Uma visão da modernidade em "Entrevista com o vampiro" (1994).



Entrevista com o vampiro, lançado em 1994 é uma adaptação do romance escrito por Anne Rice em 1976. A autora também foi responsável por escrever o roteiro do filme, o que o tornou mais próximo da narrativa do livro, tendo algumas alterações necessárias ao processo de filmagem e adequação ao período da produção. Um filme nunca é descolado de seu contexto histórico, portanto podemos através dele analisar e perceber a sociedade daquele momento. O livro Entrevista com o vampiro é o primeiro de uma série escrita pela autora, As crônicas vampirescas. Neles, Rice inovou com a perspectiva do vampiro; ele que narra sua história, seu ponto de vista. Sua publicação teve como conseqüência a criação de uma subcultura de entusiastas, fãs, filmes e pessoas que se consideram ou desejam ser vampiros reais. Ao mesmo tempo, o vampiro é uma figura mítica que se adapta e, as inovações em sua narrativa sempre estão conectadas com as ansiedades sociais de um momento e as mudanças de uma determinada cultura. (BOHN, 2007). 

Consoante Gelder (1994) esta reprodução das ansiedades de seu tempo é uma característica observável nos romances do século XIX que refletiam o desejo e os investimentos em viagens e turismo, as questões do colonialismo, da identidade nacional. No século XX é possível ver a questões da identidade homossexual e da obsessão com o sexo e as doenças. O vampiro é um ser com mobilidade entre classes e etnias diferentes, além de ser claramente identificável com os problemas de envelhecimento, família e segurança, descrença religiosa.       

O momento da publicação de Entrevista com o vampiro afirma isto. É clara a influência dos acontecimentos do final da década de 1960 e início de 1970 na trama. Neste momento o mundo ainda esta se recuperando dos abalos causados pelos movimentos estudantis de 1968 e sua geração contestadora. Os Estados Unidos estão frustrados pela perda da Guerra do Vietnã, o escândalo Watergate, e uma nova onda de violência choca a sociedade por sua perversidade inusitada: a descoberta do “Filho de Sam” - um serial killer que atacava em Nova Iorque -, e Charles Manson, líder de um grupo na Califórnia que cometeu vários assassinatos. Aliado a isto, o avanço da AIDS – que neste período ainda não era conhecida por este nome – já carregava o estigma de ser uma doença transmitida por (e que atingia principalmente) grupos homossexuais. Todas estas questões são incorporadas na escrita de Rice, em que transparece a banalização da violência, a discussão da moralidade do assassinato, a desestruturação do modelo de família patriarcal.
De acordo com Lukacs (2006), os jovens revolucionários dos anos 1960 eram uma minoria, porém suas idéias estavam consolidadas e amplamente aceitas nos anos 1970:

O uso generalizado da expressão “estilo de vida” era em si só um sintoma da dissolução da vida familiar tradicional. Adultério, aborto, ilegitimidade, homossexualidade, a aquisição e o consumo de certas drogas eram agora assuntos corriqueiros, especialmente desde que foram incluídos em filmes populares e em programas de televisão. [...] Protestos violentos agora eram em menor número, mas a taxa de criminalidade continuava a subir, e isso tinha pouco a ver com a situação da economia. (LUKACS, 2006. p. 89-90).
 
O mesmo autor ainda menciona que o número de assassinatos sem causa aparente, cometidos por impulso ou puro gosto pela violência, aumentou ao mesmo tempo em que o interesse da imprensa diminuiu. Houve tamanha explosão de crimes sem sentido – de abusos a jovens e crianças a assassinatos em série – que passou a ser corriqueiro e não chamar mais atenção, ou seja, a violência foi banalizada ao ponto de não chocar mais a opinião pública, cada novo crime era somente mais um na lista de estatísticas policiais.

