Seres monstruosos na Roma Antiga: um breve resumo

A crença em seres monstruosos acompanha os primeiros relatos mitológicos surgidos na Antiguidade. Podemos encontrá-los com os mais variados nomes e tipologias. Dois tipos específicos de seres monstruosos, que pretendemos aqui analisar, são as 'stregas', que sugavam o sangue de bebês e as 'empusas', que comiam a carne e bebiam o sangue de jovens atraentes. 

Esses mitos, de origem Greco-romana, estavam largamente difundidos na sociedade nos primeiros séculos da sociedade imperial romana, e cumpriam uma importante função social: a aura de medo e terror imposta por esses seres defendia um discurso de controle dos comportamentos moralmente desregrados, bem como servia para justificar mortes prematuras e acidentais. 

O objetivo neste trabalho é analisar alguns dos relatos sobre esses dois seres mitológicos, e suas conexões com pensamento mítico e religioso romano, contribuindo para um melhor entendimento do imaginário deste período, de forma breve e concisa. 

O tema original de minha pesquisa são os vampiros na História e suas representações na literatura e no cinema. Mas qual a relação com a stregas e empusas da Antiguidade Clássica? São todos mitos e crenças conectadas. A palavra vampiro foi usada pela primeira vez em 1732 num periódico francês. Até então, todos os seres monstruosos e maléficos eram frequentemente confundidos e não havia definição clara entre eles de acordo com Ronecker (2000, p. 64).

Contudo o que ligava todos estes seres era o fato de beberem sangue e serem normalmente os culpados pelas mortes inexplicáveis e prematuras. Além disto, o medo que eles inspiravam era utilizado como forma de controle social para garantir uma vida correta e dentro das normas, visto que, era difundida a crença de que aqueles que praticavam atos malignos ou que viviam desregradamente voltavam dos mortos para atormentar os vivos. O cuidado para não se tornar um deles escondia o medo de algo ainda mais misterioso: a morte. Em todas as sociedades, desde os tempos mais remotos, encontramos relatos sobre seres monstruosos e temidos, o homem sempre buscou no sobrenatural explicação para aquilo que não compreendia. Entretanto o que vamos focar aqui são as crenças nas stregas e nas empusas, originárias respectivamente, da Roma e Grécia Antigas.

As stregas 

A palavra strega é italiana, significa bruxa e tem sua origem no latim strix, no plural striges. Ela foi adaptada para várias línguas latinas, entre elas o romeno que denomina bruxas e vampiros como strigoi. A Roma Antiga acreditava que as stregas roubavam crianças para beber seu sangue com isto explicavam as mortes prematuras. Melton (2003, p. 686-687) afirma que durante o período da Inquisição as acusadas por bruxaria foram identificadas com elas.

A identificação das bruxas com os vampiros vem da similaridade de suas ações, visto que, de acordo com Montague Summers (1929) alguns aspectos da bruxaria envolvem o poder maligno que permite que suas vítimas sejam extenuadas e drenadas, definhando até a morte.

O autor romano Lucio Apuleio em seu livro O asno de ouro, escrito no século II conta a história de Sócrates, um jovem que havia caído sob a influência de uma bruxa que o forçava a ser seu servo. Quando o amigo Aristomenes o encontra e tenta convence-lo a fugir na manhã seguinte. Durante a noite, acordado por estranhos sons, Aristomenes vê duas bruxas abrindo a garganta de Sócrates e sugando seu sangue. Apavorado ele tenta fugir e fica surpreso ao encontrar o amigo – considerado morto - a espera-lo. Ambos se afastam do lugar e durante sua fuga ao pararem para beber água, Sócrates cai morto e totalmente exangue, com apenas a marca de um corte no pescoço. Neste conto temos a ligação da bruxa com as atitudes vampíricas, um ser demoníaco, sobrenatural que precisa de sangue para viver. A morte da vítima só é descoberta quando ele tenta beber de um rio por conta da supostas propriedades mágicas da água corrente. 

A strix, a bruxa romana, era identifica com um pássaro, mais próximo de uma coruja que, com suas garras afiadas abria o peito das crianças e com seu bico as dilacerava e bebia seu sangue, ou ainda, bebia seu sangue e as estrangulava. O poeta romano Ovídio no quarto livro de sua obra Fausti escrita no século I, descreve uma strix:

“Eles voam à noite e procuram crianças sem babás, sequestram-nas de seus berços e emporcalham seus corpos. Dizem que laceram as entranhas das crianças com seus bicos e suas gargantas ficam cheias do sangue que beberam. São chamados de striges.” (Ovídio, I apud MELTON, 2003)

Elas eram responsabilizadas, de forma geral, pela morte súbita e desaparecimento de bebês para o que não havia explicações. Numa situação a criança morria sem explicação, na outra era assassinada pela mãe, mais provavelmente, o que mesmo nas sociedades antigas era chocante. Neste caso, a escolha das vítimas demonstrava de forma incontestável a maldade da bruxa, pois ao matar bebês ela minava o futuro da comunidade, destruindo-a através da morte de uma criança inocente. Esta violência alterava a ordem natural do universo, comprometendo o futuro das famílias e deixando claro o desejo da bruxa de destruir o mundo. 

