondeu Woislaw, calmamente. 
--- Então é algum elixir secreto, como dizem os sábios médicos que há tanto tempo cuidam de mim, e através de cujos métodos eu só faço piorar - disse Franziska, pesarosamente.
--- Com certeza é algo secreto, mas também é, com certeza, uma cura - respondeu Woislaw.
--- Foi o que todos disseram, mas nenhum teve sucesso - retrucou a jovem, impaciente. 
--- Você poderia pelo menos tentar - começou Bertha.
--- Porque o seu amigo o está propondo - disse o outro, sorrindo. --- Não tenho dúvidas de que, mesmo que não estivesse adoentada, tomaria todos os tipos de drogas para agradar ao seu cavaleiro; mas comigo falta o estímulo, logo falta também a fé. 
--- Eu não falava de remédios - disse Woislaw.
--- Ah! Um remédio mágico! Serei curada - como foi que disse o charlatão que esteve aqui outro dia? - "através de uma simpatia." Sim, foi isso.
--- Não me oponho a que a senhora defina desse modo, se quiser - disse Woislaw, sorrindo -; mas precisa saber, cara senhora, que as providências que vou propor precisam ser tomadas ao pé da letra, e de acordo com as mais rígidas instruções. 
--- Acha que eu seria capaz? - perguntou Franziska.
--- Certamente - disse Woislaw, hesitante ---, mas...
--- Bem, por que não continua? Será que pensa que não terei coragem? - ela perguntou.
--- A coragem com certeza é necessária para o sucesso do meu plano - disse Woislaw, sério ---; e é por acreditar que a senhora possui com intensidade essa virtude que me atrevo a fazer tal proposta, embora empenhe minha vida na garantia de que o remédio não lhe fará mal, desde que a senhora siga exatamente as minhas instruções.
--- Bem, diga-me qual é o plano, e então poderei decidir - disse a jovem.
--- Só poderei dizer quando começarmos nossas operações - replicou Woislaw. 
--- Acha que sou uma criança para ser mandada para lá e para cá sem uma razão? - perguntou Franziska, com algo de sua antigo impertinência.
--- Estaria sendo muito injusta comigo, minha cara senhora, se pensasse por um instante que eu haveria de lhe propor algo desagradável, a menos que a mais rígida necessidade assim o exigisse - disse Woislaw ---, e no entanto só posso repetir minhas palavras anteriores.
--- Então não concordarei - disse Franziska. --- Já tentei tanta coisa, e tudo foi sem efeito.
--- Dou-lhe minha honra de cavaleiro na garantia de que sua cura é certa, mas a senhora precisa se comprometer de modo solene e incondicional a fazer irrestritamente tudo o que eu orientar - disse Woislaw, com grande fervor. 
--- Ah, imploro-lhe que consinta Franziska. Nosso amigo não haveria de propor medidas desnecessárias - disse Bertha, tomando as mãos da prima.
--- E deixe que eu acrescente minhas súplicas às de Bertha - disse Franz. 
--- Como vocês todos estão estranhos! - exclamou Franziska, meneando a cabeça. --- Fazem tamanho segredo sobre algo de que preciso estar a par, se devo realizar, e depois declaram com tanta segurança que vou me recuperar, quando meus próprios sentimentos me dizem que não há esperanças.
--- Repito, responderei pelo resultado - disse Woislaw --- na condição que mencionei antes, e de que a senhora tenha coragem de levar a cabo o que começar.
--- Ah! Agora eu compreendo; isso, no final das contas, é tudo o que lhe parece duvidoso - exclamou Franziska. --- Bem, para lhe mostrar que ao nosso sexo não faltam coragem nem a vontade nem a força para cumprir atos corajosos, dou meu consentimento.

Com essas palavras, ofereceu sua mão a Woislaw.

--- Nosso pacto está então selado - ela continuou, sorrindo. --- Agora, diga-me, cavaleiro, como devo começar essa misteriosa cura?
--- Ela começou quando a senhora deu seu consentimento - disse Woislaw, sério. --- Agora só tenho a pedir que não me faça mais perguntas, e esteja pronta para cavalgar comigo amanhã uma hora antes do pôr-do-sol. Também lhe peço que não mencione a seu pai uma palavra do que se passou. 
--- Estranho! - disse Franziska.
--- A senhora fez o pacto; não peque por falta de determinação; e eu responderei por tudo mais - disse Woislaw, encorajador.
--- Bem, que seja, então. Seguirei suas instruções - disse a dama, embora ainda parecesse incrédula.
--- Quando regressarmos, a senhora saberá de tudo; antes disso é impossível - disse Woislaw, para concluir. --- Agora vá, minha cara senhora, e descanse um pouco; precisará de força amanhã.
****


 (fim da parte três)

Referência:
COSTA, Flavio Moreira da. (org.). 13 de melhores contos de vampiros. Rio de Janeiro: Ediouro, 2002. 

p.s. Para quem se interessa pelo assunto é uma ótima dica de leitura, os contos compilados no livro são uma excelente seleção.



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