Este quadro geral contribuiu para a aceitação dos vampiros de Anne Rice e sua moral duvidosa, além de seu rompimento com o maniqueísmo clássico. Seu vampiro não é mais um monstro de filme de terror, é um cidadão comum que precisa matar para sobreviver e, se der preferência aos elementos maus da sociedade, como um justiceiro, melhor. O vampiro não só se identifica com o ser humano com suas angústias, amores, sofrimentos, frustrações, sua luta contra o mal dentro de si, dúvidas, dilemas morais, como convive entre nós em meio à sociedade sem ser percebido, a ponto de não ser possível identificar quem é um vampiro, ao contrário dos anteriores. Nele podemos ver e aceitar nosso lado obscuro e aprender a conviver com ele.
 
O aspecto mais relevante da literatura de vampiros das últimas décadas é a transformação do vampiro, que, de monstro, passou a protagonista, um protagonista que nos fascina cada vez mais e que exprime as nossas preocupações sobre liberdade, expressividade e integração, para além das restrições e limitações impostas pela comunidade. (LAGARTO, 2008. p. 44)
           
A adaptação para o cinema ocorreu quase vinte anos depois, em 1994. Toda a construção da narrativa se concentra no sentimento de culpa que Louis carrega; este é o grande diferencial de Entrevista com o vampiro. Em alguns pontos, o filme atenua falas e comportamentos. O próprio Louis, no filme, decide se alimentar apenas do sangue de animais para não matar seres humanos, pois respeita a vida e não acredita que seja correto tirá-la. Louis passa todo o seu relato se dizendo amaldiçoado, se perguntando se é uma criatura de Deus ou do diabo, tentando entender seu lugar na Criação.



Ao terminar de ler o livro ou ver o filme, entendemos que se trata de uma forma totalmente nova de mostrar os vampiros: antes apenas monstros sugadores de sangue, agora seres que buscam seu lugar e que também tem seus próprios problemas. Sendo assim, a humanização do vampiro com a identificação concomitante do leitor/espectador. Louis, o protagonista da trama, é um vampiro de 200 anos que decide contar sua vida como imortal a um jovem repórter. Sua atitude demonstra um ponto crucial na escrita de Anne Rice, dar voz às minorias. Isto é sintomático dos movimentos iniciados nos anos 1960 que tem repercussões até os dias atuais:

Os movimentos feministas e em prol da comunidade gay que se propagaram nos EUA durante os anos 60 encontraram nas histórias de vampiros uma metáfora adequada, pela inadaptação e incompreensão do vampiro por parte da sociedade. Ao humanizar-se o vampiro, coloca-se a ênfase, não na marginalidade e na ameaça que ele constitui, mas sim nos seus desejos de amor, família e comunidade, que todos os humanos procuram [...]. (LAGARTO, 2008. p. 45)

Os vampiros são tratados a partir daí, como seres excluídos que buscam seu lugar e seu reconhecimento. É esta a intenção de Louis desde o momento em que decide conceder a entrevista, fazer com que o mundo saiba da existência destes seres que convivem entre os humanos desde sempre. Ele quer divulgar sua história, a verdadeira história dos vampiros.
           
A trama mantém uma postura de desilusão com os vampiros, transformando o vampirismo quase em um estilo de vida, uma simulação do mundo real, mantendo um constante equilíbrio entre crença e descrença, ilusão e desilusão. Louis é um personagem contraditório, ele deixa de acreditar na vida, no mundo, em Deus; mas passa a acreditar num ser sobrenatural, um vampiro. Ele se agarra a ilusão de que sendo um vampiro poderá deixar todo seu desgosto e frustração no passado, o que descobre não ser possível, pois a partir do momento em que se torna um vampiro, ele passa a se questionar a respeito do sentido de sua existência e da necessidade premente e constante de ter que matar para sobreviver. Seu sonho se transforma numa grande desilusão que resulta em amargura. A transformação da narrativa feita por Rice modificou a visão dos vampiros e sua assimilação na literatura e no cinema. A partir daí, começam a surgir filmes com vampiros cada vez mais próximos do ser humano.
             