Tais crenças persistiram durante séculos levando o medo e a perseguição à strega a se disseminar por todo o Império Romano, tanto que no século IX, Carlos Magno decretou pena capital a todos aqueles que acreditassem ser outra pessoa uma strega e com isto a matasse queimando ou canibalizando seu corpo, já que esta era a forma mais comumente conhecida de destruí-la. 

Segundo Montague Summers (1929) a crença nas stregas permanece na Itália moderna, sendo identificadas como mulheres que tem o poder de se transformar em pássaros e sugam o sangue humano e possuem um veneno mortal em seu hálito. Desta forma, constatamos que as lendas e mitologias da Roma Antiga ainda permanecem vivas no imaginário europeu, mesmo decorridos tantos séculos.

As empusas ou lâmias

As empusas ou lâmias são provenientes da Grécia Antiga e, da mesma forma que as stregas, acusadas de serem as responsáveis pela morte prematura de bebês que não podiam ser explicadas de forma racional, então buscava-se uma explicação sobrenatural para o fato.

Segundo Melton (2003, p. 362), na Grécia antiga existem relatos sobre vários tipos de vampiros, um deles é a lamiai, que vem de Lâmia que se dizia ser uma rainha líbia amaldiçoada pela deusa Hera – esposa de Zeus, rei dos deuses do Olimpo, na mitologia grega – por ser uma das amantes de Zeus, como vingança Hera privou Lâmia de seus filhos e a baniu para uma caverna, amaldiçoada ela matou todos os bebês humanos sugando-lhes o sangue. Com o tempo, os gregos perderam seu medo das lâmias, mas ainda permanece uma crença antiga que diz que quando uma criança morre sem causa aparente, ela foi estrangulada por uma lâmia, o que deixa entrever um ponto comum em todas as lendas: a busca de uma explicação para a morte prematura. 

Quando esta resposta não é encontrada no mundo real, ela é automaticamente associada a uma causa sobrenatural. Para Florescu e McNally (1995), a lâmia era conhecida também como empusa, um ser “horrível homem-mulher-demônio de asas, que levava os jovens à morte para beber seu sangue e comer sua carne”.

Por volta do século II d.C. o escritor Flávio Filostrato escreve a obra “A vida de Apolônio” como biografia deste filósofo grego, nela ele conta que por volta do ano 61 d.C. em uma visita à cidade de Corinto, Apolônio encontrou um jovem amigo, Menipo, que se disse apaixonado por uma mulher encantadora, rica e estrangeira e que ia casar com ela. Apolônio disse ao rapaz que se tratava de uma lâmia, um ser demoníaco, mas não foi ouvido. No dia do casamento Apolônio vai até a casa da mulher e a confronta, até que finalmente ela confessa seus planos de alimentar-se do rapaz pois é “bonito e seu sangue é puro e forte.” (MELTON, 2003). Esta história demonstra a antiguidade das crenças nestes seres.

As empusas eram consideradas seres demoníacos, ligadas à strix, que sugavam o sangue de crianças pequenas, mas não somente delas pois, também podiam se transformar em lindas donzelas para atrair os jovens e seduzi-los com sua beleza e riqueza, tendo a intenção de sugar-lhes o sangue e a juventude.

Considerações Finais:

Em ambas as culturas aparecem relatos de bruxas e seres demoníacos que sugam e matam crianças inocentes e, também, jovens homens. Elas aparecem como forma de, no primeiro caso, explicar o inexplicável através de um bode expiatório que deve levar a culpa pelos problemas da comunidade. Estas bruxas, assim como os vampiros, a quem estão ligadas são a representação do medo de um determinado grupo. Eles encarnam o medo da morte, do desconhecido, daquilo que foge ao previsto, à rotina local. Ginzburg (2001) afirma que “toda morte é um acontecimento traumático para uma comunidade: uma verdadeira crise [...]”. 

Sendo assim, o medo coletivo se torna pânico coletivo, revolta, cria um clima de ansiedade e neuroses que acaba por “levar a explosões violentas ou perseguições de bodes expiatórios.” (DELUMEAU, p.29). Isto é o que ocorre com estes seres monstruosos; a partir do primeiro caso, toda a comunidade é tomada por um medo coletivo e todos os problemas passam a ser direcionados para aquele que se torna o culpado por todos os problemas.

Já no segundo caso, dos jovens seduzidos, é um alerta para comportamentos desregrados. Ao se deixarem seduzir por uma mulher desconhecida e se deixar levar por uma vida apenas de prazeres, estão inconscientemente, abrindo as portas para a morte e a desgraça. Era necessário viver dentro das normas e dos códigos morais, respeitando a regras sociais.

2 comentários:

  1. Olá, cheguei até aqui através de conto o estranho misterioso, de vampiro, cujo enredo considero excelente demais para que o autor seja anônimo.
    Gostei muito da proposta do blog. Há muita boa informação aqui. Obrigado!

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    1. Olá Luciano, que bom que você gostou! Infelizmente não há informações sobre o autor do conto, só sabemos que o Stoker usou, e muito, das prerrogativas dele. Abs,

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