Na cultura ocidental, onde a lógica e a razão cientifica são a base do conhecimento, o vampiro, um ser sobrenatural, evoluiu se tornando mais do que civilizado, belo, romântico e representante de um comportamento rebelde e sexualmente desviante e perigoso, ele se tornou um anti-herói, que nada mais é que um herói falho, porém muito mais interessante que o herói tradicional. Eles podem ser bons enquanto escondem um passado problemático ou traumático, e intenções egoístas ou más, escondendo intenções nobres e razões complexas. Os anti-heróis podem ser fortes, física ou mentalmente, com qualidades que atraem a simpatia do público. Eles estão se tornando cada vez mais heróis positivos, embora precisem matar para se alimentar. Para o espectador isto traz a sensação que matar já não representa um crime, no sentido moral da palavra e esta possibilidade torna tênue a distinção entre bem e mal. (BILGER, 2002). Na maior parte das vezes eles são intrigantes e sensuais. Os vampiros contemporâneos se encaixam perfeitamente nesta descrição.
             
Louis busca uma identificação, um grupo de pertencimento, algo de que se sentir parte para aprender quem é e não ter mais o receio de estar sozinho no mundo. Esta é uma das grandes questões impostas pelo mundo pós-moderno que é mostrada nas entrelinhas da produção, a crise do homem moderno e pós-moderno e seu desejo de fazer parte de algo.
            
A obra de Anne Rice, escrita em meados da década de 1970, traz influências do movimento da contracultura e dos movimentos da década de 1960, que já discutimos anteriormente. Estas modificações culturais se perpetuam até a atualidade, e na produção do filme adaptado de sua obra, isso fica ainda mais claro. Louis é um arquétipo do homem contemporâneo com suas inquietações, dúvidas e questionamentos, não há como não perceber este retrato social na construção de seu personagem. Harvey (2010) afirma que “as personagens pós-modernas com freqüência parecem confusas acerca do mundo em que estão e de como deveriam agir em relação a ele” enquanto transmite “a idéia de que todos os grupos têm o direito de falar por si mesmos, com sua própria voz, e de ter aceita essa voz como autêntica e legítima.” (HARVEY, 2010. p. 46-52). Armand, um vampiro com mais de 400 anos que vive em Paris, ao conhecer Louis afirma que vê nele a representação do espírito do mundo contemporâneo:

Armand: Dois vampiros do novo mundo vieram nos levar a uma nova era aonde tudo que amamos apodrece e desaparece. [...] O mundo muda. Nós, não. Aí mora a ironia que finalmente nos mata. Quero que faça contato com essa época.
Louis: Eu? Você não vê? Não tenho época. Estou em constante desvantagem. Sempre estive.
Armand: Esse é o espírito de sua época. O coração de tudo. A sua descrença na graça é a descrença de um século. [...] Reflete a decepção. (01:23:58)

Este mundo representado no filme é o mundo do pós-modernismo, que é uma condição histórica repleta de noções conflitantes, surgido nos anos 1970, como uma forma de crítica ao modernismo, e se estabelecendo como estética cultural. É o abismo que separa as gerações, as anteriores se sentem cada vez mais deslocadas e não compreendem os jovens e seus novos conceitos que visam quebrar com as convenções e códigos vigentes. Aqueles que representavam e defendiam o pós-modernismo eram:

[...] contra tudo o que o modernismo representava, fosse em cultura ou em política. A pop arte e a música pop, a “nouvelle vague” no cinema e o “noveau roman” na literatura, o “happening” e o ser “in”, os protestos de massa e a contestação, o apagamento das fronteiras entre a “arte” e a “vida”, o cultivo da sensibilidade através do sexo e das drogas, e não a contemplação estética ou estudo intelectual, o enobrecimento das reivindicações do “príncipio do prazer” sobre as do “príncipio da realidade”, de todas essas maneiras a contracultura atacou o que considerava o mundo elitista, esotérico e autocrático do modernismo. (KUMAR, 2006. p. 146)

A palavra modernidade deriva do latim modernus, sendo utilizada no século V por Santo Agostinho contendo diversos significados; no século XII os contemporâneos acreditavam que eram modernos, empregando a palavra modernitas. Basicamente, modernidade sempre foi empregada para indicar as rupturas com o passado e as oposições geradas: cristãos (modernos) e pagãos (antigos); homens da era moderna (modernos) e era medieval (antigos). O sentido histórico da palavra modernidade difere do original anteriormente utilizado, ele surgiu “[...] com o Iluminismo, tendo seu ápice nos séculos XIX e XX.” (SILVA e SILVA, 2006. p. 297).          Segundo Silva e Silva (2006), as transformações mencionadas são oriundas do período considerado como Era Moderna que com a idéia de racionalização da vida que modificou a economia, alterando as relações feudais pelas relações geradas no capitalismo; a política, que alterou as relações de poder governamental não mais vinculadas ao direito divino, mas a um contrato com regras estabelecidas pelos cidadãos e, finalmente, a cultura, pois o homem já não precisava de mitos e alegorias para entender o mundo, ele poderia ser compreendido pela ciência, esta já desvinculada da religião que perdeu seu poder de controle sobre o indivíduo e, conseqüentemente sobre a arte que, por sua vez, se libertou dos temas religiosos.
             
O projeto de modernidade iluminista foi baseado na eficácia que previa a racionalização da relação dos homens com a natureza, na maior eficiência científica, no controle ilimitado dos homens sobre outros homens – a noção amplamente difundida do progresso para a evolução da humanidade – e na autonomia que sugeria a igualdade e liberdade da sociedade civil, que também não ocorreu de forma completa. O ideal consistia em juntar o conhecimento de muitas pessoas que trabalhassem para buscar a liberdade. A ciência permitiria o domínio da natureza evitando a escassez de alimentos e recursos; o pensamento racional traria a libertação do domínio da superstição e da religião, além do poder abusivo dos governantes. A busca do progresso e a ruptura com a história precedente faziam parte do projeto moderno iluminista. A visão iluminista era otimista, uma sociedade bem organizada e bem educada, com conhecimento científico e leis que serviam a todos era seu projeto que almejava a justiça e a felicidade humanas. O século XX, com duas grandes guerras, campos de concentração, bombas atômicas, ameaças nucleares, acaba-se com o otimismo derivado da idéia de que o progresso e a ciência mudariam as condições humanas. (HARVEY, 2010. p. 23)

No entanto, a eficácia degenerou em dominação, e é atualmente muito criticada por ser responsável pelos estragos ecológicos que o planeta enfrenta, pela desumanização das relações sociais, pela violência e belicosidade entre as Nações, pelo tecnicismo frio da vida moderna, por ter colocado em risco de aniquilamento atômico toda a humanidade. Quando se fala em crise da modernidade, fala-se, sobretudo, na crise desse modelo da eficácia que foi, de fato, o projeto de modernidade que mais se efetivou desde o século XVIII até os nossos dias, defendendo uma ciência e uma técnica que são, elas mesmas, dominação. (SILVA e SILVA, 2006. p. 299).

Ao longo dos séculos XIX e XX houveram vários autores que discutiram a modernidade e seus benefícios ou malefícios para a humanidade, alguns considerando a modernidade e as mudanças do mundo como algo positivo, outros como um aspecto negativo. Para o sociólogo Zygmunt Bauman (2001) a modernidade iniciou com a conquista do tempo e do espaço, este ocorreu quando os homens criaram máquinas capazes de percorrer as distâncias em menor tempo. A esta modernidade ele dá o nome de era do hardware que “os humanos podem inventar, construir, apropriar, usar e controlar; [...]” (BAUMAN, 2001. p. 129). Foi isto, de acordo com suas idéias, que criou a maior desigualdade entre os homens, pois aqueles que controlam ou tem acesso às melhores máquinas, detém o poder sobre os outros. A moderna tecnologia anulou o tempo, visto que, o sinal eletrônico permite contatos instantâneos independentes da distância.
             
Em nossos dias a vida moderna “nos despeja a todos num turbilhão permanente de desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambigüidade e angustia”. (BERMAN, 1986. p. 15). Para este autor, que discute a modernidade e seus desdobramentos, a humanidade esta cheia de possibilidades, entretanto está vazia de valores.
            
Já Bauman (1998) diz que na modernidade as pessoas buscam a ordem do seu mundo de forma a poder controlá-lo, mas a velocidade das mudanças traz uma constante sensação de angústia e medo, buscando alguma forma de desacelerar o ritmo da vida cotidiana. O mundo perfeito seria aquele em que reinasse a harmonia, com valores e instituições estáveis.
            
Na conjuntura atual de uma “modernidade que não sabe mais onde está, mas que se contenta com muito pouco” (GUILLEBAUD, 2003. p. 14) a busca por sentido pode ser encontrada facilmente nos manuais que ensinam com dar sentido à vida. Mas ainda vivemos na modernidade? Para alguns autores não, e esta é outra discussão bastante polêmica.
             
Para estudiosos como o antropólogo David Harvey (2010), a modernidade acabou no final dos anos 60 e início dos 70 do século XX, com os movimentos que contestaram as conseqüências do projeto de modernidade iluminista. O modernismo é identificado como a

[...] crença no progresso linear, nas verdades absolutas, no planejamento racional de ordens sociais ideais, e com a padronização do conhecimento e da produção. O pós-moderno, em contraste, privilegia a heterogeneidade e a diferença como forças libertadoras na redefinição do discurso cultural. A fragmentação, a indeterminação e a intensa desconfiança de todos os discursos universais ou totalizantes são o marco do pensamento pós-moderno. (HARVEY, 2010. p. 44)

A modernidade é feita de rupturas com todas as condições históricas precedentes, rompimentos e transições encabeçados pela vanguarda. A própria expressão pós-modernismo é emprestada da arte, seus conceitos são geralmente utilizados para explicar obras artísticas que são consideradas como tal por quebrar os valores e as convenções da modernidade. O cinema pós-moderno, por exemplo, sabe que tudo já foi dito e que é preciso retomar as velhas regras e renovar o que pode ser renovado através das menções e modificações dos antigos. (JULIER; MARIE, 2009).

É este lado que o filme explora: há um rompimento com o modelo tradicional de vampiro, como ser maldito, predominante mal e aterrorizante. As fronteiras da moralidade, do maniqueísmo são rompidas. O marginal, excluído passa a ser o centro das atenções, é o narrador de sua própria história. Mundos diferentes coexistindo num mesmo ambiente, como os vampiros que se movem imperceptíveis entre os humanos. A essência da ficção pós-moderna é suspender a crença e a descrença, os valores tradicionais.
            
Esta descrença se traduz na secularização do mundo. Na verdade, as histórias de vampiros anteriores a Bram Stoker (1897) não continham elementos cristãos, foi ele que os inseriu na luta contra o vampiro. À medida que o século XX avançou os vampiros foram influenciados pela secularização, abandonando os símbolos religiosos e demonstrando a descristianização de nossa sociedade ocidental. Os vampiros de Entrevista discutem a existência de Deus e do Diabo. Toda a busca de Louis é por uma explicação para sua condição vampírica e o entendimento de seu papel no mundo, ele busca saber se é um ser demoníaco ou uma criatura de Deus, ao conversar com Armand que lhe responde que nunca ouviu falar em nenhum dos dois e que eles não existem, Louis perde as esperanças e fica desolado. Consoante Jarrot (1999) em seu envolvimento nas discussões metafísicas e seus discursos que abordam o fanatismo religioso podemos ver a influência do gnosticismo[1] ou do ateísmo[2] de nossa sociedade, que atualmente se reflete nas discussões cada vez mais polarizadas entre a descrença total e o fanatismo religioso.

Louis: Você tem as respostas?
Armand: Você tem as perguntas?
Louis: O que somos nós?
Armand: Nada, senão vampiros.
Louis: Quem nos fez ficar assim? [...] A fonte de todo esse mal.
Armand: [...] Você morre quando mata. Sente que merece morrer e que não tem limites. Mas isso o torna diabólico? Mesmo compreendendo o que chama de bondade não o torna bom?
Louis: Então não há nada?
Armand: Talvez. Mas talvez isto seja o único mal que existe.
Louis: Então Deus não existe?
Armand: Não sei nada sobre Deus. Ou sobre o Diabo. Nunca tive uma visão ou soube um segredo que não condenasse ou salvasse minha alma. Pelo que sei, depois de 400 anos sou o vampiro vivo mais velho do mundo.
Louis: Então é como sempre temi.


Louis é como o Fausto, que segundo Berman (2007), é diferente dos heróis de seu período, sendo o primeiro de meia-idade em um universo de heróis jovens do século XVIII, quando Goethe escreveu sua peça. Fausto tem todo o conhecimento científico, viveu sua vida alimentando o espírito e não teve experiências mundanas, chega à meia-idade e se arrepende de ter se isolado do mundo. Louis, num reflexo inverso do Fausto, quer o conhecimento espiritual, passou 200 anos conhecendo o mundo, a humanidade e suas transformações, mas se sente vazio por não ter conhecimento científico e iluminação. Sua intenção é encontrar outros de sua espécie com quem possa se identificar, e obter respostas.
             
Este é outro ponto da pós-modernidade apontado no filme, a busca pela identidade numa sociedade fragmentada, diversificada e multicultural onde se deve fazer escolhas que, em alguns casos, são contraditórias e incompatíveis. Louis não é mais humano, mas também não deseja ser um vampiro, ele vive entre os dois mundos, não se encaixando completamente em nenhum dos dois. É uma metáfora social. De acordo com Hall (2006) esta fragmentação ocasiona o sujeito descentrado, que está em crise com sua identidade que não é mais fixa ou estável. Para ele, a identidade é cambiável dependendo de como nos apresentamos ou os ambientes em que interagimos tendo uma série de identidades que podemos assumir, mesmo temporariamente. Não há mais uma identidade única em cada pessoa.
             
Hall usa como exemplo os movimentos sociais e políticos que até os anos 1960 eram, geralmente designados por classe ou arena política, a partir daí movimentos de minorias passaram a apelar para a identificação de seus componentes abrindo um novo leque de possibilidades. No caso de Louis, como retrato desta busca e contradição identitária podendo se considerar vampiro, humano, pai, amigo, bom, mal, europeu ou americano. A globalização do mundo por conta das mudanças econômicas e tecnológicas do progresso alterou as noções de tempo e espaço com sua tecnologia que proporciona a facilidade da comunicação e informação simultâneas não importando onde ocorreu determinado fato, do outro lado do globo a visualização é imediata, transformando o mundo numa aldeia global, o planeta é todo interligado por questões de ecologia e economia e o tempo é cada vez mais reduzido devido a possibilidades de atravessar a mesma distância, cada vez mais rápido, com a evolução dos meios de transporte. A busca de Louis por uma identidade, por um grupo, por um lugar ao qual pertencer é a nossa procura num mundo sem fronteiras em que todos são padronizados pela moda, pela mídia.
             
Harvey (2010) aponta uma conseqüência mais profunda, dizendo que a aceleração da produção e circulação dos bens de consumo a partir dos anos 1960 abriu a perspectiva para um mercado de coisas instantâneas e descartáveis. A possibilidade de poder, com facilidade, jogar fora e substituir produtos foi transferida para outros aspectos da vida como valores, estilos de vida, relacionamentos. A pós-modernidade traz um sentimento de desligamento dos desejos coletivos em prol dos individuais, uma busca constante do novo mesclado com a nostalgia do tradicional, auxiliado por um mercado que impede a criação de tradições entre as inovações.
            
Consoante o autor, no Manifesto comunista, Marx e Engels afirmam que a burguesia criou um novo internacionalismo através do mercado mundial, ao lado da sujeição das forças da natureza ao homem, do maquinário, da aplicação da química à agricultura e à indústria, da navegação a vapor, das estradas de ferro, do telégrafo, da devastação de continentes inteiros para cultivo, da canalização de rios, do surgimento de populações inteiras como por encanto. Fê-lo a um alto custo: violência, destruição de tradições, opressão, redução da avaliação de toda atividade ao frio cálculo do dinheiro e do lucro. Em busca de lucros são criados novos desejos e necessidades visando a produção de novos produtos que alimentam o apetite imaginário, a fantasia, o capricho e o impulso. É o caso do culto ao corpo e a juventude como modelos a serem seguidos numa sociedade que produz e consome cada vez mais produtos e tratamentos milagrosos para aplacar o avanço da idade, ou pelo menos a aparência dela, e a doença que tem que ser escondida a qualquer custo.
             
Louis, “o imortal com a paixão dos mortais”, nas palavras do vampiro Armand, é um reflexo de nossas próprias ansiedades e disputas interiores. O fato de ele precisar usar a violência e a agressividade, causando a morte para aqueles que são seu alimento, não choca mais, não há mais terror no vampiro. Os deslocamentos dos limites dos valores e da moralidade tornam suas ações, no máximo, questionáveis e o fato de ele ser um assassino frio não afeta a imagem sedutora e bela do monstro com aparência angelical.
             
Em Entrevista com o vampiro não há redenção pelo amor ou pela virtude, Louis se considera vazio, sozinho, um estranho a vagar num mundo onde não pode ser aceito; não há maniqueísmo absoluto, apesar de se compadecer dos seres humanos e ter compaixão, ele não deixa de matá-los para garantir sua sobrevivência e, principalmente, não há final feliz.

Notas:


[1] É um sistema filosófico e teológico cujos sectários pretendiam ter um conhecimento completo e transcendente da natureza e dos atributos de Deus.
[2] É a negação ou a falta de crença na existência de deuses, sejam quais forem.

Referências:

BAUMAN, Z. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BERMAN, M. Tudo que é sólido desmancha no ar: a aventura da modernidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1986.
BILGER, N. Anomie vampirique, anémie sociale: pour une sociologie du vampire au cinéma. Paris: L’Harmattan, 2002.
BOHN, M. Shadow of the vampire: understanding the transformation of an icon in popular culture. University Honors Program. Disponível em: <https://digital.library.txstate.edu/handle/10877/3224>. Acesso em: abr. 2013.
ENTREVISTA COM O VAMPIRO. Título original: Interview with the vampire. Direção: Neil Jordan. Produção: David Geffen e Stephen Wooley. EUA: Geffen Pictures, 1994. 1 DVD (122 min.). son., color.
GUILLEBAUD, J. A reinvenção do mundo: um adeus ao século XX. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2003.
HALL, S. A identidade cultural na pós-modernidade. Rio de Janeiro: DP&A, 2006.
HARVEY, D. Condição pós-moderna: uma pesquisa sobre as origens da mudança cultural. São Paulo: Loyola, 2010.
KUMAR, K. Da sociedade pós-industrial à pós-moderna: novas teorias sobre o mundo contemporâneo. Rio de Janeiro: Zahar, 2006.
JARROT, S. Le vampire dans la littérature du XIXe au XXe siècle. Paris: L'Harmattan, 1999.
JULLIER, L.; MARIE, M. Lendo as imagens do cinema. São Paulo: Editora Senac São Paulo, 2009.
LAGARTO, P. C. D. Os vampiros do novo milênio: evoluções e representações na literatura e outras artes. Julho/2008. Dissertação - Universidade de Évora. Évora: 2008. Documento eletrônico disponível em: <http://www.ensino.uevora.pt/mclc/MCLC_VampirosdoNovoMilenio_pLagarto.pdf> Acesso em: abr. 2013.
LIPOVETSKY, G. Os tempos hipermodernos. São Paulo: Barcarolla, 2004.
LUKACS, J. Uma nova república: história dos Estados Unidos no século XX. Rio de Janeiro: Jorgel Zahar, 2006.
RICE, A. Entrevista com o vampiro. Rio de Janeiro: Rocco, 1992.
SILVA, J. M. da. Apresentação. In: LIPOVETSKY, G. A sociedade da decepção. Barueri: São Paulo: Manole, 2007.
SILVA, K. V.; SILVA, M. H. Iconografia. In: _____. (orgs.). Dicionário de conceitos históricos. São Paulo: Contexto, 2006. p. 198-201.
_____. O mal-estar da pós modernidade. Rio de Janeiro: Zahar, 1998.


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